Tuesday, April 18, 2006

Dia -176

O Ciclo
São 28 dias, mais ou menos. Os ciclos da lua.
Os ciclos menstruais.
Os ciclos das coisas que fazem a vida ser qualquer coisa mais.
Que dias a menos. Para a morte.
Foram 28 dias mais ou menos. Não sei. Não decido facilmente.
Se a mais na vida. Se a menos para a morte.
Fumo o enésimo cigarro após as quatro e meia da tarde.
Há demasiada solidão nos cigarros que fumo.
O ciclo que se acaba. Eu que volto à minha vida.
Não me queixo. A vida é-me suave.
Os dias que me restam serão suaves.
O sofrimento não tem lugar. Não pode. Quando se espera.
Suavemente.
Fumando cigarros cheios de solidão.
A morte.

Monday, April 17, 2006

Dia -175

Os Minutos
Nos teus olhos não há minutos.
Mas abismos de eternidade.
Nos teus olhos os minutos são a eternidade.

Sunday, April 16, 2006

Dia -174

O Jardim
Esqueço-me de mim.
Como se eu nunca houvesse sido. Antes. De ti.
Posso não ser mais nada. Nunca.
Outra vez.
Mas sou. Agora. Esquecida de mim.
Como se nunca houvesse sido.
Antes.
De ti.

Saturday, April 15, 2006

Dia -173

A Busca
Conheces a sensação de parares?
De parar de repente e ter uma revelação.
Muito importante.
Como.
Tu és.
E isso basta.

Friday, April 14, 2006

Dia -172

Querer(Te)
Seria capaz de atravessar o mundo. Provocar terramotos.
Sobre asas de borboletas. Ou sobre pétalas.
De um girassol.
Hoje.
Contigo. Ou. Por ti. Ou. Para ti.

Thursday, April 13, 2006

Dia -171

O Percurso Diário
'Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim'.
Ruy Belo

Wednesday, April 12, 2006

Dia -170

A Cautela
As pessoas, em certas posições, deviam ter cuidado com o que dizem
Sobretudo se o que dizem compromete o futuro de outros. Noutras posições.

Tuesday, April 11, 2006

Dia -169

O Amigo
Tenho pena que mores tão longe de mim.
Que seja preciso subir serras e descer a vales.
Voltar a descer. Voltar a subir. Para que nos encontremos.
Falar contigo, falo sempre.
Mas o que eu gostava era de estar mais próxima de ti.

Monday, April 10, 2006

Dia -168

Conhecidos
Há demasiadas pessoas muito conhecidas.
Que não conhecem ninguém.

Sunday, April 09, 2006

Dia -167

O Marão
Subo a serra. É quase quase noite.
E deixo-me invadir pela quietude destes montes.
Recortados.
A vida é feita de nadas, como dizia Torga*.
De grandes serras paradas. À espera de movimento.
Pois.
* no poema Bucólica

Saturday, April 08, 2006

Dia -166

O Olhar
Não é fácil pensar, quando me olhas.
Apetece-me ficar apenas dentro dos teus olhos.
Ter uma melhor imagem de mim.
Só porque me olhas.

Friday, April 07, 2006

Dia -165

Quem é a Imperatriz, afinal?
(ou de como, se eu acreditasse nesta treta, tudo seria mais fácil, ou pelo menos parecer-me-ia melhor)
Carta dominante: III A IMPERATRIZ
A IMPERATRIZ define um mês excelente para os nativos de Capricórnio.
A IMPERATRIZ permite desenvolver aspectos de personalidade, ultrapassar barreiras, estabelecer novas pontes de comunicação e alargar horizontes.
Capricórnio deve confiar mais em si próprio e em circunstância alguma colocar limites aos seus sonhos; este mês pode dar passos muito importantes fruto de iniciativa própria. Sentimentalmente este é sem dúvida um mês de evoluções muito agradáveis; em Abril a vida de Capricórnio pode dar uma volta significativa no sentido ascendente.
A renovação da vida sentimental está bem patente na conjuntura perspectivando-se momentos de grande intensidade e romance. Não volte as costas ao amor porque, de acordo com as cartas, ele virá este mês ao seu encontro.
No campo profissional o mês é muito positivo no campo profissional. Pode fazer alterações porque a conjuntura ajuda-o e “empurra-o “ para situações mais favoráveis. Este mês não esteja com meias medidas e enfrente decididamente o seu futuro; está no momento certo para iniciar uma nova fase profissional. Não dê ouvidos a quem pretende tolher-lhe o passo; dos fracos não reza a história. Na saúde está muito sensível e por isso sujeito a momentos de quebra energética ou cansaço excessivo.
LIGAÇÕES MAIS PROTEGIDAS COM – Carneiro, Leão e Sagitário

Thursday, April 06, 2006

Dia -164

O Decote
Por vezes compramos coisas que depois...
não nos fazem sentir muito bem, ainda que nem nos fiquem nada mal.
Passei o dia preocupada com a extensão do meu decote.

