Friday, December 30, 2005

Dia -66

A Honra
Ela sentiu-se ofendida. Ele sentiu-se ofendido. Trocaram insultos.
Pesados. Feios. Orgulhosos. Maus. Ele achou que perdera alguma coisa.
E que tinha que demonstrar outras. Ela não achou nada. Limitou-se a concordar.
300 quilómetros os separavam. Reduziram a distância.
Foderam-se. Vieram-se. Desligaram-se.
O orgulho ferido é uma coisa tramada.

Thursday, December 29, 2005

Dia -65

O Insulto
Vá. Diz lá. Chama-me nomes. Eu gosto. Insulta-me. Como queiras.
O pior insulto é o teu orgulho.

Wednesday, December 28, 2005

Dia -64

A Mensagem
Estou aqui. Gostava de falar contigo. Não trouxe as tuas coisas. Afinal.
Mas mesmo assim gostava. De falar contigo.

Tuesday, December 27, 2005

Dia -63

A Ausência
Andas comigo para toda a parte. E não estás em lado nenhum.
Disse-te. Não desapareças.
Respondes. Eu espero.
Mas não estás. Aqui. Ou noutro sítio qualquer.
Onde vou.

Monday, December 26, 2005

Dia -62

Os Pais
O natal são os meus pais.
Sem o colo da mãe. Os beijos do pai.
O natal nada seria.

Sunday, December 25, 2005

Dia -61

A Cidade
Gosto desta cidade. Esta cidade tem um rio. E gente. E os amigos.
Esta cidade é o natal. E a família. Eu não seria eu.
Se tivesse nascido noutra cidade.

Saturday, December 24, 2005

Dia -60

O Entusiasmo
Entusiasmo-me com muita facilidade. Estou rodopiante. Uma montanha russa.
Altos. E. Baixos. Baixos. E. Altos. A culpa é tua.
Desafias-me.

Thursday, December 22, 2005

Dia -59

O Nome
É difícil conhecer outra pessoa. Com o teu nome. E gostar dela.
Deixar-me gostar dela. Apesar. Do teu nome.

Wednesday, December 21, 2005

Dia -58

O Solstício (de Inverno)
Hoje é a noite mais longa do ano. Hoje começa a minha estação preferida.
Para mim, hoje, é dia de festa.

Tuesday, December 20, 2005

Dia -57

O Cabelo
Preciso de cortar o cabelo. Mas não me apetece cortar o cabelo.
Se calhar ainda deixo crescer outra vez as tranças.

Monday, December 19, 2005

Dia -56

A Praia
Eu não gosto de praia. No Verão. Só no Inverno.
E mesmo assim, acho que tem demasiada areia.

Dia -55

As Pessoas
As pessoas são estranhas. Não compreendo as pessoas.
Nunca compreendi as pessoas.
Na verdade conheco poucas. Pessoas. Conheço muita gente.
Mas pouquíssimas. Pessoas.
Deve ser por isso que não as compreendo. Porque não as conheço.

Saturday, December 17, 2005

Dia -54

A Época de se ser Bom


A Diana Krall interpreta o Jingle Bells.
Pois. Que toquem os sinos. Que se acendam as luzes. Que a música encha o ar.
After all is christmas time.
A época de sermos bons.
Sensíveis. Generosos. Preocupados. Solidários.
De desejarmos o impossível. Por exemplo

Paz na Terra.

Para Já. Bom Natal.

Depois? Logo se vê.

