Wednesday, May 10, 2006

Dia -197

A Leveza
Que a vida te seja leve.
Que os dias te passem suaves.
Que as certezas cegas existam longe de ti.
Que as dúvidas te assaltem com frequência.
Que o amor te visite sempre.
Seja por quem for.
Seja como for.
Que a estranheza não te quebre os laços.
Que a incompreensão não faça morrer em ti.
Os sentimentos enormes.
Que a vida te seja leve.
Como a quero para mim.

Monday, May 08, 2006

Dia -196

O Mal
Por muito grande. Até enorme. Que o bem seja.
Ou tenha sido.
O mal sobrepor-se-á.
Sempre.

Sunday, May 07, 2006

Dia -195

Uma Parte da Razão
Irritabilidade.
Nervosismo.
Descontrole das acções ou emoções.
Agitação.
Raiva.
Insónia.
Dificuldade de concentração.
Letargia.
Depressão.
Sensação de cansaço.
Ansiedade.
Confusão.
Esquecimento frequente.
Baixa auto-estima.
Paranóia.
Hipersensibilidade emocional.
Ataques de choro.
(Sintomas psicológicos do SPM. Um dia os homens escolherão as mulheres pela inexistência destes sintomas. Eu tenho muitos deles)

Saturday, May 06, 2006

Dia -194

Como à espera do comboio...
...baixinho. Sem gritar.
Quando gritar contra o silêncio do comboio nos carris
é a única coisa que apetece.
Gritar contra esse silêncio.
Experimentar um grito. Assim.
Não gritar para que o homem dentro do comboio ouça.
Talvez para que não ouça.
Nem veja.
Porque já nem (ver) quer.
E o comboio aproxima-se sobre os carris.
Silêncio.
É um comboio exacto. Desta vez.
Aproxima-se.
De uma estação agora triste.
Como o Verão.
E quem vem dentro do comboio sabe.
Que parará na estação exacta.
E não. Coisa tão improvável. Mas já acontecida.
Numa paragem de autocarro.
Há uma mulher na estação exacta.
Parada. Como no Inverno.
Uma mulher cheia de frio.
Uma mulher perfeitamente inexacta.
Perfeitamente banal.
Que sabe que todos os seus gestos.
Não mudarão nada.
Há este sol brutal. Como ao meio-dia.
Há este frio inexplicável.
Como na madrugada.
Nem já os olhos serão exactamente verdes.
Nem já a pele exactamente faminta.
Nem já a voz exactamente música.
Nem já as mãos exactamente cheias.
Há esta solidão desamparada.
Como a solidão que deve haver na morte.
Dos que amaram.
Exactamente.
O verde de um olhar.
Exactamente.
A fome de uma pele.
Exactamente.
A música de uma voz.
Exactamente.
A plenitude de umas mãos.
Há esta mulher inexacta.
Quase inexplicável.
Que é já uma mulher qualquer.
À espera de um comboio.
Onde um homem exacto.
E (ainda) único.
Virá.
Para se transformará em memória.

Dia -193

A Carta
(que nunca te escrevi, nem nada)
Se eu soubesse a razão. Para a minha súbita loucura.
Saberia. Certamente.
Porque perdi o que julguei ter encontrado.
Em ti. Ou através de ti. Ou por ti.
Ou em mim. Por tua causa.
Se eu soubesse a razão. Se eu, ao menos a tivesse!
Saberia.
Que no teu amor por mim começaram largas avenidas.
Que se abrem agora essas avenidas.
Como estradas para lugar nenhum.
No fundo das avenidas que o teu amor abriu em mim não existe mais nada.
Nem a razão que eu queria saber.
Se eu soubesse a razão.
Para a minha súbita crueldade.
Para a minha súbita entrada do lado do que se não dirá nunca.
E nunca. E nunca. Menos ainda. A quem diz amar-se.
Se eu a soubesse.
Saberia talvez a matéria de que sou feita.
Saberia que há um universo indefensável.
Se eu soubesse a razão.
Do meu súbito desejo de te fazer mal.
Não o teria tido.
Tudo estaria como agora.
As avenidas abertas.
E ao fundo... uma razão para viver sem culpas.
Haveria a razão que outrora havia.
Se eu soubesse mexer nas coisas.
Saberia.
Que nada muda o amor que tive. E me tiveste.
Que nada transforma um ataque suícida.
Que nada muda que o amor que tive e me tiveste seja exactamente isso.
O amor. Que eu te tive. E me tiveste.