Wednesday, April 05, 2006

Dia -163

A Realidade
Custa-me muito. Estar aqui. E tu. Aí.
A realidade é uma coisa que estraga muito os sonhos.
A realidade é uma coisa que arruína a imaginação.
Não quero pensar na realidade. Só pensar. Imaginando-te aqui.

Tuesday, April 04, 2006

Dia -162

Não Existes
Não. Tu não existes.
Quer dizer. Não é possível que sejas de verdade.
Não. Não existes. Tu.
Fui eu que te inventei.
Não fui?
Inventei-te assim, exactamente.
Tal como esperei que fosses.
Não. Tu não existes.
Fui eu que te inventei.
Numa destas noites em que não durmo.
E, afinal (parece que sempre) sonho.

Monday, April 03, 2006

Dia -161

A Declaração
«(...)Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo. (...)»
Joaquim Pessoa, extracto do poema Eu sei, não te conheço mas existes

Sunday, April 02, 2006

Dia -160

Coisas Importantes (II)
Encontrar um Sputnik*.
E poder chamar-lhe, de facto, meu amor.
* Sputnik significa 'companheiro de viagem'.
Só soube isto quando li o livro de Haruki Murakami, justamente intitulado
Sputnik, meu amor

Saturday, April 01, 2006

Dia -159

Coisas Importantes (I)
Os teus olhos quando entram nos meus.

Friday, March 31, 2006

Dia -158

A Diferença
Dizemos que o que nos une é maior do que o que nos separa.
Gostamos de usar estas frases. A que a junção de água confere evidência.
Na prática. No amor. Na amizade. No trabalho. No tempo.
Na vida.
Aquilo que nos separa.
A todos.
Será sempre.
Maior. Mais forte. Mais impeditivo.
Que aquilo que nos une.
E assim sendo.
O que nos une é o quê?

Thursday, March 30, 2006

Dia -157

A Terra de Ninguém
No meio caminho entre a mentira e a verdade.
Entre o possível e o impossível.
Onde repousa o que não pode ser dito.
É onde eu te digo.
Amo-te.

Wednesday, March 29, 2006

Dia -156

O Folêgo
Aquilo que nos corta o folêgo
é
a única
razão
por que respiramos.
A grande
razão.

Tuesday, March 28, 2006

Momento de Intervalo...

... Ou Outra Coisa Qualquer

«And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her skies
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you...
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind...
My mind...
my mind...
'Til I find somebody new»

Damien Rice The blower's daughter
da banda sonora do filme Closer, de Mike Nichols

Dia -155

O (teu) Vazio
Nada a fazer quando o silêncio toma o lugar outrora ocupado. Pela música.
Nada a fazer quando a única coisa possível é fechar os olhos.
E voltar a abri-los para reconhecer que falhaste.
Outra vez.
Que ainda não. Que ainda não.
Que agora. Já. Não.
Já não sentes a música. Que foste assaltado pelo silêncio.
Quando antes todas as coisas se dissolviam na música.
Não quero que deixes de ouvir a música. Mas sei.
Que há silêncios que nos tomam.
Nada a fazer. Quando. A única coisa possível é reconhecer que ainda não.
Que. Agora. Já não.
Nada a fazer?

Monday, March 27, 2006

Dia -154

A Saída
Hesito. Entre a esquerda alta e a direita baixa.
O pano de cena enreda-se em mim.
Caí numa armadilha.
Não sou capaz de encontrar uma saída.
Posso deixar-me cair no meio do palco.
Como quem morre.
Talvez a equipa de limpeza repare no que de mim resta.
E amavelmente me transporte para fora.
De mim.

Sunday, March 26, 2006

Dia -153

Lugares
O meu lugar é onde a tua voz começa.

