Tuesday, February 28, 2006

Dia -126

O Carnaval
Que graça tem o carnaval? Maminhas a abanar. Rabos a abanar. Braços a abanar.
Pernas a abanar.
Malta em cima de carros. A abanar.
Nunca gostei nada do carnaval. É que tenho pouco jeito.
Para me abanar.

Monday, February 27, 2006

Dia -125

O Síndrome
Parece que sofro de síndrome vertiginoso. Bom... sempre se poupa no alcool. Quer dizer. Vejo tudo a andar à roda, a espaços, e nem uma cerveja preciso de beber. Hum...

Sunday, February 26, 2006

Dia -124

As Concessões de uma Tia
'Vá. Combinámos que ias para a cama às dez e meia'.
'Está bem. Mas ainda tens de me ler uma história'.
'Sim, eu leio. Que andas a ler?'
'Este' - mostrou-me o Harry Potter e a Pedra Filosofal.
'Ó pá, mas esse é enorme'.
'Lês-me só oito páginas'.
'Oito??? Quantas te lê o teu pai ou a tua mãe por dia?'
'Ahh... aí umas quatro'.
'Ora, então leio-te quatro... se eles te lêem quatro, porque é que hoje te vou ler oito?'
'Porque tu és minha tia'.
Arrematado. Li-lhe dez. E nem se falou mais nisso.

Saturday, February 25, 2006

Dia -123

O Peso
«Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito»
António Lobo Antunes, título de uma crónica do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Friday, February 24, 2006

Dia -122

A Terra Natal
«Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal»
António Lobo Antunes, título de uma das crónicas do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Thursday, February 23, 2006

Dia -121

O Meu Pai
Tenho, confesso, um complexo de electra, bastante acentuado, desde que me conheço.
Tenho esta paixão avassaladora pelo meu pai.
Não há homem mais bonito. Nem mais inteligente. Nem mais habilidoso.
Não há no mundo, outro homem que goste tanto de mim.
Não há no mundo outro homem de quem eu goste tanto como dele.
O meu pai hoje faz 68 anos.
Parabéns Pai!

Wednesday, February 22, 2006

Dia -120

O Fantasma
De repente reapareceu-me. Como um fantasma. Ou como sei lá o quê.
Disse-me, como se me tivesse visto há pouco tempo:
'sonhei contigo ontem. Quis ver o que faria o destino.'
Fiquei meia azamboada, confesso, com este fantasma sonhador e crente no destino.
Perguntou-me ainda: 'posso convidar-te para jantar amanhã?'.
No meio de alguma confusão. Que o fantasma não deixou de se caótico só por ter começado a sonhar comigo e a acreditar no destino, lembro-me de lhe dizer:'ora, bardamerda'.
E pronto. Esfumou-se.

Tuesday, February 21, 2006

Dia -119

O Sentimento de Culpa
Não sei bem o que fiz. Mas alguma coisa foi. Se mereço isto.
A culpa. Sentir culpa. Mesmo que a culpa. Não seja minha.
Mesmo que não saiba de quem é a culpa.
'Je me sens coupable, parce que j'ai l'habitude.
C'est la seule chose que je peut faire, avec une certaine
certitude'.
Lhasa The Living Road

Monday, February 20, 2006

Dia -118

A Trasladação
Honestamente. Que merda é esta? Num estado laico! Que merda vem a ser esta?
Honras de transmissão interminável pelas várias televisões? Cortejos de milhares de pessoas?
Que merda é esta?
Quem é esta mulher, ou este monte de ossos que agora mudam de lugar?
Que fez ela pelo país? A não ser contribuir para a tacanhez?
Para a perpetuação de uma crença numa história de uma senhora cheia de luz.
Escarrapachada numa azinheira, ou oliveira... ou lá no que foi.
Só estou certa que não foi um castanheiro.
Os castanheiros são árvores com dignidade. Não se prestam a merdas destas.
Que merda é esta? Honestamente, continuamos na mesma.
Família, Futebol e Fátima.
Falta um F. Falta um F.
Foda-se!

Sunday, February 19, 2006

Dia -117

A Chuva
É torrencial esta chuva. Sinto-me minúscula. Sou minúscula.
Enquanto alguém, algures, acima. Atira violentos baldes de água.
É torrencial. A chuva. E eu tão pequena, tão pequena.
Que não tenho medo.
Deixo que a chuva torrencial me lave o corpo.
Os olhos.
E os sentidos.

Friday, February 17, 2006

Dia -116

Munique
Porque é que acho que Munique é um filme extraordinário?
Porque, ainda que no início, estivesse preocupada com a tendência pró-israelita que o filme destilava... depressa foi evidente a ambivalência.
Volto, pois, a dizer. Todos. Podemos ser Terroristas. Pelo menos. Uma vez.

Thursday, February 16, 2006

Dia -115

A Ambivalência
Porque todos acreditamos profundamente em alguma coisa.
Porque temos todos pelo menos uma convicção inabalável.
Uma ideia. Uma ideologia. Uma religião. Um laço. Um lugar.
Uma pátria.
Todos podemos ser terroristas. Ao menos uma vez.

