Tuesday, May 16, 2006

Dia -203

Iogurtes com moral...
Há uns iogurtes que têm provérbios.
Antes tinham frases lamechas.
Agora têm provérbios.
O meu iogurte de hoje dizia:
Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje!
Pelo sim pelo não, segui o conselho.
Nunca se sabe.

Sunday, May 14, 2006

Dia -202

A Pergunta a que ninguém (me) responde

Para onde vão os amores que foram um dia?

R.Guedes de Carvalho - Mulher em Branco

Saturday, May 13, 2006

Dia -201

Sábado, 16:15
Há dias e horas. Insuportáveis.

Dia -200

Azul
Eu tenho um amigo azul.
Que acha que eu sou bonita.
Que me quer bem.
Que me pede devagar. Coisas. Como.
'Não estejas triste'.
Que me abre a porta de casa.
Que chora das minhas lágrimas.
Que tem o coração pesado.
Quando o meu também pesa muito.
Eu tenho um amigo azul.
O azul é uma cor bonita.

Friday, May 12, 2006

Dia -199

O Tempo Perdido
Nada ficou. Aqui.
Quanto mais penso. Mais sei.
Que não acrescentaste nada.
Tiraste só algumas coisas.
Não deixaste praticamente nada.
Não sei onde estava com a cabeça.
Quando me atrevi a lamentar.
Só tempo perdido.
E eu que tenho tão pouco.
Raios me partam.
Tudo o que fiz contigo.
Podia ter sido feito.
Apenas comigo.
Sem perdas de tempo.
Sem ondas.
Sem nada.
Exactamente... sem nada, como ficou.
O que vale. É que ainda me tenho a mim.
E comigo. Eu nunca perdi o meu tempo.

Thursday, May 11, 2006

Dia -198

A Ironia
A suprema ironia é quando a faca que usas para ferir o outro
é exactamente a mesma faca,
(um tudo nada mais afiada)
que o outro usa
para te matar.

Wednesday, May 10, 2006

Dia -197

A Leveza
Que a vida te seja leve.
Que os dias te passem suaves.
Que as certezas cegas existam longe de ti.
Que as dúvidas te assaltem com frequência.
Que o amor te visite sempre.
Seja por quem for.
Seja como for.
Que a estranheza não te quebre os laços.
Que a incompreensão não faça morrer em ti.
Os sentimentos enormes.
Que a vida te seja leve.
Como a quero para mim.

Monday, May 08, 2006

Dia -196

O Mal
Por muito grande. Até enorme. Que o bem seja.
Ou tenha sido.
O mal sobrepor-se-á.
Sempre.

Sunday, May 07, 2006

Dia -195

Uma Parte da Razão
Irritabilidade.
Nervosismo.
Descontrole das acções ou emoções.
Agitação.
Raiva.
Insónia.
Dificuldade de concentração.
Letargia.
Depressão.
Sensação de cansaço.
Ansiedade.
Confusão.
Esquecimento frequente.
Baixa auto-estima.
Paranóia.
Hipersensibilidade emocional.
Ataques de choro.
(Sintomas psicológicos do SPM. Um dia os homens escolherão as mulheres pela inexistência destes sintomas. Eu tenho muitos deles)

Saturday, May 06, 2006

Dia -194

Como à espera do comboio...
...baixinho. Sem gritar.
Quando gritar contra o silêncio do comboio nos carris
é a única coisa que apetece.
Gritar contra esse silêncio.
Experimentar um grito. Assim.
Não gritar para que o homem dentro do comboio ouça.
Talvez para que não ouça.
Nem veja.
Porque já nem (ver) quer.
E o comboio aproxima-se sobre os carris.
Silêncio.
É um comboio exacto. Desta vez.
Aproxima-se.
De uma estação agora triste.
Como o Verão.
E quem vem dentro do comboio sabe.
Que parará na estação exacta.
E não. Coisa tão improvável. Mas já acontecida.
Numa paragem de autocarro.
Há uma mulher na estação exacta.
Parada. Como no Inverno.
Uma mulher cheia de frio.
Uma mulher perfeitamente inexacta.
Perfeitamente banal.
Que sabe que todos os seus gestos.
Não mudarão nada.
Há este sol brutal. Como ao meio-dia.
Há este frio inexplicável.
Como na madrugada.
Nem já os olhos serão exactamente verdes.
Nem já a pele exactamente faminta.
Nem já a voz exactamente música.
Nem já as mãos exactamente cheias.
Há esta solidão desamparada.
Como a solidão que deve haver na morte.
Dos que amaram.
Exactamente.
O verde de um olhar.
Exactamente.
A fome de uma pele.
Exactamente.
A música de uma voz.
Exactamente.
A plenitude de umas mãos.
Há esta mulher inexacta.
Quase inexplicável.
Que é já uma mulher qualquer.
À espera de um comboio.
Onde um homem exacto.
E (ainda) único.
Virá.
Para se transformará em memória.