Saturday, March 25, 2006

Dia -152

«Mas Dancemos
já que temos
a valsa começada»
Reinaldo Ferreira - Extracto de Rosie

Friday, March 24, 2006

Dia -151

Tu
«(...) Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
(...) E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.»
Heberto Helder - Extracto de O Amor em Visita

Thursday, March 23, 2006

Dia -150

O Precipício
«Afinal o que importa é não ter medo: fechar os
olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício»*
Acontece-me passar a vida que me resta até à morte a saltar. De precipício em precipício.
A merda toda é que não há um farol que indique o caminho do abismo.
* Mário Cesariny - extracto do poema Pastelaria

Dia -149

A Impotência
A minha maior morte é a morte de mim em ti. É uma morte dificil. Deve ser.
Porque é a morte completa. Aquela de que nunca se regressará.
Aquela que põe uma pedra definitiva e sólida entre o que foi e o que há-de ser.
Eu sei que te traí de multiplas maneiras.
Não há caminho para voltar de uma morte assim.
Eu sei.
E não é triste que me sinto. É desarmada.
Para abrir uma janela qualquer nessa pedra.
Ou uma pequena fresta por onde passe um dos teus dedos em direcção ao meu cabelo.

Tuesday, March 21, 2006

Dia -148

O Dia da Poesia

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo -nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade
Ruy Belo - Espaço Preenchido

Monday, March 20, 2006

Dia -147

A Pergunta sem Resposta
Como se pode viver depois da morte do teu riso?
Como esperas que eu viva depois de ti?

Dia -146

Dia do Pai
Todos os dias, contigo, Pai, nunca são dias a menos.
Sempre dias a mais. Que me acrescentam.

Sunday, March 19, 2006

Dia -145

A Idade
Fazes oito anos hoje. Mas não é a tua idade que me preocupa. És pequenino.
Tão pequenino, para mim, como no dia em que nasceste.
Aquilo que me preocupa nos teus oito anos... não é tu estares a ficar crescido.
É o tempo que também não pára. Para mim.

Friday, March 17, 2006

Dia -144

O Regresso
Alguém me disse. Num dia a menos. Que não podemos regressar.
Aos lugares. Onde. Já fomos. Felizes.
Desde esse dia. Menor. E a menos.
Nunca deixei de regressar. Àquele lugar. Àquela pessoa.
Onde. Com quem.
Nunca fui outra coisa. Senão. Feliz.

Dia -143

Por Vezes...
...um blog é feito do que não se escreve...
Frase deste senhor aqui, que tem por mania imaginar(se)(nos) mundos, na caixa de comentários do seu blog.

Wednesday, March 15, 2006

Dia -142

«Eu Sou O Quê?
E a resposta é uma solidão assustada»
António Lobo Antunes

Tuesday, March 14, 2006

Dia -141

Quem Sou Eu?
«Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra»
António Ramos Rosa, frase do poema Uma Voz na Pedra

Monday, March 13, 2006

Dia -140

A Primavera
Hoje entrei na sala de aula e anunciei: chegou a Primavera!
Olharam para mim estupefactos e um mais afoito corrigiu-me:
«a Primavera só começa dia 21 de Março, professora».
Que culpa tenho eu, sim, que culpa tenho eu de lá fora estar um sol abrasador,
cheirar a polén e a erva e de ter alunos tão arreigadamente defensores de calendários?

Sunday, March 12, 2006

Dia -139

A Rua
A rua. A minha. É grande e larga. Tem água. Muita. Ao fundo. Advinham-se os montes de sal.
De antes. Advinha-se mais água que não vejo da janela. A minha rua é grande. E larga.
Não sei quantos passos de comprimento. Não sei quantos passos de largura.
Nunca caminhei a pé por toda a extensão da minha rua.
Sou uma habitante inútil. Que se debruça em direcção à água. Ao fundo. Da janela.
Que nunca se aproximou demasiado dos passeios. Das passadeiras. Dos prédios.
E dos vizinhos.
Sou uma pessoa inútil. Que não conhece, com os seus passos. A sua própria rua.
Inutilmente habito uma cidade onde não conheço ninguém.
Inutilmente habito uma rua que só conheço à distância.
Inutilmente entro e saio do meu prédio sem um eco de bons dias.
Inutilmente vagueio pelas divisões da minha casa.
A rua lá fora. A cidade lá fora. Os vizinhos lá fora.
E eu cá dentro. Inutilmente habitando. Um corpo de que não conheço o habitante.

Saturday, March 11, 2006

Dia -138

O Deserto
Há três anos. Desapareceste. Deixaste. Um deserto.
Cá dentro.
Há três anos morreste.
E neste deserto em que estou.
Todos os dias são dias a mais.
Ou a menos.
Para a minha. Solidão.
Ou. Morte.

