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Tuesday, June 20, 2006

Dia -239

Por isso...
... é melhor assim.

Monday, June 19, 2006

Dia -238

Provavelmente, sim
(é verdade,
que viveremos)

Thursday, June 15, 2006

Dia -234

Destroço Recuperado...
...de Uma Carta Muito Antiga
Não que ele fosse um homem maravilhoso,
era apenas um homem,
mas deu-me
uma dimensão
de mim, de tudo,
que eu não tinha.

Tuesday, June 13, 2006

Dia -232

Repetição
Vejo o que escreves.
E o que escreves.
Mesmo com outra destinatária
(ou talvez sem nenhuma).
É igual.
Estranhamente igual.
Ao que escrevias antes.
Para mim.

Friday, June 09, 2006

Dia -228

A Verdade...
... é que até para respirar,
me fazes falta.

Wednesday, June 07, 2006

Dia -226

O Ponto
Vens aqui picar o ponto.
Não pontualmente
como se deve.
Picar.
O ponto.
Mas vens.
Ponto.

Monday, June 05, 2006

Dia -224

Domingo
Pois. Acabou o Domingo. São 1:01.
Leio o que escreves.
Há uma coisa repetida, pelo menos dessa recordo-me.
Que já estava antes. No princípio.
Mas ocorre-me que estejas apaixonado.
Não sei bem se gosto disso
(não tenho que gostar ou não gostar).
Sentei-me na varanda hoje.
À hora que o sol começa a descer.
Para as bandas do mar.
Que se vê (um bocadinho) daqui.
Lembrei-me da expressão que fazias.
Quando a uma hora parecida o sol te batia em cheio na cara.
Na minha varanda.
Lembrei-me disso.
E fiz a mesma expressão que fazias.
Mas não aconteceu nada.
Era Domingo.
Continuou a ser.

Monday, May 22, 2006

Dia -209

A Estúpida Ironia
Chego a Lisboa. Ontem. Sábado. Exactamente às 16:15.
Se fosse propositado, não seria tão estupidamente irónico.
Mas assim?
Não houve nenhum girassol à minha espera.
O local era o exacto.
A hora era a exacta.
Apenas uma pétala abandonada.
Num caderno de apontamentos.
Onde aponto também flores.
Ou o que delas (me) resta.
E uma etiqueta colada numa folha.
Que (ainda) me diz: Amo-te.
Numa espécie de grego.

Thursday, May 18, 2006

Dia -205

Absolutamente
Porque é que quando agora digo meu amor
não acontece absolutamente
nada?

Sunday, May 14, 2006

Dia -202

A Pergunta a que ninguém (me) responde

Para onde vão os amores que foram um dia?

R.Guedes de Carvalho - Mulher em Branco

Saturday, May 13, 2006

Dia -201

Sábado, 16:15
Há dias e horas. Insuportáveis.

Friday, May 12, 2006

Dia -199

O Tempo Perdido
Nada ficou. Aqui.
Quanto mais penso. Mais sei.
Que não acrescentaste nada.
Tiraste só algumas coisas.
Não deixaste praticamente nada.
Não sei onde estava com a cabeça.
Quando me atrevi a lamentar.
Só tempo perdido.
E eu que tenho tão pouco.
Raios me partam.
Tudo o que fiz contigo.
Podia ter sido feito.
Apenas comigo.
Sem perdas de tempo.
Sem ondas.
Sem nada.
Exactamente... sem nada, como ficou.
O que vale. É que ainda me tenho a mim.
E comigo. Eu nunca perdi o meu tempo.

Saturday, May 06, 2006

Dia -193

A Carta
(que nunca te escrevi, nem nada)
Se eu soubesse a razão. Para a minha súbita loucura.
Saberia. Certamente.
Porque perdi o que julguei ter encontrado.
Em ti. Ou através de ti. Ou por ti.
Ou em mim. Por tua causa.
Se eu soubesse a razão. Se eu, ao menos a tivesse!
Saberia.
Que no teu amor por mim começaram largas avenidas.
Que se abrem agora essas avenidas.
Como estradas para lugar nenhum.
No fundo das avenidas que o teu amor abriu em mim não existe mais nada.
Nem a razão que eu queria saber.
Se eu soubesse a razão.
Para a minha súbita crueldade.
Para a minha súbita entrada do lado do que se não dirá nunca.
E nunca. E nunca. Menos ainda. A quem diz amar-se.
Se eu a soubesse.
Saberia talvez a matéria de que sou feita.
Saberia que há um universo indefensável.
Se eu soubesse a razão.
Do meu súbito desejo de te fazer mal.
Não o teria tido.
Tudo estaria como agora.
As avenidas abertas.
E ao fundo... uma razão para viver sem culpas.
Haveria a razão que outrora havia.
Se eu soubesse mexer nas coisas.
Saberia.
Que nada muda o amor que tive. E me tiveste.
Que nada transforma um ataque suícida.
Que nada muda que o amor que tive e me tiveste seja exactamente isso.
O amor. Que eu te tive. E me tiveste.

Friday, March 17, 2006

Dia -144

O Regresso
Alguém me disse. Num dia a menos. Que não podemos regressar.
Aos lugares. Onde. Já fomos. Felizes.
Desde esse dia. Menor. E a menos.
Nunca deixei de regressar. Àquele lugar. Àquela pessoa.
Onde. Com quem.
Nunca fui outra coisa. Senão. Feliz.

Wednesday, February 15, 2006

Dia -114

Detesto o Amor*
A verdade é que não detesto o amor.
Apenas as celebrações a dias certos. Aparatosas.
Cheias de coisas vermelhas. Parafernália inútil. Ao próprio amor.
Na verdade, tenho saudades dos homens que amei profundamente.
Na verdade, detesto a ideia de já não os amar.
Ou de eles já não me amarem a mim.
*J'Ai Horreur de L'Amour, apresentado em Portugal com o título 'Detesto o Amor' é um belíssimo filme de Laurence Ferreira-Barbosa.