Wednesday, February 15, 2006

Dia -114

Detesto o Amor*
A verdade é que não detesto o amor.
Apenas as celebrações a dias certos. Aparatosas.
Cheias de coisas vermelhas. Parafernália inútil. Ao próprio amor.
Na verdade, tenho saudades dos homens que amei profundamente.
Na verdade, detesto a ideia de já não os amar.
Ou de eles já não me amarem a mim.
*J'Ai Horreur de L'Amour, apresentado em Portugal com o título 'Detesto o Amor' é um belíssimo filme de Laurence Ferreira-Barbosa.

Dia -113

As Manias
Tenho muitas. Manias. Muito mais que cinco. (In)Felizmente.
Assim, Vanessa:
1. A mania de acordar tarde. Pontualmente tarde.
2. A mania de me deitar de madrugada.
3. A mania de cheirar qualquer livro em que pegue. Velho ou novo.
4. A mania de acreditar. Nas pessoas. Nas situações. Mesmo que tudo se repita. Indefinidamente. Acredito sempre que não será igual. E, de facto, igual não é. Apenas muito parecido.
5. A mania das limpezas e da organização. Só funciono se tudo estiver muito limpo e muito organizado. Quer seja a minha casa, quer seja o local de trabalho. Acho que o caos 'cá dentro' é tão grande que é o único modo que encontrei para viver.
Passo esta corrente ao JOS do Turno da Noite. Ao JPN do Respirar o Mesmo Ar.
Ao Carlos Azevedo do The Cat Scats. À Sandra Costa do Tubo de Ensaio. Ao Henrique do Insónia.
Não sei é se eles vão responder.
Regulamento: Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.

Monday, February 13, 2006

Dia -112

O Filósofo
100 anos sobre o nascimento de alguém, são muitos dias.
Aproximadamente 36500. A menos. Para a morte.
Mas há quem ainda que morrendo, não morra.
Talvez nunca ninguém morra, enquanto houver razões para recordarmos.
E aprendermos ainda. A pensar. E a não nos conformarmos.

Friday, February 10, 2006

Dia -109

A Fórmula
João* se a fórmula para se ter alguma felicidade é sermos bons na cama e bons cozinheiros, não percebo por que raio não serei eu feliz. É que eles não costumam queixar-se. Da comida.
Ou do modo como como. Ou do modo como me deixo comer.
Por que raio, então?
Porque aquilo de que preciso (ou precisamos) não se esgota nessas elementares necessidades?
Porque tenho mais necessidades do que as elementares?
Porque até tenho mais elementares necessidades?
Ou porque tenho necessidades a mais para o bem que como e cozinho?
* a propósito do comentário deixado no post do dia -104 - O Troglodita)

Thursday, February 09, 2006

Dia -108

Estado em que se encontra este blog. E eu. Consequentemente.
*Título de uma canção de Paolo Conte (in 'Una Faccia in Prestito'). Não faço ideia do que significa, mas sempre me soou a 'falem para aí que eu não me ralo nada', que é como quem diz: 'vão dar banho ao cão que eu entretanto darei palha às minhas renas'. Cliquem no título e vejam se não vos soa ao mesmo.

Wednesday, February 08, 2006

Dia -107

O Paradoxo
É possível estar-se numa sobreposição de dois estados e ter disso consciência?
Por exemplo eu, qual gato na experiência teórica de Erwin Schrödinger...
eu estou simultaneamente morta e viva.
Que sentido fará uma pessoa morta-viva?

Tuesday, February 07, 2006

Dia -106

Golpes de Beleza, por Correio Normal
«Esta noite, não sei se viram, o céu esteve claro
como se fosse uma hora impossível do dia»
in Lúcia
(posts editados em A Natureza do Mal, blog de André Bonirre e Luís Januário, em 2005)

Monday, February 06, 2006

Dia -105

A Resistência
Na minha idade é mais fácil resistir. Que ceder.
Se quiser, encontro sempre excelentes razões.
Para resistir. A praticamente tudo.

Dia -104

O Troglodita
«Sabes? Para mim há duas coisas muito importantes numa mulher».
«Ah sim? O quê?».
«Ora. Que há-de ser? Que seja boa na cama e que cozinhe bem!».
Fiquei na dúvida, ao ouvir isto, de passagem.
Ainda há gente que vive no tempo das cavernas?

Sunday, February 05, 2006

Dia -103

A Pele
Não gosto de ti. Quer dizer, não tenho nada contra ti. Mas...
não gosto do modo como pensas a vida. A política. As mulheres.
As coisas. As pessoas.
Não. Não gosto mesmo nada de ti. Mas...
seria possível, por favor, deixares ficar a tua pele?

Friday, February 03, 2006

Dia -102

A Febre

Ohhh you give me fever....

* Peggy Lee in ‘The Best of Miss Peggy Lee'

Thursday, February 02, 2006

Dia -101

O Vírus Suplicante

Blog.Worm

Wednesday, February 01, 2006

Dia -100

100 Dias a Menos

Viver sempre também cansa
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
Ora é azul, nitidamente azul,
Ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
Como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem
A lua não tem olhos
E ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem, riem e digerem
Sem imaginação

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
Discursos de Mussolini,
Guerras, orgulhos em transe
Automóveis de corrida….

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho,
De vez em quando,
E recomeçar depois,
Achando tudo mais novo?

Ah se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
Morrer em cima de um divã
Com a cabeça sobre uma almofada,
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do Norte

Quando viessem perguntar por mim,
Havias de dizer com o teu sorriso
Onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã
agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela”.