Friday, March 10, 2006

Dia -137

A Carta da Paixão
Que alguém me escreva
algum dia (por exemplo hoje) alguma coisa semelhante a isto.
Enquanto eu sangro.
Lentamente.
«Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minhavida secreta.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.»
Herberto Helder

Thursday, March 09, 2006

Dia -136

O Feminismo (ainda)
O que é ser feminista? Faz ainda sentido ser feminista?
Ainda que a palavra feminismo tenha uma carga negativa, associada às maniffestações mais radicais dos anos 60... faz sentido.
Aliás, não concebo ser mulher sem ser feminista.
Acho abomináveis e indignas da sua condição (feminina) as mulheres que dizem:
'eu não sou feminista... sou feminina'.
Bom, é uma evidência. Se se é mulher... necessáriamente é-se feminina.
E eu acrescento:
Se se é mulher deve ser-se feminista.
Tive a fortuna de nascer do lado certo do mundo, do lado certo da rua. Na casa certa.
Um lado onde os direitos humanos são relativamente bem assegurados.
Uma rua e uma casa onde nunca houve violência doméstica.
Onde nunca fui utilizada como mais um instrumento de guerra.
Onde nunca me excizaram o clitóris.
Onde nunca me violaram.
Onde nunca me bateram.
Onde nunca me impediram de votar.
De ir à escola. Ao médico. Ao cinema. Ao teatro. Aonde me apetecer.
Tive a fortuna de a minha condição de mulher nunca ter condicionado a minha vida.
Faço o que quero. Sou o que quero. Tive oportunidades.
E depois? Deveria sorrir docemente, ajeitar o cabelo, verificar se o verniz das unhas não estalou
e dizer:
'não sou feminista, sou feminina'?
Se o fizesse, negaria muitas outras mulheres do mundo.
As que não tiveram a mesma sorte que eu.
As que nasceram do lado errado. Na rua errada. Na casa errada.
No lado, na rua, na casa, onde são agredidas, violadas, impedidas de ser seres humanos.
Se o fizesse ignoraria
E isso, desculpem... isso... enquanto pessoa do sexo feminino... isso... não sou capaz.

Wednesday, March 08, 2006

Dia -135

Ser Mulher
Eu, que sou apenas uma mulher entre todas as mulheres do mundo,
encontro nos dados que dão conta da persistência das desigualdades de género, em todo o mundo, matéria suficiente para me envergonhar de ser pessoa.
É por isso que dispenso as flores no Dia Internacional da Mulher.
É por isso que acredito que não posso ser feminina se não for também feminista.
É por isso que sei que onde houver uma Mulher com dignidade.
Haverá também uma Feminista.

Tuesday, March 07, 2006

Dia -134

A Massagem
Fazem-me regularmente desde há 4 anos, massagens de relaxamento.
Quando saio das mãos da massagista, sinto-me a caminhar sobre nuvens.
É bom. Muito bom. Demasiado bom.
E eu mereço.

Monday, March 06, 2006

Dia -133

Os Óscares
Desde há muitos anos que assisto em directo, noite fora, à cerimónia de entrega dos óscares.
Um ano zanguei-me por não terem dado o óscar à Emily Watson pelo seu desempenho em Breaking the Waves, de Lars Von Trier.
Este ano zanguei-me por não terem eleito, entre os cinco nomeados, Brokeback Mountain como melhor filme.
Salvou-se terem dado a Ang Lee o óscar de melhor realizador.
De qualquer maneira, o facto do fabuloso (em todos os filmes que com ele vi e em Capote particularmente) Philip Seymour Hoffman ter ganho o óscar de melhor actor, desculpou tudo.
Por preconceito, admito, fiquei um bocado assarapantada com o óscar de melhor actriz a Reese Whiterspoon.
Como ainda não vi Walk the Line, não faço comentários.

Sunday, March 05, 2006

Dia -132

A Pashmina
Tenho uma pashmina linda. Trouxeram-ma da Argentina.
É de uma lã macia e muito quente. Castanha, com fios em creme e em cinzento.
Podia andar vestida só com a minha pashmina nova.
Se me fosse permitido.
Ou se não me prendessem por isso.
Ou ainda se eu ficasse bem só com ela vestida.
O que, lamentavelmente, não é o caso.

Saturday, March 04, 2006

Dia -131

A Inveja
Pronto. Reconheço. Tenho pequenas invejas. Se quiserem.
Invejas pequeninas.
Das também pequeninas felicidades alheias.