Dia -193

A Carta
(que nunca te escrevi, nem nada)
Se eu soubesse a razão. Para a minha súbita loucura.
Saberia. Certamente.
Porque perdi o que julguei ter encontrado.
Em ti. Ou através de ti. Ou por ti.
Ou em mim. Por tua causa.
Se eu soubesse a razão. Se eu, ao menos a tivesse!
Saberia.
Que no teu amor por mim começaram largas avenidas.
Que se abrem agora essas avenidas.
Como estradas para lugar nenhum.
No fundo das avenidas que o teu amor abriu em mim não existe mais nada.
Nem a razão que eu queria saber.
Se eu soubesse a razão.
Para a minha súbita crueldade.
Para a minha súbita entrada do lado do que se não dirá nunca.
E nunca. E nunca. Menos ainda. A quem diz amar-se.
Se eu a soubesse.
Saberia talvez a matéria de que sou feita.
Saberia que há um universo indefensável.
Se eu soubesse a razão.
Do meu súbito desejo de te fazer mal.
Não o teria tido.
Tudo estaria como agora.
As avenidas abertas.
E ao fundo... uma razão para viver sem culpas.
Haveria a razão que outrora havia.
Se eu soubesse mexer nas coisas.
Saberia.
Que nada muda o amor que tive. E me tiveste.
Que nada transforma um ataque suícida.
Que nada muda que o amor que tive e me tiveste seja exactamente isso.
O amor. Que eu te tive. E me tiveste.

Thursday, May 04, 2006

Dia -192

Arder...
... na fogueira destas palavras.
Quem escreve como tu não deveria. Nunca. Fazer intervalos.
Sabes bem o que tens a fazer, quando tudo arde, não sabes?

Wednesday, May 03, 2006

Dia -191

A Perplexidade
Não. Não é. Ou será. Alguma vez. A paixão.
Que me deixa perplexa.
A paixão não.
É fácil pensar que estamos apaixonados.
As pessoas são tão interessantes.
O que me deixa perplexa é o Amor.
Ou seja. As pessoas conhecerem-se por dentro.
E por fora.
E ainda assim. Apesar disso.
Até mesmo por isso.
Serem capazes de se amar.

Tuesday, May 02, 2006

Dia -190

A Amiga Apaixonada
A minha amiga escreveu-me isto:
«Não fazes ideia. Ou até farás.
Se alguém pode fazer, será com certeza tu.
Tem sido fabuloso.
Algo que nunca julguei possível, ou pelo menos algo que já não julgava possível.
Um amor avassalador, enfim não nos precipitemos -
uma paixão avassaladora.
Um turbilhão, um ciclone que tudo arrasta
Mais uma vez fiquei contente.

Monday, May 01, 2006

Dia -189

Maio
O verão aproxima-se em grandes e quentes passos.
Toda a gente sabe que eu odeio o verão.

Sunday, April 30, 2006

Dia -188

Os Dedos
Deslizam. E fazem-me chorar.
Porque.
Produzem.
Tanta.
Beleza.

Saturday, April 29, 2006

Dia -187

Desaparecer
Há dias. Em que gostaria muito.
De desaparecer.
Completamente.

Friday, April 28, 2006

Dia -186

As Gargalhadas
Eu gosto. De me rir às gargalhadas.

Thursday, April 27, 2006

Dia -185

A Assinatura
Não. Não precisas de assinar.
Reconheço as tuas palavras.
Como se fossem minhas.
Na verdade.
São minhas.

Wednesday, April 26, 2006

Dia -184

O (Bom) Vernáculo
Foda-se, eu amo-te, caraças!

Tuesday, April 25, 2006

Dia -183

25 de Abril
'Esta é a madrugada que eu esperava,
o dia inicial,
inteiro e limpo,
onde emergimos
da noite e do silêncio
e, livres, habitamos
a substancia do tempo'
Sophia de Mello Breyner

Monday, April 24, 2006

Dia -182

O Perigo
Há olhares que nos atravessam.
Que entram cá dentro.
Não sei como.
Ou por onde.
Há olhares que, sabemos, não podem ser retribuídos.
Podia ser perigoso.