E virias depois suavemente
Velar por mim, subtil e cuidadosa
Pé ante pé, não fosses acordar
A Morte ainda menina no meu colo…

José Gomes Ferreira - Viver sempre também cansa

Tuesday, January 31, 2006

Dia -99

A Borbulha
Tenho 39 anos e acne juvenil.
Haverá maior incongruência?

Monday, January 30, 2006

Dia -98

As Aulas
Recomeçaram as aulas. Um semestre inteirinho a estrear.
Com alunos novos. Mais exactamente. 300 alunos novos.
Pareceram-me simpáticos. Mas a esta distância. Nunca se sabe.

Sunday, January 29, 2006

Dia -97

A Náusea
Pois. Continuo. Muito. Mal. Disposta.

Saturday, January 28, 2006

Dia -96

Os Copos
Já estou muito velha para beber copos. Muitos copos. Esqueci-me disso. Misturei vinho tinto com guinness. O resultado... é melhor que não queiram saber. Nunca mais! Nem a mistura que já devia reconhecer como fatal. Nem copos.

Friday, January 27, 2006

Dia -95

O Totoloto
A minha chave é a mais bonita. Desculpem lá.
vento.
casa.
pedra.
árvore.
girassol.
ponte.

Thursday, January 26, 2006

Dia -94

O Amor na Era Virtual
Antigamente as pessoas acabavam os relacionamentos.
Agora apagam-se das listas de contactos.
Pode ser-se mais descartável que isto?

Wednesday, January 25, 2006

Dia -93

O Apontamento
Tu escreves para que
no fundo de cada palavra
vibre o que não pode ser pronunciado
e que as coisas se retraiam
sob a forma do seu silêncio
António Ramos Rosa - Excerto de 'Talvez tenhas de colocar uma pedra'

Tuesday, January 24, 2006

Dia -92

A Condição Humana
Choras sozinho em frente ao televisor ligado. A tua vida resume-se ao ligar do televisor.
E a essas lágrimas. Sós. Não és nada. Sabes que nada és. Nada serás.
Apenas esperas alguém. Que substitua o televisor ligado. Uma voz que te diga. É isto.
É isto que deves fazer. Mas continuarás a chorar. Sozinho. Em frente àquela voz.
Em frente a outro ser humano. Ninguém te dará. O que já não tens. O que nunca tiveste.
O que nunca terás. Choras sozinho. Não há outra maneira. De chorar. Ou ser.
Para ti não há outra maneira.

Monday, January 23, 2006

Dia -91

Welcome to Twilight Zone
Poderei, ainda, mudar de país? Poderei, ainda, mudar de planeta?
Poderei passar para uma dimensão diferente?
Ou já estarei encerrada na twilight zone, com isto... sim isto... como presidente?

Dia -90

As Dúvidas
Que tenha muitas.
Que se engane muito.
Ao menos, que lhe sirva para alguma coisa!

Sunday, January 22, 2006

Dia -89

A Véspera
Estou enervada. Com amanhã.
Hoje recebi uma sms assim: amanhã bebe uns copos e vai votar alegre.
Ei irei votar alegremente. Mas tenho mesmo que beber?

Friday, January 20, 2006

Dia -88

A Medida Certa
Tu foste muito amada. Ou amaste muito. Ou... whatever.
Whatever?

Thursday, January 19, 2006

Dia -87

A Democracia
Apesar de muitos (incluindo eu mesma) não lhe darem cavaco,
suponho que no domingo vamos ficar todos
encavacados.

Wednesday, January 18, 2006

Dia -86

A Repetição
É sempre o mesmo. Já se viu. Já se disse. Já se fez. É sempre o mesmo.
Mas acredita-se sempre que não é igual. Ou. Que não vai ser.
Uma repetição.

Tuesday, January 17, 2006

Dia -85

O Vidro
Gosto de pessoas de vidro. Fragéis. Sem medo disso. Transparentes.
Tanto. Quanto. Possível. De vidro. Que se quebram. Que se deixam quebrar.
Que sabem. Quebrar. Se.

Monday, January 16, 2006

Dia -84

O Stress
Sim. Vai já. Pois, era para ontem. Claro, claro. Mas eu sou só uma e só tenho dois braços, duas mãos e uma cabeça. Sim, às vezes penso que tenho mais. Mas não. Não sou capaz. De fazer mais. Logo que possa. Tratarei disso.

Sunday, January 15, 2006

Dia -83

As Correcções
Detesto fazer correcções. Avaliações. Detesto fazer serões.
A fazer correcções. Avaliações.
Passo-os todos? Atiro os trabalhos e os exames ao ar?
Vou beber um copo e depois logo decido?
Estou tramada.

Dia -82

As Limpezas
Tenha a mania das limpezas. E da arrumação. É mais forte que eu.
Quando não tenho nada para limpar. Invento. Alivia-me o stress.

Friday, January 13, 2006

Dia -81

A Aposta
Apostei um almoço. Eu nunca faço apostas. Mas apostei um almoço.
Desejando ter de pagar o almoço. Claro. Apostei que Cavaco ganha à primeira volta.
A outra parte. A que eu ansiosamente desejo que ganhe.
Apostou que vai haver uma segunda volta.
Repito: desejo ter de pagar este almoço. nada me daria mais prazer.
Ou Alegria.