Friday, March 03, 2006

Dia -130

A Espera
Às vezes fica tudo suspenso. Parece que nada se move.
Que nada acontece. Nessas vezes. Eu. Fico expectante.
Como os terrenos. À espera de movimento.
À espera de construções.

Thursday, March 02, 2006

Dia -129

O Processo
Ando há mais de cinco meses às voltas com um processo.
De Bolonha.
Não sei bem para onde vamos. Nem exactamente como vamos.
Só sei que nunca fui a Bolonha.
Parece-me mal.

Dia -128

A Vesícula
Nunca tinha reparado que tinha uma. Sabia que tinha. Mas nunca havia dado por ela.
Até agora. Resolveu inflamar. Chatear-me. Impedir-me de comer as coisas que gosto.
Provoca-me tonturas. Vertigens.
Porque é que a minha vesícula decidiu salientar-se agora? E desta maneira tão proeminente?

Wednesday, March 01, 2006

Dia -127

Os Filmes
Vi cinco filmes entre sábado e segunda feira. Dois por dia, portanto.
Deve chegar para uma semana.
Capote
Mrs. Henderson
O Céu Gira
Transamérica
Nada a Esconder.
Bom, também vi o Bambi 2, com a minha afilhada pequena. Gosto tanto do Tambor.

Tuesday, February 28, 2006

Dia -126

O Carnaval
Que graça tem o carnaval? Maminhas a abanar. Rabos a abanar. Braços a abanar.
Pernas a abanar.
Malta em cima de carros. A abanar.
Nunca gostei nada do carnaval. É que tenho pouco jeito.
Para me abanar.

Monday, February 27, 2006

Dia -125

O Síndrome
Parece que sofro de síndrome vertiginoso. Bom... sempre se poupa no alcool. Quer dizer. Vejo tudo a andar à roda, a espaços, e nem uma cerveja preciso de beber. Hum...

Sunday, February 26, 2006

Dia -124

As Concessões de uma Tia
'Vá. Combinámos que ias para a cama às dez e meia'.
'Está bem. Mas ainda tens de me ler uma história'.
'Sim, eu leio. Que andas a ler?'
'Este' - mostrou-me o Harry Potter e a Pedra Filosofal.
'Ó pá, mas esse é enorme'.
'Lês-me só oito páginas'.
'Oito??? Quantas te lê o teu pai ou a tua mãe por dia?'
'Ahh... aí umas quatro'.
'Ora, então leio-te quatro... se eles te lêem quatro, porque é que hoje te vou ler oito?'
'Porque tu és minha tia'.
Arrematado. Li-lhe dez. E nem se falou mais nisso.

Saturday, February 25, 2006

Dia -123

O Peso
«Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito»
António Lobo Antunes, título de uma crónica do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Friday, February 24, 2006

Dia -122

A Terra Natal
«Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal»
António Lobo Antunes, título de uma das crónicas do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Thursday, February 23, 2006

Dia -121

O Meu Pai
Tenho, confesso, um complexo de electra, bastante acentuado, desde que me conheço.
Tenho esta paixão avassaladora pelo meu pai.
Não há homem mais bonito. Nem mais inteligente. Nem mais habilidoso.
Não há no mundo, outro homem que goste tanto de mim.
Não há no mundo outro homem de quem eu goste tanto como dele.
O meu pai hoje faz 68 anos.
Parabéns Pai!

Wednesday, February 22, 2006

Dia -120

O Fantasma
De repente reapareceu-me. Como um fantasma. Ou como sei lá o quê.
Disse-me, como se me tivesse visto há pouco tempo:
'sonhei contigo ontem. Quis ver o que faria o destino.'
Fiquei meia azamboada, confesso, com este fantasma sonhador e crente no destino.
Perguntou-me ainda: 'posso convidar-te para jantar amanhã?'.
No meio de alguma confusão. Que o fantasma não deixou de se caótico só por ter começado a sonhar comigo e a acreditar no destino, lembro-me de lhe dizer:'ora, bardamerda'.
E pronto. Esfumou-se.