Wednesday, January 11, 2006

Dia -79

O Pôr do Sol
Depois daquele pôr do sol, com ele, numa tarde fria de Setembro, pensou que existiriam outros.
Pores do sol. Com ele.
Mas não.
Os únicos pores do sol que agora observa, são os que imagina.
Como no asteróide B612, imagina 1240 pores do sol.
Basta mover a cadeira um milímetro.
E volta a tarde fria. O mar. O pôr do sol. Aquele. O dia quase noite.
E mesmo ele se senta numa cadeira ao lado da sua.
1240 vezes. Por dia.

Sunday, January 01, 2006

Dia -68

A Sms
Sabes? Amo-te. E tenho pena. De não estarmos os dois hoje. Como dissemos.
Tem um bom ano.

Wednesday, December 28, 2005

Dia -64

A Mensagem
Estou aqui. Gostava de falar contigo. Não trouxe as tuas coisas. Afinal.
Mas mesmo assim gostava. De falar contigo.

Thursday, December 15, 2005

Dia -52

O António
Gosto do nome. António. O meu pai chama-se António. Talvez seja por isso.
António não é um nome qualquer. É o meu nome preferido. Deve ser por isso.
Que sempre gostei de Antónios. Estive a contar os 'meus' Antónios.
Cheguei à conclusão que foram predominantes. Os Antónios. Na minha vida.
Isto deve querer dizer qualquer coisa. Freud talvez explicasse.

Wednesday, November 30, 2005

Dia -37

O Abel
Eu teria 14 anos, 14 para 15 anos. O Abel 17 para 18. Lembro-me de um dia, longe de casa. Da minha. Mas demasiado perto da dele. Eu tinha uma t-shirt vermelha, e umas calças de ganga, rotas. Eu tinha uma trança enorme, com um laço na ponta. Foi o meu avô Alberto que me colocou o laço na ponta, nesse, como nos outros dias em que eu estava longe de casa. O meu avô Alberto gostava da minha trança. Talvez fosse o que ele mais gostava em mim. Da minha longa trança. Dizia o meu avô que não havia trança mais bonita e que uma trança assim tinha que ter um enorme laço a rematá-la. E colocava-me o laço. Orgulhoso dos meus cabelos. Mais que eu. Que achava horrível ter 14 para 15 anos e uma trança daquelas a cair por mim abaixo. Mas o Abel também gostava da minha trança, se bem que admirasse mais as minhas mamas. 17 anos. Hormonas a saltar dentro dele todo. E eu era uma miúda gira. Ou seriam as minhas mamas que eram. Já não sei. Apesar da trança. Desculpa avô Alberto. Mas eu só comecei a gostar da minha trança no dia em que fiz 18 anos e rapei o cabelo. E. de repente, senti a falta da trança e da tua mão a pôr-me o laço. Mas tu isso já não soubeste. Já tinhas morrido e nunca mais ninguém se tinha interessado se a minha trança merecia um laço ou não. Mas o Abel, naquele dia, sentados ambos no degrau da casa dele atirou-me do fundo dos olhos verdes: tu queres namorar comigo? E eu fiquei a remexer na trança e a olhar para ele como se nunca o tivesse visto e pensei de mim para a minha trança: mas o que é que este quer? Quer dizer, não era a pergunta a novidade. Eu disse que era uma miúda gira. Apesar da trança. Ou por ela. Ou mesmo pelo laço. Era o Abel a fazer-me a pergunta, a novidade. Na verdade, se fosse hoje saberia porque é que não lhe respondi logo e o deixei pendurado como a trança, na resposta. Mas isso era hoje. Naquele dia, a só pensei o que é que este gajo quer? Na verdade, não sabia o que é que ele queria. Apesar das hormonas. Aos saltos. Bom, mas isso é o que querem todos e o que depois dele todos quiseram, de facto. E está bem. Eu também quero e também quis. Sem nenhuma excepção, ao que me lembro. Mas o que ele queria era ensinar-me coisas. E ensinou-me todas essas coisas das hormonas. Dos saltos. Dos livros. Da erva. Da distância sem sentido. Do querer até não poder mais e de poder tudo. Até querer. Ensinou-me a trair. Delimitou-me as estradas que haveria sempre de seguir. O Abel foi assim uma espécie de mapa sem cidades, só com caminhos. Quando o deixei um dia qualquer, muitas hormonas depois, muitos livros a seguir, muitos charros entretanto, muitas bebedeiras adiante, muitos sentidos desvendados, muitas traições bem cumpridas, no meio de um centro comercial lisboeta apinhado de gente... quando o deixei depois de lhe ter dito 'venho já'. Quando nunca mais lhe atendi o telefone. Adiante. Tinha o mapa das estradas traçado. O meu. Nunca foi muito diferente depois disso, a não ser que, outras vezes, foi também a mim que me deixaram pendurada na vida, sem o letreiro 'volto já'. Ou que não me atenderam o telefone. Mas os caminhos estavam traçados. E por acaso segui-os. O padrão que havia de seguir e errar e seguir e errar e errar e seguir. Adiante. Depois. Estava traçado. Para além disso, a única coisa que restou do Abel, de mim, da minha trança e do laçarote que me punha nela o meu avô Alberto, ainda é visível. E permanece. Está cravada, em letras monumentais, numa parede ao pé da casa dele (demasiado longe da minha, para que me alimente o ego) 'Amo-te B.' A B. sou eu, bem entendido.