Thursday, January 12, 2006

Wednesday, January 11, 2006

Dia -79

O Pôr do Sol
Depois daquele pôr do sol, com ele, numa tarde fria de Setembro, pensou que existiriam outros.
Pores do sol. Com ele.
Mas não.
Os únicos pores do sol que agora observa, são os que imagina.
Como no asteróide B612, imagina 1240 pores do sol.
Basta mover a cadeira um milímetro.
E volta a tarde fria. O mar. O pôr do sol. Aquele. O dia quase noite.
E mesmo ele se senta numa cadeira ao lado da sua.
1240 vezes. Por dia.

Tuesday, January 10, 2006

Dia -78

A Gratidão
'A gratidão é a única resposta adequada para tudo o que acontece'.
Michael Cunnigham - Dias Exemplares

Monday, January 09, 2006

Dia -77

O Inexplicável
Uma tipa consegue distinguir entre uma bola de ping-pong e uma bola de golf.
Entre peixe fresco e peixe fora de prazo.
Entre um Dali e um Magritte.
Entre um Casa de Santar e um Barca Velha.
Entre um Sartre e um Camus.
Uma tipa consegue distinguir entre a pura lã e mistura de acrílico.
Entre um tecido bom e um pano ordinário.
Entre um lenço de seda e um lenço de crepe.
Entre um base beige e um fond de teint claire.
Entre um long lasting lipstick e um baton vulgar.
Uma tipa consegue distinguir os padrões da Luis Vuitton e os da Burberrys originais, das imitações.
Entre um tailleur chanel e um fato de modista.
Como é que se explica que, com tantos skills, uma tipa não consiga distinguir um homem bom de um bom homem?

Dia -76

O Aniversário
Faço anos. Trinta e nove. 13870 dias. Mais um.
Um dia.
A menos.
Para a morte.

Saturday, January 07, 2006

Dia -75

A Fome
Só tem. Fome. (Dizem). Quem não come.
Mas eu como. E mesmo assim. Tenho.
Esta imensa fome. De quem come.

Friday, January 06, 2006

Dia -74

A Beleza
E não me digam que a beleza não magoa.
E sobretudo não me digam.
Que a beleza não mata.

Thursday, January 05, 2006

Dia -73

A Solidão
*
'Oh I am scared of the middle place between lie and nowhere.
And I don't want to be the one.
Left in there.'
*Anthony and the Jonhsons - Hope There's Someone - (4:19) in 'I am a Bird Now'

Dia -72

O Mundo
O mundo está cheio de lugares que foram.
O mundo são as recordações.

Wednesday, January 04, 2006

Dia -71

A Protagonista
'Morrer é bem diferente do que se pensa, e mais feliz' *
* W.Whitman

Monday, January 02, 2006

Dia -70

A Excepção
Abri uma excepção. Não sei se reparaste que, para ti, abri uma excepção.
Reparei, claro. Mas isso não me interessa. É que eu também abri uma excepção.
Mas eu nunca faço isso.
Sim, por isso se chamam excepções... às coisas que raramente se fazem.
Mas eu, para ti, abri uma excepção. Não reconheces?
A minha excepção é maior que a tua. Desculpa mas vou fechá-la. Não quero que abras nada. Quero fechar tudo. Fingir que morri. Amanhã nasço outra vez. A não precisar. De excepções.

Dia -69

O Primeiro Dia
As resoluções. As recordações. As lágrimas. As saudades. Os risos. Os esquecimentos.
As perdas. Os ganhos.
Balanços. Desequílibrios. Malabarismos. Este ano... Este ano que começa hoje...
este ano há-de ser diferente.
Hoje. O primeiro dia. Deste ano. Digo que vai ser tudo diferente.
Mas sou sempre a mesma e daqui a um ano, no primeiro dia, tudo estará igual.

Sunday, January 01, 2006

Dia -68

A Sms
Sabes? Amo-te. E tenho pena. De não estarmos os dois hoje. Como dissemos.
Tem um bom ano.

Saturday, December 31, 2005

Dia -67

As Cicatrizes
Ela pensou no corpo dele. O lado direito com profundas cicatrizes. Visíveis.
Longas. Brancas. Ela pensou. Nele. E viu as cicatrizes. Negras. Silenciosas.
Dentro.

Friday, December 30, 2005

Dia -66

A Honra
Ela sentiu-se ofendida. Ele sentiu-se ofendido. Trocaram insultos.
Pesados. Feios. Orgulhosos. Maus. Ele achou que perdera alguma coisa.
E que tinha que demonstrar outras. Ela não achou nada. Limitou-se a concordar.
300 quilómetros os separavam. Reduziram a distância.
Foderam-se. Vieram-se. Desligaram-se.
O orgulho ferido é uma coisa tramada.

Thursday, December 29, 2005

Dia -65

O Insulto
Vá. Diz lá. Chama-me nomes. Eu gosto. Insulta-me. Como queiras.
O pior insulto é o teu orgulho.

Wednesday, December 28, 2005

Dia -64

A Mensagem
Estou aqui. Gostava de falar contigo. Não trouxe as tuas coisas. Afinal.
Mas mesmo assim gostava. De falar contigo.

Tuesday, December 27, 2005

Dia -63

A Ausência
Andas comigo para toda a parte. E não estás em lado nenhum.
Disse-te. Não desapareças.
Respondes. Eu espero.
Mas não estás. Aqui. Ou noutro sítio qualquer.
Onde vou.