Sunday, April 23, 2006

Dia -181

O Comboio
Gosto do que o comboio traz.
Detesto quando o comboio leva...

Saturday, April 22, 2006

Dia -180

A Peripécia
'cancro, cólera e pedra nos rins,
são o melhor meio de locomoção para as estrelas'
frase da peça Vincent, Van e Gogh

Friday, April 21, 2006

Dia -179

Agora
Ela deixou que o mar entrasse, inteiro, na sua casa.
Ela coseu as velas. Do frágil pano.
Ela deixou-se navegar. Como um bote.
Ou.
Outras vezes.
Como uma caravela.
Ela resolveu plantar girassois.
E castanheiros.
Ela resolveu esquecer-se que detesta as manhãs.
Ela resolveu entregar as mãos.
Ou.
O que das mãos lhe resta.
Ela entregou-se, inteira, a frases como.
Por exemplo.
Esta.
Nem mais um passo longínquo, nunca mais estar apartado de ti...
Agora.
Ela ama.
Ela sente o tempo. Passar inteiro.
Devagar.
Ela domina a urgência que punha.
Antes.
Em todas as coisas.
Ela espera.
Agora.
Ela não sabia.
Antes.
Que sabia.
Esperar.

Thursday, April 20, 2006

Dia -178

As Evidências
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que ao ter-te, amo-te mais
e mais ainda
Depois de ter-te, meu amor
não finda com o próprio amor,
o amor do teu encanto
Que encanto é o teu?
Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos,
prendem
por uma paz da guerra a que se vendem
a pouca liberdade do meu canto.
Um cântico da terra e do seu povo
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu?
Deitado à tua beira
sei que se rasga
eterno
o véu da graça.
Jorge de Sena

Wednesday, April 19, 2006

Dia -177

O Amigo Apaixonado
Tenho um amigo que se apaixonou.
Disse-me assim: estou apaixonado. Por uma flor. Chamada Margarida.
Eu fiquei contente.

Tuesday, April 18, 2006

Dia -176

O Ciclo
São 28 dias, mais ou menos. Os ciclos da lua.
Os ciclos menstruais.
Os ciclos das coisas que fazem a vida ser qualquer coisa mais.
Que dias a menos. Para a morte.
Foram 28 dias mais ou menos. Não sei. Não decido facilmente.
Se a mais na vida. Se a menos para a morte.
Fumo o enésimo cigarro após as quatro e meia da tarde.
Há demasiada solidão nos cigarros que fumo.
O ciclo que se acaba. Eu que volto à minha vida.
Não me queixo. A vida é-me suave.
Os dias que me restam serão suaves.
O sofrimento não tem lugar. Não pode. Quando se espera.
Suavemente.
Fumando cigarros cheios de solidão.
A morte.

Monday, April 17, 2006

Dia -175

Os Minutos
Nos teus olhos não há minutos.
Mas abismos de eternidade.
Nos teus olhos os minutos são a eternidade.

Sunday, April 16, 2006

Dia -174

O Jardim
Esqueço-me de mim.
Como se eu nunca houvesse sido. Antes. De ti.
Posso não ser mais nada. Nunca.
Outra vez.
Mas sou. Agora. Esquecida de mim.
Como se nunca houvesse sido.
Antes.
De ti.

Saturday, April 15, 2006

Dia -173

A Busca
Conheces a sensação de parares?
De parar de repente e ter uma revelação.
Muito importante.
Como.
Tu és.
E isso basta.

Friday, April 14, 2006

Dia -172

Querer(Te)
Seria capaz de atravessar o mundo. Provocar terramotos.
Sobre asas de borboletas. Ou sobre pétalas.
De um girassol.
Hoje.
Contigo. Ou. Por ti. Ou. Para ti.

Thursday, April 13, 2006

Dia -171

O Percurso Diário
'Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim'.
Ruy Belo

Wednesday, April 12, 2006

Dia -170

A Cautela
As pessoas, em certas posições, deviam ter cuidado com o que dizem
Sobretudo se o que dizem compromete o futuro de outros. Noutras posições.

