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Monday, April 24, 2006

Dia -182

O Perigo
Há olhares que nos atravessam.
Que entram cá dentro.
Não sei como.
Ou por onde.
Há olhares que, sabemos, não podem ser retribuídos.
Podia ser perigoso.

Tuesday, April 18, 2006

Dia -176

O Ciclo
São 28 dias, mais ou menos. Os ciclos da lua.
Os ciclos menstruais.
Os ciclos das coisas que fazem a vida ser qualquer coisa mais.
Que dias a menos. Para a morte.
Foram 28 dias mais ou menos. Não sei. Não decido facilmente.
Se a mais na vida. Se a menos para a morte.
Fumo o enésimo cigarro após as quatro e meia da tarde.
Há demasiada solidão nos cigarros que fumo.
O ciclo que se acaba. Eu que volto à minha vida.
Não me queixo. A vida é-me suave.
Os dias que me restam serão suaves.
O sofrimento não tem lugar. Não pode. Quando se espera.
Suavemente.
Fumando cigarros cheios de solidão.
A morte.

Friday, April 07, 2006

Dia -165

Quem é a Imperatriz, afinal?
(ou de como, se eu acreditasse nesta treta, tudo seria mais fácil, ou pelo menos parecer-me-ia melhor)
Carta dominante: III A IMPERATRIZ
A IMPERATRIZ define um mês excelente para os nativos de Capricórnio.
A IMPERATRIZ permite desenvolver aspectos de personalidade, ultrapassar barreiras, estabelecer novas pontes de comunicação e alargar horizontes.
Capricórnio deve confiar mais em si próprio e em circunstância alguma colocar limites aos seus sonhos; este mês pode dar passos muito importantes fruto de iniciativa própria. Sentimentalmente este é sem dúvida um mês de evoluções muito agradáveis; em Abril a vida de Capricórnio pode dar uma volta significativa no sentido ascendente.
A renovação da vida sentimental está bem patente na conjuntura perspectivando-se momentos de grande intensidade e romance. Não volte as costas ao amor porque, de acordo com as cartas, ele virá este mês ao seu encontro.
No campo profissional o mês é muito positivo no campo profissional. Pode fazer alterações porque a conjuntura ajuda-o e “empurra-o “ para situações mais favoráveis. Este mês não esteja com meias medidas e enfrente decididamente o seu futuro; está no momento certo para iniciar uma nova fase profissional. Não dê ouvidos a quem pretende tolher-lhe o passo; dos fracos não reza a história. Na saúde está muito sensível e por isso sujeito a momentos de quebra energética ou cansaço excessivo.
LIGAÇÕES MAIS PROTEGIDAS COM – Carneiro, Leão e Sagitário

Tuesday, March 28, 2006

Dia -155

O (teu) Vazio
Nada a fazer quando o silêncio toma o lugar outrora ocupado. Pela música.
Nada a fazer quando a única coisa possível é fechar os olhos.
E voltar a abri-los para reconhecer que falhaste.
Outra vez.
Que ainda não. Que ainda não.
Que agora. Já. Não.
Já não sentes a música. Que foste assaltado pelo silêncio.
Quando antes todas as coisas se dissolviam na música.
Não quero que deixes de ouvir a música. Mas sei.
Que há silêncios que nos tomam.
Nada a fazer. Quando. A única coisa possível é reconhecer que ainda não.
Que. Agora. Já não.
Nada a fazer?

Friday, March 03, 2006

Dia -130

A Espera
Às vezes fica tudo suspenso. Parece que nada se move.
Que nada acontece. Nessas vezes. Eu. Fico expectante.
Como os terrenos. À espera de movimento.
À espera de construções.

Wednesday, February 22, 2006

Dia -120

O Fantasma
De repente reapareceu-me. Como um fantasma. Ou como sei lá o quê.
Disse-me, como se me tivesse visto há pouco tempo:
'sonhei contigo ontem. Quis ver o que faria o destino.'
Fiquei meia azamboada, confesso, com este fantasma sonhador e crente no destino.
Perguntou-me ainda: 'posso convidar-te para jantar amanhã?'.
No meio de alguma confusão. Que o fantasma não deixou de se caótico só por ter começado a sonhar comigo e a acreditar no destino, lembro-me de lhe dizer:'ora, bardamerda'.
E pronto. Esfumou-se.

Tuesday, February 21, 2006

Dia -119

O Sentimento de Culpa
Não sei bem o que fiz. Mas alguma coisa foi. Se mereço isto.
A culpa. Sentir culpa. Mesmo que a culpa. Não seja minha.
Mesmo que não saiba de quem é a culpa.
'Je me sens coupable, parce que j'ai l'habitude.
C'est la seule chose que je peut faire, avec une certaine
certitude'.
Lhasa The Living Road

Thursday, January 26, 2006

Dia -94

O Amor na Era Virtual
Antigamente as pessoas acabavam os relacionamentos.
Agora apagam-se das listas de contactos.
Pode ser-se mais descartável que isto?