Tuesday, February 21, 2006

Dia -119

O Sentimento de Culpa
Não sei bem o que fiz. Mas alguma coisa foi. Se mereço isto.
A culpa. Sentir culpa. Mesmo que a culpa. Não seja minha.
Mesmo que não saiba de quem é a culpa.
'Je me sens coupable, parce que j'ai l'habitude.
C'est la seule chose que je peut faire, avec une certaine
certitude'.
Lhasa The Living Road

Monday, February 20, 2006

Dia -118

A Trasladação
Honestamente. Que merda é esta? Num estado laico! Que merda vem a ser esta?
Honras de transmissão interminável pelas várias televisões? Cortejos de milhares de pessoas?
Que merda é esta?
Quem é esta mulher, ou este monte de ossos que agora mudam de lugar?
Que fez ela pelo país? A não ser contribuir para a tacanhez?
Para a perpetuação de uma crença numa história de uma senhora cheia de luz.
Escarrapachada numa azinheira, ou oliveira... ou lá no que foi.
Só estou certa que não foi um castanheiro.
Os castanheiros são árvores com dignidade. Não se prestam a merdas destas.
Que merda é esta? Honestamente, continuamos na mesma.
Família, Futebol e Fátima.
Falta um F. Falta um F.
Foda-se!

Sunday, February 19, 2006

Dia -117

A Chuva
É torrencial esta chuva. Sinto-me minúscula. Sou minúscula.
Enquanto alguém, algures, acima. Atira violentos baldes de água.
É torrencial. A chuva. E eu tão pequena, tão pequena.
Que não tenho medo.
Deixo que a chuva torrencial me lave o corpo.
Os olhos.
E os sentidos.

Friday, February 17, 2006

Dia -116

Munique
Porque é que acho que Munique é um filme extraordinário?
Porque, ainda que no início, estivesse preocupada com a tendência pró-israelita que o filme destilava... depressa foi evidente a ambivalência.
Volto, pois, a dizer. Todos. Podemos ser Terroristas. Pelo menos. Uma vez.

Thursday, February 16, 2006

Dia -115

A Ambivalência
Porque todos acreditamos profundamente em alguma coisa.
Porque temos todos pelo menos uma convicção inabalável.
Uma ideia. Uma ideologia. Uma religião. Um laço. Um lugar.
Uma pátria.
Todos podemos ser terroristas. Ao menos uma vez.

Wednesday, February 15, 2006

Dia -114

Detesto o Amor*
A verdade é que não detesto o amor.
Apenas as celebrações a dias certos. Aparatosas.
Cheias de coisas vermelhas. Parafernália inútil. Ao próprio amor.
Na verdade, tenho saudades dos homens que amei profundamente.
Na verdade, detesto a ideia de já não os amar.
Ou de eles já não me amarem a mim.
*J'Ai Horreur de L'Amour, apresentado em Portugal com o título 'Detesto o Amor' é um belíssimo filme de Laurence Ferreira-Barbosa.

Dia -113

As Manias
Tenho muitas. Manias. Muito mais que cinco. (In)Felizmente.
Assim, Vanessa:
1. A mania de acordar tarde. Pontualmente tarde.
2. A mania de me deitar de madrugada.
3. A mania de cheirar qualquer livro em que pegue. Velho ou novo.
4. A mania de acreditar. Nas pessoas. Nas situações. Mesmo que tudo se repita. Indefinidamente. Acredito sempre que não será igual. E, de facto, igual não é. Apenas muito parecido.
5. A mania das limpezas e da organização. Só funciono se tudo estiver muito limpo e muito organizado. Quer seja a minha casa, quer seja o local de trabalho. Acho que o caos 'cá dentro' é tão grande que é o único modo que encontrei para viver.
Passo esta corrente ao JOS do Turno da Noite. Ao JPN do Respirar o Mesmo Ar.
Ao Carlos Azevedo do The Cat Scats. À Sandra Costa do Tubo de Ensaio. Ao Henrique do Insónia.
Não sei é se eles vão responder.
Regulamento: Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.

Monday, February 13, 2006

Dia -112

O Filósofo
100 anos sobre o nascimento de alguém, são muitos dias.
Aproximadamente 36500. A menos. Para a morte.
Mas há quem ainda que morrendo, não morra.
Talvez nunca ninguém morra, enquanto houver razões para recordarmos.
E aprendermos ainda. A pensar. E a não nos conformarmos.

Friday, February 10, 2006

Dia -109

A Fórmula
João* se a fórmula para se ter alguma felicidade é sermos bons na cama e bons cozinheiros, não percebo por que raio não serei eu feliz. É que eles não costumam queixar-se. Da comida.
Ou do modo como como. Ou do modo como me deixo comer.
Por que raio, então?
Porque aquilo de que preciso (ou precisamos) não se esgota nessas elementares necessidades?
Porque tenho mais necessidades do que as elementares?
Porque até tenho mais elementares necessidades?
Ou porque tenho necessidades a mais para o bem que como e cozinho?
* a propósito do comentário deixado no post do dia -104 - O Troglodita)

Thursday, February 09, 2006

Dia -108

Estado em que se encontra este blog. E eu. Consequentemente.
*Título de uma canção de Paolo Conte (in 'Una Faccia in Prestito'). Não faço ideia do que significa, mas sempre me soou a 'falem para aí que eu não me ralo nada', que é como quem diz: 'vão dar banho ao cão que eu entretanto darei palha às minhas renas'. Cliquem no título e vejam se não vos soa ao mesmo.

