Sunday, March 12, 2006

Dia -139

A Rua
A rua. A minha. É grande e larga. Tem água. Muita. Ao fundo. Advinham-se os montes de sal.
De antes. Advinha-se mais água que não vejo da janela. A minha rua é grande. E larga.
Não sei quantos passos de comprimento. Não sei quantos passos de largura.
Nunca caminhei a pé por toda a extensão da minha rua.
Sou uma habitante inútil. Que se debruça em direcção à água. Ao fundo. Da janela.
Que nunca se aproximou demasiado dos passeios. Das passadeiras. Dos prédios.
E dos vizinhos.
Sou uma pessoa inútil. Que não conhece, com os seus passos. A sua própria rua.
Inutilmente habito uma cidade onde não conheço ninguém.
Inutilmente habito uma rua que só conheço à distância.
Inutilmente entro e saio do meu prédio sem um eco de bons dias.
Inutilmente vagueio pelas divisões da minha casa.
A rua lá fora. A cidade lá fora. Os vizinhos lá fora.
E eu cá dentro. Inutilmente habitando. Um corpo de que não conheço o habitante.

Saturday, March 11, 2006

Dia -138

O Deserto
Há três anos. Desapareceste. Deixaste. Um deserto.
Cá dentro.
Há três anos morreste.
E neste deserto em que estou.
Todos os dias são dias a mais.
Ou a menos.
Para a minha. Solidão.
Ou. Morte.

Friday, March 10, 2006

Dia -137

A Carta da Paixão
Que alguém me escreva
algum dia (por exemplo hoje) alguma coisa semelhante a isto.
Enquanto eu sangro.
Lentamente.
«Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minhavida secreta.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.»
Herberto Helder

Thursday, March 09, 2006

Dia -136

O Feminismo (ainda)
O que é ser feminista? Faz ainda sentido ser feminista?
Ainda que a palavra feminismo tenha uma carga negativa, associada às maniffestações mais radicais dos anos 60... faz sentido.
Aliás, não concebo ser mulher sem ser feminista.
Acho abomináveis e indignas da sua condição (feminina) as mulheres que dizem:
'eu não sou feminista... sou feminina'.
Bom, é uma evidência. Se se é mulher... necessáriamente é-se feminina.
E eu acrescento:
Se se é mulher deve ser-se feminista.
Tive a fortuna de nascer do lado certo do mundo, do lado certo da rua. Na casa certa.
Um lado onde os direitos humanos são relativamente bem assegurados.
Uma rua e uma casa onde nunca houve violência doméstica.
Onde nunca fui utilizada como mais um instrumento de guerra.
Onde nunca me excizaram o clitóris.
Onde nunca me violaram.
Onde nunca me bateram.
Onde nunca me impediram de votar.
De ir à escola. Ao médico. Ao cinema. Ao teatro. Aonde me apetecer.
Tive a fortuna de a minha condição de mulher nunca ter condicionado a minha vida.
Faço o que quero. Sou o que quero. Tive oportunidades.
E depois? Deveria sorrir docemente, ajeitar o cabelo, verificar se o verniz das unhas não estalou
e dizer:
'não sou feminista, sou feminina'?
Se o fizesse, negaria muitas outras mulheres do mundo.
As que não tiveram a mesma sorte que eu.
As que nasceram do lado errado. Na rua errada. Na casa errada.
No lado, na rua, na casa, onde são agredidas, violadas, impedidas de ser seres humanos.
Se o fizesse ignoraria
E isso, desculpem... isso... enquanto pessoa do sexo feminino... isso... não sou capaz.

Wednesday, March 08, 2006

Dia -135

Ser Mulher
Eu, que sou apenas uma mulher entre todas as mulheres do mundo,
encontro nos dados que dão conta da persistência das desigualdades de género, em todo o mundo, matéria suficiente para me envergonhar de ser pessoa.
É por isso que dispenso as flores no Dia Internacional da Mulher.
É por isso que acredito que não posso ser feminina se não for também feminista.
É por isso que sei que onde houver uma Mulher com dignidade.
Haverá também uma Feminista.

Tuesday, March 07, 2006

Dia -134

A Massagem
Fazem-me regularmente desde há 4 anos, massagens de relaxamento.
Quando saio das mãos da massagista, sinto-me a caminhar sobre nuvens.
É bom. Muito bom. Demasiado bom.
E eu mereço.

Monday, March 06, 2006

Dia -133

Os Óscares
Desde há muitos anos que assisto em directo, noite fora, à cerimónia de entrega dos óscares.
Um ano zanguei-me por não terem dado o óscar à Emily Watson pelo seu desempenho em Breaking the Waves, de Lars Von Trier.
Este ano zanguei-me por não terem eleito, entre os cinco nomeados, Brokeback Mountain como melhor filme.
Salvou-se terem dado a Ang Lee o óscar de melhor realizador.
De qualquer maneira, o facto do fabuloso (em todos os filmes que com ele vi e em Capote particularmente) Philip Seymour Hoffman ter ganho o óscar de melhor actor, desculpou tudo.
Por preconceito, admito, fiquei um bocado assarapantada com o óscar de melhor actriz a Reese Whiterspoon.
Como ainda não vi Walk the Line, não faço comentários.