Tuesday, April 11, 2006

Dia -169

O Amigo
Tenho pena que mores tão longe de mim.
Que seja preciso subir serras e descer a vales.
Voltar a descer. Voltar a subir. Para que nos encontremos.
Falar contigo, falo sempre.
Mas o que eu gostava era de estar mais próxima de ti.

Monday, April 10, 2006

Dia -168

Conhecidos
Há demasiadas pessoas muito conhecidas.
Que não conhecem ninguém.

Sunday, April 09, 2006

Dia -167

O Marão
Subo a serra. É quase quase noite.
E deixo-me invadir pela quietude destes montes.
Recortados.
A vida é feita de nadas, como dizia Torga*.
De grandes serras paradas. À espera de movimento.
Pois.
* no poema Bucólica

Saturday, April 08, 2006

Dia -166

O Olhar
Não é fácil pensar, quando me olhas.
Apetece-me ficar apenas dentro dos teus olhos.
Ter uma melhor imagem de mim.
Só porque me olhas.

Friday, April 07, 2006

Dia -165

Quem é a Imperatriz, afinal?
(ou de como, se eu acreditasse nesta treta, tudo seria mais fácil, ou pelo menos parecer-me-ia melhor)
Carta dominante: III A IMPERATRIZ
A IMPERATRIZ define um mês excelente para os nativos de Capricórnio.
A IMPERATRIZ permite desenvolver aspectos de personalidade, ultrapassar barreiras, estabelecer novas pontes de comunicação e alargar horizontes.
Capricórnio deve confiar mais em si próprio e em circunstância alguma colocar limites aos seus sonhos; este mês pode dar passos muito importantes fruto de iniciativa própria. Sentimentalmente este é sem dúvida um mês de evoluções muito agradáveis; em Abril a vida de Capricórnio pode dar uma volta significativa no sentido ascendente.
A renovação da vida sentimental está bem patente na conjuntura perspectivando-se momentos de grande intensidade e romance. Não volte as costas ao amor porque, de acordo com as cartas, ele virá este mês ao seu encontro.
No campo profissional o mês é muito positivo no campo profissional. Pode fazer alterações porque a conjuntura ajuda-o e “empurra-o “ para situações mais favoráveis. Este mês não esteja com meias medidas e enfrente decididamente o seu futuro; está no momento certo para iniciar uma nova fase profissional. Não dê ouvidos a quem pretende tolher-lhe o passo; dos fracos não reza a história. Na saúde está muito sensível e por isso sujeito a momentos de quebra energética ou cansaço excessivo.
LIGAÇÕES MAIS PROTEGIDAS COM – Carneiro, Leão e Sagitário

Thursday, April 06, 2006

Dia -164

O Decote
Por vezes compramos coisas que depois...
não nos fazem sentir muito bem, ainda que nem nos fiquem nada mal.
Passei o dia preocupada com a extensão do meu decote.

Wednesday, April 05, 2006

Dia -163

A Realidade
Custa-me muito. Estar aqui. E tu. Aí.
A realidade é uma coisa que estraga muito os sonhos.
A realidade é uma coisa que arruína a imaginação.
Não quero pensar na realidade. Só pensar. Imaginando-te aqui.

Tuesday, April 04, 2006

Dia -162

Não Existes
Não. Tu não existes.
Quer dizer. Não é possível que sejas de verdade.
Não. Não existes. Tu.
Fui eu que te inventei.
Não fui?
Inventei-te assim, exactamente.
Tal como esperei que fosses.
Não. Tu não existes.
Fui eu que te inventei.
Numa destas noites em que não durmo.
E, afinal (parece que sempre) sonho.

Monday, April 03, 2006

Dia -161

A Declaração
«(...)Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo. (...)»
Joaquim Pessoa, extracto do poema Eu sei, não te conheço mas existes

Sunday, April 02, 2006

Dia -160

Coisas Importantes (II)
Encontrar um Sputnik*.
E poder chamar-lhe, de facto, meu amor.
* Sputnik significa 'companheiro de viagem'.
Só soube isto quando li o livro de Haruki Murakami, justamente intitulado
Sputnik, meu amor

Saturday, April 01, 2006

Dia -159

Coisas Importantes (I)
Os teus olhos quando entram nos meus.

Friday, March 31, 2006

Dia -158

A Diferença
Dizemos que o que nos une é maior do que o que nos separa.
Gostamos de usar estas frases. A que a junção de água confere evidência.
Na prática. No amor. Na amizade. No trabalho. No tempo.
Na vida.
Aquilo que nos separa.
A todos.
Será sempre.
Maior. Mais forte. Mais impeditivo.
Que aquilo que nos une.
E assim sendo.
O que nos une é o quê?