Friday, January 20, 2006

Dia -88

A Medida Certa
Tu foste muito amada. Ou amaste muito. Ou... whatever.
Whatever?

Wednesday, January 18, 2006

Dia -86

A Repetição
É sempre o mesmo. Já se viu. Já se disse. Já se fez. É sempre o mesmo.
Mas acredita-se sempre que não é igual. Ou. Que não vai ser.
Uma repetição.

Monday, January 09, 2006

Dia -77

O Inexplicável
Uma tipa consegue distinguir entre uma bola de ping-pong e uma bola de golf.
Entre peixe fresco e peixe fora de prazo.
Entre um Dali e um Magritte.
Entre um Casa de Santar e um Barca Velha.
Entre um Sartre e um Camus.
Uma tipa consegue distinguir entre a pura lã e mistura de acrílico.
Entre um tecido bom e um pano ordinário.
Entre um lenço de seda e um lenço de crepe.
Entre um base beige e um fond de teint claire.
Entre um long lasting lipstick e um baton vulgar.
Uma tipa consegue distinguir os padrões da Luis Vuitton e os da Burberrys originais, das imitações.
Entre um tailleur chanel e um fato de modista.
Como é que se explica que, com tantos skills, uma tipa não consiga distinguir um homem bom de um bom homem?

Tuesday, November 15, 2005

Dia -22

O Engate
Isabela era feia como, dizem, é a noite. Dizem. Não sei. Para mim a noite é sempre mais bonita que um dia qualquer. Mas Isabela era feia. Feia de fugir. Feia como uma máquina de lavar enferrujada que alguém deixa na beira da estrada. Isabela era feia. E estava sozinha. Sozinha como, dizem, um cão. Não sei. Vejo sempre cães em bando. Mas Isabela estava sozinha. S o z i n h a. Entrou Isabela no café. Não levava livros porque não gostava de ler. Não levava o telemóvel porque ninguém lhe telefonava. Não levava nada a não ser a sua fealdade e a sua solidão. Foi suficiente. Numa mesa do fundo, Aníbal, lindo de morrer. Não sei. Se morrer será assim tão bonito. No meio de um telefonema e com um livro virado para baixo, a mostrar as letras ao mármore, viu Isabela, feia e despojada entrar. Teve um 'coup de foudre'. Piscou-lhe o olho, sorriu-lhe, acenou-lhe de leve. Isabela nem pestanejou. Pensou: que pena, um homem tão bonito e cheio de tiques.

Friday, November 11, 2005

Dia -18

O Telefonema
Estou. Sim, sou eu. Sim. Não tenho muito tempo. Estou num táxi. Não posso falar agora. Pois. Não. Não te amo. Disse? Pois. Mas não. Foi só uma atracção. Estas coisas acontecem. Sim. O quê? Acreditaste? Pois. Não quero saber que estejas mal. Vai falar disso com outra pessoa. Comigo não. Não, não acho que seja responsável pelo que estás a sentir. As minhas coisas? Fica com elas. O quê? Oh pá, não quero saber delas. Deita-as fora, faz o que quiseres. Sim. Não posso falar agora. Vou jantar. Com quem? Sozinho. Sim. Não gosto de ti, não. Mas podemos ser amigos. Sim, amigos, que é que foi? Não? Pois. Está bem. Se não queres, está bem. Não quero ver-te, não. Não quero falar contigo, não. Oh pá, vou desligar. Deixa-me em paz, sim? Se te disse que te amava enganei-me, queres que faça o quê? Foi uma atracção, já te disse. Vou desligar. Olha que eu desligo! Queres o quê? Não, já te disse que não te quero ver mais, nem falar contigo. Deixa-me desligar, anda lá. Esses jogos não. Não estou com paciência para jogos desses. Amas-me? Que queres que faça? A semana passada eu disse isso? Enganei-me. Anda, vai falar disso com outra pessoa. Já te disse que não. Não. A Paris? Se ainda vamos a Paris? Nunca se sabe o dia de amanhã. O quê? Pois. Não sei. Agora não posso falar. Já cheguei. Vou jantar. Já te disse, sozinho. Vou jantar sozinho. Vou desligar, agora. Vou desligar.

Wednesday, October 26, 2005

Dia -2

A Múmia
Eu conheci em tempos uma múmia. Com bicho. Da idade. Que era provecta.
Como costumam ser provectas. As idades. Das múmias, quero dizer.
Apaixonei-me pela múmia. Não contei com o bicho.
Um dia descobrirei o mata-bicho ideal para as múmias
por quem ainda tenho a ideia de me apaixonar.