Monday, December 26, 2005

Dia -62

Os Pais
O natal são os meus pais.
Sem o colo da mãe. Os beijos do pai.
O natal nada seria.

Sunday, December 25, 2005

Dia -61

A Cidade
Gosto desta cidade. Esta cidade tem um rio. E gente. E os amigos.
Esta cidade é o natal. E a família. Eu não seria eu.
Se tivesse nascido noutra cidade.

Saturday, December 24, 2005

Dia -60

O Entusiasmo
Entusiasmo-me com muita facilidade. Estou rodopiante. Uma montanha russa.
Altos. E. Baixos. Baixos. E. Altos. A culpa é tua.
Desafias-me.

Thursday, December 22, 2005

Dia -59

O Nome
É difícil conhecer outra pessoa. Com o teu nome. E gostar dela.
Deixar-me gostar dela. Apesar. Do teu nome.

Wednesday, December 21, 2005

Dia -58

O Solstício (de Inverno)
Hoje é a noite mais longa do ano. Hoje começa a minha estação preferida.
Para mim, hoje, é dia de festa.

Tuesday, December 20, 2005

Dia -57

O Cabelo
Preciso de cortar o cabelo. Mas não me apetece cortar o cabelo.
Se calhar ainda deixo crescer outra vez as tranças.

Monday, December 19, 2005

Dia -56

A Praia
Eu não gosto de praia. No Verão. Só no Inverno.
E mesmo assim, acho que tem demasiada areia.

Dia -55

As Pessoas
As pessoas são estranhas. Não compreendo as pessoas.
Nunca compreendi as pessoas.
Na verdade conheco poucas. Pessoas. Conheço muita gente.
Mas pouquíssimas. Pessoas.
Deve ser por isso que não as compreendo. Porque não as conheço.

Saturday, December 17, 2005

Dia -54

A Época de se ser Bom


A Diana Krall interpreta o Jingle Bells.
Pois. Que toquem os sinos. Que se acendam as luzes. Que a música encha o ar.
After all is christmas time.
A época de sermos bons.
Sensíveis. Generosos. Preocupados. Solidários.
De desejarmos o impossível. Por exemplo

Paz na Terra.

Para Já. Bom Natal.

Depois? Logo se vê.

Friday, December 16, 2005

Dia -53

Os Jantares
A época natalícia é terrível. Fazem-se múltiplos jantares e almoços. De Natal, claro. Come-se daqui, come-se dali. Bebe-se daqui, bebe-se dali. Um suplício. São os jantares organizados pelo emprego. Vários. Há o jantar dos colegas. O jantar do grupo de investigação. O jantar do outro grupo de investigação. O jantar dos professores. O jantar dos funcionários. O jantar dos alunos. Depois são os jantares organizados pelos amigos e conhecidos. O jantar deste grupo. O jantar do outro grupo. O jantar de pessoas deste e do outro grupo. E ainda há os almoços. E os lanches. E não podemos dizer que não aqui e que sim ali. Pelo que dizemos que sim a todos.
Porque é que se come tanto no Natal? E porque é que todas as celebrações e encontros se têm de fazer à volta de uma mesa cheia de comida? Raios! Vou ficar goooordaaaa.
Quer dizer... mais gooordaaaa.

Thursday, December 15, 2005

Dia -52

O António
Gosto do nome. António. O meu pai chama-se António. Talvez seja por isso.
António não é um nome qualquer. É o meu nome preferido. Deve ser por isso.
Que sempre gostei de Antónios. Estive a contar os 'meus' Antónios.
Cheguei à conclusão que foram predominantes. Os Antónios. Na minha vida.
Isto deve querer dizer qualquer coisa. Freud talvez explicasse.

Wednesday, December 14, 2005

Dia -51

O Frio
Tenho frio. Muito frio. Tenho uma camisola interior. Uma camisola de gola alta de lã.
Umas calças de lã. Umas meias até ao joelho. Um sobretudo. E tenho frio. Muito frio.
Sobretudo nas mãos. Nos pés. Nas orelhas. E na ponta do nariz.

Tuesday, December 13, 2005

Dia -50

A Campanha
Todos se parecem no discurso. Todos se parecem nas frases que os anunciam.
Todos se vendem como se fossem detergentes. Todos defendem as mesmas ideias.
Todos têm a mesma pose. Todos são velhos por fora. Ou por dentro.
Todos são iguais. Mas estão convencidos que são diferentes.
Manuel João Vieira a Presidente. Já!

Monday, December 12, 2005

Dia -49

O Bilhete de Identidade
O livro de que se fala. Acabei de o ler.
Digamos que sou muito curiosa. Cuscuvilheira até. Foi nessa condição que o li. Não lhe encontro grande interesse sociológico, na verdade. Não me parece que retrate uma época. retrata apenas a vida das elites numa determinada época. A autora não tem, evidentemente, culpa, de ter nascido 'remediada' num país cuja maior parte das pessoas vivia miseravelmente. Não tem culpa também de, sendo oriunda de uma família 'remediada' se ter dado (e ter valorizado isso) apenas com pessoas de famílias 'bem'. O livro não é um documento importante. Basicamente trata-se de saber com quem namorou Maria Filomena Mónica. Com quem dormiu. E quais eram os apelidos 'de família' das suas conquistas. Parece-me pouco. Mas a minha costela de alcoviteira delirou.