Friday, December 16, 2005

Dia -53

Os Jantares
A época natalícia é terrível. Fazem-se múltiplos jantares e almoços. De Natal, claro. Come-se daqui, come-se dali. Bebe-se daqui, bebe-se dali. Um suplício. São os jantares organizados pelo emprego. Vários. Há o jantar dos colegas. O jantar do grupo de investigação. O jantar do outro grupo de investigação. O jantar dos professores. O jantar dos funcionários. O jantar dos alunos. Depois são os jantares organizados pelos amigos e conhecidos. O jantar deste grupo. O jantar do outro grupo. O jantar de pessoas deste e do outro grupo. E ainda há os almoços. E os lanches. E não podemos dizer que não aqui e que sim ali. Pelo que dizemos que sim a todos.
Porque é que se come tanto no Natal? E porque é que todas as celebrações e encontros se têm de fazer à volta de uma mesa cheia de comida? Raios! Vou ficar goooordaaaa.
Quer dizer... mais gooordaaaa.

Thursday, December 15, 2005

Dia -52

O António
Gosto do nome. António. O meu pai chama-se António. Talvez seja por isso.
António não é um nome qualquer. É o meu nome preferido. Deve ser por isso.
Que sempre gostei de Antónios. Estive a contar os 'meus' Antónios.
Cheguei à conclusão que foram predominantes. Os Antónios. Na minha vida.
Isto deve querer dizer qualquer coisa. Freud talvez explicasse.

Wednesday, December 14, 2005

Dia -51

O Frio
Tenho frio. Muito frio. Tenho uma camisola interior. Uma camisola de gola alta de lã.
Umas calças de lã. Umas meias até ao joelho. Um sobretudo. E tenho frio. Muito frio.
Sobretudo nas mãos. Nos pés. Nas orelhas. E na ponta do nariz.

Tuesday, December 13, 2005

Dia -50

A Campanha
Todos se parecem no discurso. Todos se parecem nas frases que os anunciam.
Todos se vendem como se fossem detergentes. Todos defendem as mesmas ideias.
Todos têm a mesma pose. Todos são velhos por fora. Ou por dentro.
Todos são iguais. Mas estão convencidos que são diferentes.
Manuel João Vieira a Presidente. Já!

Monday, December 12, 2005

Dia -49

O Bilhete de Identidade
O livro de que se fala. Acabei de o ler.
Digamos que sou muito curiosa. Cuscuvilheira até. Foi nessa condição que o li. Não lhe encontro grande interesse sociológico, na verdade. Não me parece que retrate uma época. retrata apenas a vida das elites numa determinada época. A autora não tem, evidentemente, culpa, de ter nascido 'remediada' num país cuja maior parte das pessoas vivia miseravelmente. Não tem culpa também de, sendo oriunda de uma família 'remediada' se ter dado (e ter valorizado isso) apenas com pessoas de famílias 'bem'. O livro não é um documento importante. Basicamente trata-se de saber com quem namorou Maria Filomena Mónica. Com quem dormiu. E quais eram os apelidos 'de família' das suas conquistas. Parece-me pouco. Mas a minha costela de alcoviteira delirou.

Sunday, December 11, 2005

Dia -48

O Mimo
Sou muito mimada. Acusam-me disso frequentemente.
Nunca percebi a acusação.
Acho que os mimos nunca são demais.
Que não se pode 'estragar' alguém com mimos.
Receber mimo é muito bom. Dar mimo é tão bom ou melhor ainda.
Pretendo continuar assim. Cheia de mimo.

Saturday, December 10, 2005

Dia -47

A Amizade
A amizade é a única forma de amor que dura.
Apaixonei-me perdidamente por todos os os meus amigos.
Com urgência, entusiasmo, fúria e compulsão.
Tal qual como outra paixão qualquer.
Com a mesma voracidade, mas sem o desejo da carne e da comunhão dos corpos.
Amo todos os meus amigos. Por motivos vários.
Amo a Teresa. Amo a Sílvia. Amo o Fernando. Amo o Pedro.
Amo a Carla. Amo a Lena. Amo o Quim.
Já disse 'amo-te' a outras pessoas. Raramente.
Quando o disse era verdade. Evidentemente.
Mas nunca foi tão verdade como o é quando o digo a estas pessoas.
Porque sei que é para sempre. Desinteressada e profundamente. Para sempre.