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Tuesday, January 17, 2006

Dia -85

O Vidro
Gosto de pessoas de vidro. Fragéis. Sem medo disso. Transparentes.
Tanto. Quanto. Possível. De vidro. Que se quebram. Que se deixam quebrar.
Que sabem. Quebrar. Se.

Monday, January 02, 2006

Dia -70

A Excepção
Abri uma excepção. Não sei se reparaste que, para ti, abri uma excepção.
Reparei, claro. Mas isso não me interessa. É que eu também abri uma excepção.
Mas eu nunca faço isso.
Sim, por isso se chamam excepções... às coisas que raramente se fazem.
Mas eu, para ti, abri uma excepção. Não reconheces?
A minha excepção é maior que a tua. Desculpa mas vou fechá-la. Não quero que abras nada. Quero fechar tudo. Fingir que morri. Amanhã nasço outra vez. A não precisar. De excepções.

Saturday, December 31, 2005

Dia -67

As Cicatrizes
Ela pensou no corpo dele. O lado direito com profundas cicatrizes. Visíveis.
Longas. Brancas. Ela pensou. Nele. E viu as cicatrizes. Negras. Silenciosas.
Dentro.

Friday, December 30, 2005

Dia -66

A Honra
Ela sentiu-se ofendida. Ele sentiu-se ofendido. Trocaram insultos.
Pesados. Feios. Orgulhosos. Maus. Ele achou que perdera alguma coisa.
E que tinha que demonstrar outras. Ela não achou nada. Limitou-se a concordar.
300 quilómetros os separavam. Reduziram a distância.
Foderam-se. Vieram-se. Desligaram-se.
O orgulho ferido é uma coisa tramada.

Thursday, December 29, 2005

Dia -65

O Insulto
Vá. Diz lá. Chama-me nomes. Eu gosto. Insulta-me. Como queiras.
O pior insulto é o teu orgulho.

Monday, December 19, 2005

Dia -55

As Pessoas
As pessoas são estranhas. Não compreendo as pessoas.
Nunca compreendi as pessoas.
Na verdade conheco poucas. Pessoas. Conheço muita gente.
Mas pouquíssimas. Pessoas.
Deve ser por isso que não as compreendo. Porque não as conheço.

Monday, December 12, 2005

Dia -49

O Bilhete de Identidade
O livro de que se fala. Acabei de o ler.
Digamos que sou muito curiosa. Cuscuvilheira até. Foi nessa condição que o li. Não lhe encontro grande interesse sociológico, na verdade. Não me parece que retrate uma época. retrata apenas a vida das elites numa determinada época. A autora não tem, evidentemente, culpa, de ter nascido 'remediada' num país cuja maior parte das pessoas vivia miseravelmente. Não tem culpa também de, sendo oriunda de uma família 'remediada' se ter dado (e ter valorizado isso) apenas com pessoas de famílias 'bem'. O livro não é um documento importante. Basicamente trata-se de saber com quem namorou Maria Filomena Mónica. Com quem dormiu. E quais eram os apelidos 'de família' das suas conquistas. Parece-me pouco. Mas a minha costela de alcoviteira delirou.

Tuesday, November 01, 2005

Dia -8

O Medo
Tens tanto medo que não respiras. Tens tanto medo que apagas tudo.
Como se fosse possível apagar tudo. Apagar a memória.
Apagar o medo do que ainda está para vir. Olhas as fotografias e tens medo.
Olhas aquela cara, agora estranha, e tens medo.
Sabes que tens medo e que não podes fugir para sítio nenhum.
Estás pendurado num estranho sítio. Não podes sair. Não podes fugir.
Tinhas de matar. Sem morrer. O amor é como a guerra. Aprende a matar. Aprende a fugir.
Aprende a separar os teus inimigos dos teus amigos. Aprende a viver. Com medo.