Sunday, December 11, 2005

Dia -48

O Mimo
Sou muito mimada. Acusam-me disso frequentemente.
Nunca percebi a acusação.
Acho que os mimos nunca são demais.
Que não se pode 'estragar' alguém com mimos.
Receber mimo é muito bom. Dar mimo é tão bom ou melhor ainda.
Pretendo continuar assim. Cheia de mimo.

Saturday, December 10, 2005

Dia -47

A Amizade
A amizade é a única forma de amor que dura.
Apaixonei-me perdidamente por todos os os meus amigos.
Com urgência, entusiasmo, fúria e compulsão.
Tal qual como outra paixão qualquer.
Com a mesma voracidade, mas sem o desejo da carne e da comunhão dos corpos.
Amo todos os meus amigos. Por motivos vários.
Amo a Teresa. Amo a Sílvia. Amo o Fernando. Amo o Pedro.
Amo a Carla. Amo a Lena. Amo o Quim.
Já disse 'amo-te' a outras pessoas. Raramente.
Quando o disse era verdade. Evidentemente.
Mas nunca foi tão verdade como o é quando o digo a estas pessoas.
Porque sei que é para sempre. Desinteressada e profundamente. Para sempre.

Friday, December 09, 2005

Dia -46

A Playstation
O meu sobrinho emprestado (que ainda não lê blogs, mas livros do capitão cuecas) anda a pedir uma playstation desde os quatro anos. Houve uma decisão lá em casa de que o miúdo teria a playsation no fim da 4ª classe. Pois. Ele ainda agora começou a 2ª e tanta foi a pressão que decidi (com o acordo dos seus pais) oferecer-lhe uma este ano. Ele ainda não sabe, mas acho que desconfia. A caixa é enorme. O laço imponente. Acho que só por isso a cara dele vai brilhar quando eu chegar com tal oferta nas mãos. Mas no processo da compra vi-me tão atordoada que estive a escassos passos de desistir. Fiquei a olhar com cara de parva para o vendedor que me explicava as especificidades de cada um dos muitos modelos à venda. Dos jogos que se podiam jogar nesta, na outra, nos acessórios que se poderiam comprar. Acabei por me decidir por um deles, sem saber exactamente se tomei a decisão correcta. Uma coisa me preocupa. O meu sobrinho tem computador, hi-fi, tv, dvd, game boy. Quando lhe falta alguma destas coisas pede o telemóvel emprestado a quem quer que seja para jogar um qualquer jogo.
Estou bastante arrependida. Por minha causa o puto vai passar mais tempo ligado a uma máquina. Acho que vai acabar por se esquecer dos livros do capitão cuecas. E de me dar mimos.

Thursday, December 08, 2005

Dia -45

As Compras
As pessoas acotovelam-se. Andam depressa. Estranhamente andam mais simpáticas.
Fazem-se embrulhos em papel colorido.
Com laços ainda mais coloridos e brilhantes.
As pessoas esperam em filas aparentemente intermináveis para pagar.
Para que lhes façam os embrulhos.
Para que lhes ponham os laços.
Saem das lojas carregadas com sacos e saquinhos. Caixas e caixotes.
A época das compras de Natal começou.
Faltam 15 dias para o Natal e eu ainda só comprei quatro presentes.
De uma lista de muitos mais.
Sempre gostei de oferecer prendas. Mas não sei o que se passa comigo este ano.
Nem as luzes me seduzem. Nem as filas me encantam. Nem imaginar a cara das pessoas a desembrulhar caixas e a abrir os saquinhos que lhes vou dar, me motiva.
Estarei deprimida ou apenas farta que tanto brilho, simpatia e dádiva aconteça apenas uma vez por ano?

Wednesday, December 07, 2005

Dia -44

A Escuridão
Disseram-me hoje que este registo era sombrio. Fiquei a pensar. Na luz e na escuridão.
No sol e na sombra. E em mim, no meio de tudo isso. Efectivamente.
Tenho uma tendência para me vestir de preto desde que me conheço.
Detesto as manhãs e o sol. Gosto da noite. E é de noite que faço a maior parte das coisas que os outros fazem durante o dia. Tenho sempre poucas luzes acesas, mesmo para ler.
Durante o dia costumo ter as persianas corridas. Tenho um amigo que me chama morceguinha.
A minha mãe acha que me trocaram na maternidade.
Que devo descender de uma qualquer linhagem de vampiros.
Este registo é sombrio?
Talvez. Mas adequa-se.

Tuesday, December 06, 2005

Dia -43

O Tempo

Está a fazer-se cada vez mais tarde. Sabes? Está a fazer-se cada vez mais tarde para tudo.
Para os livros que (já não) serei capaz de ler.
Para os homens que (já não) serei capaz de amar.
Para as palavras que (já não) serei capaz de escrever.
Para os olhos que (já não) serei capaz de olhar.
Para as pessoas que (já não) serei capaz de suportar.
Para a música que (já não) serei capaz de ouvir.
Para os países que (já não) serei capaz de visitar.
Está a fazer-se cada vez mais tarde. Sabes?
Afinal. O tempo não é aquilo que fazemos.
Mas o que (já não) faremos.