Thursday, May 04, 2006

Dia -192

Arder...
... na fogueira destas palavras.
Quem escreve como tu não deveria. Nunca. Fazer intervalos.
Sabes bem o que tens a fazer, quando tudo arde, não sabes?

Wednesday, May 03, 2006

Dia -191

A Perplexidade
Não. Não é. Ou será. Alguma vez. A paixão.
Que me deixa perplexa.
A paixão não.
É fácil pensar que estamos apaixonados.
As pessoas são tão interessantes.
O que me deixa perplexa é o Amor.
Ou seja. As pessoas conhecerem-se por dentro.
E por fora.
E ainda assim. Apesar disso.
Até mesmo por isso.
Serem capazes de se amar.

Tuesday, May 02, 2006

Dia -190

A Amiga Apaixonada
A minha amiga escreveu-me isto:
«Não fazes ideia. Ou até farás.
Se alguém pode fazer, será com certeza tu.
Tem sido fabuloso.
Algo que nunca julguei possível, ou pelo menos algo que já não julgava possível.
Um amor avassalador, enfim não nos precipitemos -
uma paixão avassaladora.
Um turbilhão, um ciclone que tudo arrasta
Mais uma vez fiquei contente.

Monday, May 01, 2006

Dia -189

Maio
O verão aproxima-se em grandes e quentes passos.
Toda a gente sabe que eu odeio o verão.

Sunday, April 30, 2006

Dia -188

Os Dedos
Deslizam. E fazem-me chorar.
Porque.
Produzem.
Tanta.
Beleza.

Saturday, April 29, 2006

Dia -187

Desaparecer
Há dias. Em que gostaria muito.
De desaparecer.
Completamente.

Friday, April 28, 2006

Dia -186

As Gargalhadas
Eu gosto. De me rir às gargalhadas.

Thursday, April 27, 2006

Dia -185

A Assinatura
Não. Não precisas de assinar.
Reconheço as tuas palavras.
Como se fossem minhas.
Na verdade.
São minhas.

Wednesday, April 26, 2006

Dia -184

O (Bom) Vernáculo
Foda-se, eu amo-te, caraças!

Tuesday, April 25, 2006

Dia -183

25 de Abril
'Esta é a madrugada que eu esperava,
o dia inicial,
inteiro e limpo,
onde emergimos
da noite e do silêncio
e, livres, habitamos
a substancia do tempo'
Sophia de Mello Breyner

Monday, April 24, 2006

Dia -182

O Perigo
Há olhares que nos atravessam.
Que entram cá dentro.
Não sei como.
Ou por onde.
Há olhares que, sabemos, não podem ser retribuídos.
Podia ser perigoso.

Sunday, April 23, 2006

Dia -181

O Comboio
Gosto do que o comboio traz.
Detesto quando o comboio leva...

Saturday, April 22, 2006

Dia -180

A Peripécia
'cancro, cólera e pedra nos rins,
são o melhor meio de locomoção para as estrelas'
frase da peça Vincent, Van e Gogh

Friday, April 21, 2006

Dia -179

Agora
Ela deixou que o mar entrasse, inteiro, na sua casa.
Ela coseu as velas. Do frágil pano.
Ela deixou-se navegar. Como um bote.
Ou.
Outras vezes.
Como uma caravela.
Ela resolveu plantar girassois.
E castanheiros.
Ela resolveu esquecer-se que detesta as manhãs.
Ela resolveu entregar as mãos.
Ou.
O que das mãos lhe resta.
Ela entregou-se, inteira, a frases como.
Por exemplo.
Esta.
Nem mais um passo longínquo, nunca mais estar apartado de ti...
Agora.
Ela ama.
Ela sente o tempo. Passar inteiro.
Devagar.
Ela domina a urgência que punha.
Antes.
Em todas as coisas.
Ela espera.
Agora.
Ela não sabia.
Antes.
Que sabia.
Esperar.

Thursday, April 20, 2006

Dia -178

As Evidências
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que ao ter-te, amo-te mais
e mais ainda
Depois de ter-te, meu amor
não finda com o próprio amor,
o amor do teu encanto
Que encanto é o teu?
Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos,
prendem
por uma paz da guerra a que se vendem
a pouca liberdade do meu canto.
Um cântico da terra e do seu povo
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu?
Deitado à tua beira
sei que se rasga
eterno
o véu da graça.
Jorge de Sena