Wednesday, February 08, 2006

Dia -107

O Paradoxo
É possível estar-se numa sobreposição de dois estados e ter disso consciência?
Por exemplo eu, qual gato na experiência teórica de Erwin Schrödinger...
eu estou simultaneamente morta e viva.
Que sentido fará uma pessoa morta-viva?

Tuesday, February 07, 2006

Dia -106

Golpes de Beleza, por Correio Normal
«Esta noite, não sei se viram, o céu esteve claro
como se fosse uma hora impossível do dia»
in Lúcia
(posts editados em A Natureza do Mal, blog de André Bonirre e Luís Januário, em 2005)

Monday, February 06, 2006

Dia -105

A Resistência
Na minha idade é mais fácil resistir. Que ceder.
Se quiser, encontro sempre excelentes razões.
Para resistir. A praticamente tudo.

Dia -104

O Troglodita
«Sabes? Para mim há duas coisas muito importantes numa mulher».
«Ah sim? O quê?».
«Ora. Que há-de ser? Que seja boa na cama e que cozinhe bem!».
Fiquei na dúvida, ao ouvir isto, de passagem.
Ainda há gente que vive no tempo das cavernas?

Sunday, February 05, 2006

Dia -103

A Pele
Não gosto de ti. Quer dizer, não tenho nada contra ti. Mas...
não gosto do modo como pensas a vida. A política. As mulheres.
As coisas. As pessoas.
Não. Não gosto mesmo nada de ti. Mas...
seria possível, por favor, deixares ficar a tua pele?

Friday, February 03, 2006

Dia -102

A Febre

Ohhh you give me fever....

* Peggy Lee in ‘The Best of Miss Peggy Lee'

Thursday, February 02, 2006

Dia -101

O Vírus Suplicante

Blog.Worm

Wednesday, February 01, 2006

Dia -100

100 Dias a Menos

Viver sempre também cansa
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
Ora é azul, nitidamente azul,
Ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
Como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem
A lua não tem olhos
E ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem, riem e digerem
Sem imaginação

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
Discursos de Mussolini,
Guerras, orgulhos em transe
Automóveis de corrida….

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho,
De vez em quando,
E recomeçar depois,
Achando tudo mais novo?

Ah se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
Morrer em cima de um divã
Com a cabeça sobre uma almofada,
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do Norte

Quando viessem perguntar por mim,
Havias de dizer com o teu sorriso
Onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã
agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela”.

E virias depois suavemente
Velar por mim, subtil e cuidadosa
Pé ante pé, não fosses acordar
A Morte ainda menina no meu colo…

José Gomes Ferreira - Viver sempre também cansa

Tuesday, January 31, 2006

Dia -99

A Borbulha
Tenho 39 anos e acne juvenil.
Haverá maior incongruência?

Monday, January 30, 2006

Dia -98

As Aulas
Recomeçaram as aulas. Um semestre inteirinho a estrear.
Com alunos novos. Mais exactamente. 300 alunos novos.
Pareceram-me simpáticos. Mas a esta distância. Nunca se sabe.

Sunday, January 29, 2006

Dia -97

A Náusea
Pois. Continuo. Muito. Mal. Disposta.

Saturday, January 28, 2006

Dia -96

Os Copos
Já estou muito velha para beber copos. Muitos copos. Esqueci-me disso. Misturei vinho tinto com guinness. O resultado... é melhor que não queiram saber. Nunca mais! Nem a mistura que já devia reconhecer como fatal. Nem copos.

Friday, January 27, 2006

Dia -95

O Totoloto
A minha chave é a mais bonita. Desculpem lá.
vento.
casa.
pedra.
árvore.
girassol.
ponte.

Thursday, January 26, 2006

Dia -94

O Amor na Era Virtual
Antigamente as pessoas acabavam os relacionamentos.
Agora apagam-se das listas de contactos.
Pode ser-se mais descartável que isto?