Dia -42

A Dor
Ela disse-lhe. É verdade. Mesmo porque, se pensarmos bem não temos nada em comum.
Ele concordou. Já tinha concordado, sem ela saber.
Passado um instante atirou-lhe, como quem lhe atira com o sol do meio dia em cheio na cara. Acho que ambos partilhamos uma dor profunda.
Há qualquer coisa nas pessoas com uma dor assim que as torna iguais.
Ela ficou a pensar naquilo. No modo como eram tão diferentes numa dor idêntica.
E no modo como isso não tinha qualquer interesse. Para ambos.

Monday, December 05, 2005

Dia -41

A Vida
Tenho de procurar incentivos para me levantar da cama. Quando abro os olhos, já tarde, costumo sempre levar uma meia hora a pensar na razão pela qual tenho de me levantar da cama. E nunca. Nunca encontro nada. A não ser os encontros e os deveres com horas marcadas. De resto. Naquela meia hora vejo a minha vida toda passar-me diante dos olhos. E asseguro. Não encontro. Nunca. Nada.

Saturday, December 03, 2005

Dia -40

A Importância
As coisas têm somente a importância que lhes atribuímos. Com o passar do tempo. E das coisas. Aprendi a não dar importância a nada. Especialmente ao que me dizem que sentem. Especialmente ao que sinto.

Friday, December 02, 2005

Dia -39

A Eternidade
É o tempo que dura. Mas acaba por passar. O tempo. O que sentiste já foi. Não penses mais nisso. O que sentirás, ainda não é. Continua a não pensar nisso.
Aliás, não penses. Nunca mais penses.
Para toda a eternidade, nunca mais te atrevas a pensar.
Aceita apenas o que te quiserem dar.
Para toda a eternidade, nunca mais te atrevas.
A pedir. Ou a querer.

Thursday, December 01, 2005

Dia de Intervalo

O Risco*
joana amou francisco que amou maria que amou cristina que amou joão que amou david que amou leonor que amou armando que amou teresa que amou filomena que amou fernando que amou antónio que amou vanessa que amou manuel que amou alfredo que amou alberta que amou sandra que amou joaquim que amou marta que amou gonçalo que amou luís que amou joana que amou fernando que amou alberto que amou luísa que amou francisco...
o amor pode ser uma teia.
demasiado arriscada. demasiado perigosa.
e fatal.
*pode parecer mas não tem nada a ver. nem com a quadrilha de Carlos Drummond de Andrade nem com na flor da idade de Chico Buarque

Dia -38

O Silêncio
Toca o Nocturno do Sassetti. Poderia tocar a Inquietude. Há neste silêncio uma dimensão de inquietação. Como há-de haver na maior parte dos silêncios. Gosto de alguns silêncios.
Os silêncios nocturnos. Os silêncios cheios de expectativa. Os silêncios sossegados.
Os silêncios vagarosos. Os silêncios dos olhares que se cruzam e se prendem.
Os silêncios das bocas que se juntam. Os silêncios das mãos.
Tens razão.
Não vale a pena encher de palavras aquilo que se pode dizer tão melhor sem dizer nada.

Wednesday, November 30, 2005

Dia -37

O Abel
Eu teria 14 anos, 14 para 15 anos. O Abel 17 para 18. Lembro-me de um dia, longe de casa. Da minha. Mas demasiado perto da dele. Eu tinha uma t-shirt vermelha, e umas calças de ganga, rotas. Eu tinha uma trança enorme, com um laço na ponta. Foi o meu avô Alberto que me colocou o laço na ponta, nesse, como nos outros dias em que eu estava longe de casa. O meu avô Alberto gostava da minha trança. Talvez fosse o que ele mais gostava em mim. Da minha longa trança. Dizia o meu avô que não havia trança mais bonita e que uma trança assim tinha que ter um enorme laço a rematá-la. E colocava-me o laço. Orgulhoso dos meus cabelos. Mais que eu. Que achava horrível ter 14 para 15 anos e uma trança daquelas a cair por mim abaixo. Mas o Abel também gostava da minha trança, se bem que admirasse mais as minhas mamas. 17 anos. Hormonas a saltar dentro dele todo. E eu era uma miúda gira. Ou seriam as minhas mamas que eram. Já não sei. Apesar da trança. Desculpa avô Alberto. Mas eu só comecei a gostar da minha trança no dia em que fiz 18 anos e rapei o cabelo. E. de repente, senti a falta da trança e da tua mão a pôr-me o laço. Mas tu isso já não soubeste. Já tinhas morrido e nunca mais ninguém se tinha interessado se a minha trança merecia um laço ou não. Mas o Abel, naquele dia, sentados ambos no degrau da casa dele atirou-me do fundo dos olhos verdes: tu queres namorar comigo? E eu fiquei a remexer na trança e a olhar para ele como se nunca o tivesse visto e pensei de mim para a minha trança: mas o que é que este quer? Quer dizer, não era a pergunta a novidade. Eu disse que era uma miúda gira. Apesar da trança. Ou por ela. Ou mesmo pelo laço. Era o Abel a fazer-me a pergunta, a novidade. Na verdade, se fosse hoje saberia porque é que não lhe respondi logo e o deixei pendurado como a trança, na resposta. Mas isso era hoje. Naquele dia, a só pensei o que é que este gajo quer? Na verdade, não sabia o que é que ele queria. Apesar das hormonas. Aos saltos. Bom, mas isso é o que querem todos e o que depois dele todos quiseram, de facto. E está bem. Eu também quero e também quis. Sem nenhuma excepção, ao que me lembro. Mas o que ele queria era ensinar-me coisas. E ensinou-me todas essas coisas das hormonas. Dos saltos. Dos livros. Da erva. Da distância sem sentido. Do querer até não poder mais e de poder tudo. Até querer. Ensinou-me a trair. Delimitou-me as estradas que haveria sempre de seguir. O Abel foi assim uma espécie de mapa sem cidades, só com caminhos. Quando o deixei um dia qualquer, muitas hormonas depois, muitos livros a seguir, muitos charros entretanto, muitas bebedeiras adiante, muitos sentidos desvendados, muitas traições bem cumpridas, no meio de um centro comercial lisboeta apinhado de gente... quando o deixei depois de lhe ter dito 'venho já'. Quando nunca mais lhe atendi o telefone. Adiante. Tinha o mapa das estradas traçado. O meu. Nunca foi muito diferente depois disso, a não ser que, outras vezes, foi também a mim que me deixaram pendurada na vida, sem o letreiro 'volto já'. Ou que não me atenderam o telefone. Mas os caminhos estavam traçados. E por acaso segui-os. O padrão que havia de seguir e errar e seguir e errar e errar e seguir. Adiante. Depois. Estava traçado. Para além disso, a única coisa que restou do Abel, de mim, da minha trança e do laçarote que me punha nela o meu avô Alberto, ainda é visível. E permanece. Está cravada, em letras monumentais, numa parede ao pé da casa dele (demasiado longe da minha, para que me alimente o ego) 'Amo-te B.' A B. sou eu, bem entendido.