Sunday, March 05, 2006

Dia -132

A Pashmina
Tenho uma pashmina linda. Trouxeram-ma da Argentina.
É de uma lã macia e muito quente. Castanha, com fios em creme e em cinzento.
Podia andar vestida só com a minha pashmina nova.
Se me fosse permitido.
Ou se não me prendessem por isso.
Ou ainda se eu ficasse bem só com ela vestida.
O que, lamentavelmente, não é o caso.

Saturday, March 04, 2006

Dia -131

A Inveja
Pronto. Reconheço. Tenho pequenas invejas. Se quiserem.
Invejas pequeninas.
Das também pequeninas felicidades alheias.

Friday, March 03, 2006

Dia -130

A Espera
Às vezes fica tudo suspenso. Parece que nada se move.
Que nada acontece. Nessas vezes. Eu. Fico expectante.
Como os terrenos. À espera de movimento.
À espera de construções.

Thursday, March 02, 2006

Dia -129

O Processo
Ando há mais de cinco meses às voltas com um processo.
De Bolonha.
Não sei bem para onde vamos. Nem exactamente como vamos.
Só sei que nunca fui a Bolonha.
Parece-me mal.

Dia -128

A Vesícula
Nunca tinha reparado que tinha uma. Sabia que tinha. Mas nunca havia dado por ela.
Até agora. Resolveu inflamar. Chatear-me. Impedir-me de comer as coisas que gosto.
Provoca-me tonturas. Vertigens.
Porque é que a minha vesícula decidiu salientar-se agora? E desta maneira tão proeminente?

Wednesday, March 01, 2006

Dia -127

Os Filmes
Vi cinco filmes entre sábado e segunda feira. Dois por dia, portanto.
Deve chegar para uma semana.
Capote
Mrs. Henderson
O Céu Gira
Transamérica
Nada a Esconder.
Bom, também vi o Bambi 2, com a minha afilhada pequena. Gosto tanto do Tambor.

Tuesday, February 28, 2006

Dia -126

O Carnaval
Que graça tem o carnaval? Maminhas a abanar. Rabos a abanar. Braços a abanar.
Pernas a abanar.
Malta em cima de carros. A abanar.
Nunca gostei nada do carnaval. É que tenho pouco jeito.
Para me abanar.

Monday, February 27, 2006

Dia -125

O Síndrome
Parece que sofro de síndrome vertiginoso. Bom... sempre se poupa no alcool. Quer dizer. Vejo tudo a andar à roda, a espaços, e nem uma cerveja preciso de beber. Hum...

Sunday, February 26, 2006

Dia -124

As Concessões de uma Tia
'Vá. Combinámos que ias para a cama às dez e meia'.
'Está bem. Mas ainda tens de me ler uma história'.
'Sim, eu leio. Que andas a ler?'
'Este' - mostrou-me o Harry Potter e a Pedra Filosofal.
'Ó pá, mas esse é enorme'.
'Lês-me só oito páginas'.
'Oito??? Quantas te lê o teu pai ou a tua mãe por dia?'
'Ahh... aí umas quatro'.
'Ora, então leio-te quatro... se eles te lêem quatro, porque é que hoje te vou ler oito?'
'Porque tu és minha tia'.
Arrematado. Li-lhe dez. E nem se falou mais nisso.

Saturday, February 25, 2006

Dia -123

O Peso
«Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito»
António Lobo Antunes, título de uma crónica do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Friday, February 24, 2006

Dia -122

A Terra Natal
«Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal»
António Lobo Antunes, título de uma das crónicas do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Thursday, February 23, 2006

Dia -121

O Meu Pai
Tenho, confesso, um complexo de electra, bastante acentuado, desde que me conheço.
Tenho esta paixão avassaladora pelo meu pai.
Não há homem mais bonito. Nem mais inteligente. Nem mais habilidoso.
Não há no mundo, outro homem que goste tanto de mim.
Não há no mundo outro homem de quem eu goste tanto como dele.
O meu pai hoje faz 68 anos.
Parabéns Pai!

Wednesday, February 22, 2006

Dia -120

O Fantasma
De repente reapareceu-me. Como um fantasma. Ou como sei lá o quê.
Disse-me, como se me tivesse visto há pouco tempo:
'sonhei contigo ontem. Quis ver o que faria o destino.'
Fiquei meia azamboada, confesso, com este fantasma sonhador e crente no destino.
Perguntou-me ainda: 'posso convidar-te para jantar amanhã?'.
No meio de alguma confusão. Que o fantasma não deixou de se caótico só por ter começado a sonhar comigo e a acreditar no destino, lembro-me de lhe dizer:'ora, bardamerda'.
E pronto. Esfumou-se.