Wednesday, January 25, 2006

Dia -93

O Apontamento
Tu escreves para que
no fundo de cada palavra
vibre o que não pode ser pronunciado
e que as coisas se retraiam
sob a forma do seu silêncio
António Ramos Rosa - Excerto de 'Talvez tenhas de colocar uma pedra'

Tuesday, January 24, 2006

Dia -92

A Condição Humana
Choras sozinho em frente ao televisor ligado. A tua vida resume-se ao ligar do televisor.
E a essas lágrimas. Sós. Não és nada. Sabes que nada és. Nada serás.
Apenas esperas alguém. Que substitua o televisor ligado. Uma voz que te diga. É isto.
É isto que deves fazer. Mas continuarás a chorar. Sozinho. Em frente àquela voz.
Em frente a outro ser humano. Ninguém te dará. O que já não tens. O que nunca tiveste.
O que nunca terás. Choras sozinho. Não há outra maneira. De chorar. Ou ser.
Para ti não há outra maneira.

Monday, January 23, 2006

Dia -91

Welcome to Twilight Zone
Poderei, ainda, mudar de país? Poderei, ainda, mudar de planeta?
Poderei passar para uma dimensão diferente?
Ou já estarei encerrada na twilight zone, com isto... sim isto... como presidente?

Dia -90

As Dúvidas
Que tenha muitas.
Que se engane muito.
Ao menos, que lhe sirva para alguma coisa!

Sunday, January 22, 2006

Dia -89

A Véspera
Estou enervada. Com amanhã.
Hoje recebi uma sms assim: amanhã bebe uns copos e vai votar alegre.
Ei irei votar alegremente. Mas tenho mesmo que beber?

Friday, January 20, 2006

Dia -88

A Medida Certa
Tu foste muito amada. Ou amaste muito. Ou... whatever.
Whatever?

Thursday, January 19, 2006

Dia -87

A Democracia
Apesar de muitos (incluindo eu mesma) não lhe darem cavaco,
suponho que no domingo vamos ficar todos
encavacados.

Wednesday, January 18, 2006

Dia -86

A Repetição
É sempre o mesmo. Já se viu. Já se disse. Já se fez. É sempre o mesmo.
Mas acredita-se sempre que não é igual. Ou. Que não vai ser.
Uma repetição.

Tuesday, January 17, 2006

Dia -85

O Vidro
Gosto de pessoas de vidro. Fragéis. Sem medo disso. Transparentes.
Tanto. Quanto. Possível. De vidro. Que se quebram. Que se deixam quebrar.
Que sabem. Quebrar. Se.

Monday, January 16, 2006

Dia -84

O Stress
Sim. Vai já. Pois, era para ontem. Claro, claro. Mas eu sou só uma e só tenho dois braços, duas mãos e uma cabeça. Sim, às vezes penso que tenho mais. Mas não. Não sou capaz. De fazer mais. Logo que possa. Tratarei disso.

Sunday, January 15, 2006

Dia -83

As Correcções
Detesto fazer correcções. Avaliações. Detesto fazer serões.
A fazer correcções. Avaliações.
Passo-os todos? Atiro os trabalhos e os exames ao ar?
Vou beber um copo e depois logo decido?
Estou tramada.

Dia -82

As Limpezas
Tenha a mania das limpezas. E da arrumação. É mais forte que eu.
Quando não tenho nada para limpar. Invento. Alivia-me o stress.

Friday, January 13, 2006

Dia -81

A Aposta
Apostei um almoço. Eu nunca faço apostas. Mas apostei um almoço.
Desejando ter de pagar o almoço. Claro. Apostei que Cavaco ganha à primeira volta.
A outra parte. A que eu ansiosamente desejo que ganhe.
Apostou que vai haver uma segunda volta.
Repito: desejo ter de pagar este almoço. nada me daria mais prazer.
Ou Alegria.

Thursday, January 12, 2006

Wednesday, January 11, 2006

Dia -79

O Pôr do Sol
Depois daquele pôr do sol, com ele, numa tarde fria de Setembro, pensou que existiriam outros.
Pores do sol. Com ele.
Mas não.
Os únicos pores do sol que agora observa, são os que imagina.
Como no asteróide B612, imagina 1240 pores do sol.
Basta mover a cadeira um milímetro.
E volta a tarde fria. O mar. O pôr do sol. Aquele. O dia quase noite.
E mesmo ele se senta numa cadeira ao lado da sua.
1240 vezes. Por dia.

Tuesday, January 10, 2006

Dia -78

A Gratidão
'A gratidão é a única resposta adequada para tudo o que acontece'.
Michael Cunnigham - Dias Exemplares