Tuesday, November 29, 2005

Dia -36

A Poesia
Um dia a poesia dominará o mundo. Não é exactamente uma notícia de última hora. É certo.
Sinto uma certa forma de poesia que cresce comigo. Ao mesmo ritmo.
Um dia a poesia dominará o meu mundo. Porque é de poesia que se trata a cada gesto.
Cada palavra atirada contra muros de silêncio ou de indiferença. É de poesia que se trata cada posição que defendemos. É de poesia que se trata quando as dúvidas são a única coisa que nos resta. Para ver a verdade. Ou mais apropriadamente, as verdades. E até. Para vencer.
O medo.

Monday, November 28, 2005

Dia -35

O Passo
Dar um passo. Depois outro. Como é que se reduz a distância, só com passos? Como se reduz a estranheza?

Sunday, November 27, 2005

Dia -34

O Desejo
Estou transtornada. Oh pá. Deixa-me comer-te. Devagar. Que tenho pressa. Pressa de te comer. Devagarinho.

Saturday, November 26, 2005

Dia -33

A Voz
Tu sabes que não és tu. Que é a tua voz. Fico sem saber o que dizer. Quando te ouço.
A tua voz faz-me falta. Não sei porque razão. Talvez. Não seja necessária qualquer razão.
Talvez a única razão seja a tua voz. A única. A grande. Razão. E tenho medo. De deixar de ouvir a tua voz. E tenho medo. De continuar a ouvir a tua voz. E tenho medo que tu não sejas. A tua voz. E tenho medo que a tua voz. Não sejas. Tu. Tenho medo. Porra! Tenho medo. Estás aí? Tenho medo. Destas ondas. Tenho medo. Da tua voz.

Friday, November 25, 2005

Dia -32

O Mesmo
Sempre. Do mesmo modo. O mesmo. A mesma história. As mesmas conversas. A mesma troca.
A mesma coisa. Sempre. As mesmas pessoas, vestidas de outras. Mas as mesmas. O mesmo cigarro. Continuamente. A mesma cerveja. Preta. Sempre. A mesma conversa. O mesmo bar.
A mesma música, com outras notas. Mas a mesma. O mesmo livro. Com letras diferentes. Com histórias diferentes. Mas o mesmo. A mesma história. O mesmo planeta.
As mesmas razões para mudar. As mesmas para permanecer. Sempre a mesma treta.
Sempre o mesmo encanto. Sempre o mesmo desencanto.
Sempre o mesmo olhar em todas as pessoas. Sempre o mesmo.
Mesmo que seja estranho. A estranheza é a mesma.

Thursday, November 24, 2005

Dia -31

Desculpa&Obrigada
É mais forte que eu. Passo o tempo a pedir desculpa. E a dizer obrigada.
Desculpem.
E obrigada.

Wednesday, November 23, 2005

Dia -30

A Tristeza

É um estado passageiro. Tal e qual como a alegria. Devíamos lembrar-nos disto. Em ambos os casos.

Tuesday, November 22, 2005

Dia -29

A Reunião
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Marcamos, então, outra reunião para a próxima semana. Para continuar a discussão.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.

Monday, November 21, 2005

Dia -28

O Escritor
Há em Portugal um escritor que me faz chorar. E rir. E querer saber escrever como ele. Ter aquela capacidade de pôr lágrimas dentro de uma palavra. Ou sorrisos. Ou gargalhadas. Ou a vida toda dentro de uma palavra. Ninguém escreve como ele. Nunca ninguém escreverá como ele. Contra todas as mortes. As pequeníssimas e a derradeira.
Obrigada, António.