Thursday, March 30, 2006

Dia -157

A Terra de Ninguém
No meio caminho entre a mentira e a verdade.
Entre o possível e o impossível.
Onde repousa o que não pode ser dito.
É onde eu te digo.
Amo-te.

Wednesday, March 29, 2006

Dia -156

O Folêgo
Aquilo que nos corta o folêgo
é
a única
razão
por que respiramos.
A grande
razão.

Tuesday, March 28, 2006

Momento de Intervalo...

... Ou Outra Coisa Qualquer

«And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her skies
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you...
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind...
My mind...
my mind...
'Til I find somebody new»

Damien Rice The blower's daughter
da banda sonora do filme Closer, de Mike Nichols

Dia -155

O (teu) Vazio
Nada a fazer quando o silêncio toma o lugar outrora ocupado. Pela música.
Nada a fazer quando a única coisa possível é fechar os olhos.
E voltar a abri-los para reconhecer que falhaste.
Outra vez.
Que ainda não. Que ainda não.
Que agora. Já. Não.
Já não sentes a música. Que foste assaltado pelo silêncio.
Quando antes todas as coisas se dissolviam na música.
Não quero que deixes de ouvir a música. Mas sei.
Que há silêncios que nos tomam.
Nada a fazer. Quando. A única coisa possível é reconhecer que ainda não.
Que. Agora. Já não.
Nada a fazer?

Monday, March 27, 2006

Dia -154

A Saída
Hesito. Entre a esquerda alta e a direita baixa.
O pano de cena enreda-se em mim.
Caí numa armadilha.
Não sou capaz de encontrar uma saída.
Posso deixar-me cair no meio do palco.
Como quem morre.
Talvez a equipa de limpeza repare no que de mim resta.
E amavelmente me transporte para fora.
De mim.

Sunday, March 26, 2006

Dia -153

Lugares
O meu lugar é onde a tua voz começa.

Saturday, March 25, 2006

Dia -152

«Mas Dancemos
já que temos
a valsa começada»
Reinaldo Ferreira - Extracto de Rosie

Friday, March 24, 2006

Dia -151

Tu
«(...) Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
(...) E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.»
Heberto Helder - Extracto de O Amor em Visita

Thursday, March 23, 2006

Dia -150

O Precipício
«Afinal o que importa é não ter medo: fechar os
olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício»*
Acontece-me passar a vida que me resta até à morte a saltar. De precipício em precipício.
A merda toda é que não há um farol que indique o caminho do abismo.
* Mário Cesariny - extracto do poema Pastelaria

Dia -149

A Impotência
A minha maior morte é a morte de mim em ti. É uma morte dificil. Deve ser.
Porque é a morte completa. Aquela de que nunca se regressará.
Aquela que põe uma pedra definitiva e sólida entre o que foi e o que há-de ser.
Eu sei que te traí de multiplas maneiras.
Não há caminho para voltar de uma morte assim.
Eu sei.
E não é triste que me sinto. É desarmada.
Para abrir uma janela qualquer nessa pedra.
Ou uma pequena fresta por onde passe um dos teus dedos em direcção ao meu cabelo.

Tuesday, March 21, 2006

Dia -148

O Dia da Poesia

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo -nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade
Ruy Belo - Espaço Preenchido

Monday, March 20, 2006

Dia -147

A Pergunta sem Resposta
Como se pode viver depois da morte do teu riso?
Como esperas que eu viva depois de ti?

Dia -146

Dia do Pai
Todos os dias, contigo, Pai, nunca são dias a menos.
Sempre dias a mais. Que me acrescentam.

Sunday, March 19, 2006

Dia -145

A Idade
Fazes oito anos hoje. Mas não é a tua idade que me preocupa. És pequenino.
Tão pequenino, para mim, como no dia em que nasceste.
Aquilo que me preocupa nos teus oito anos... não é tu estares a ficar crescido.
É o tempo que também não pára. Para mim.

Friday, March 17, 2006

Dia -144

O Regresso
Alguém me disse. Num dia a menos. Que não podemos regressar.
Aos lugares. Onde. Já fomos. Felizes.
Desde esse dia. Menor. E a menos.
Nunca deixei de regressar. Àquele lugar. Àquela pessoa.
Onde. Com quem.
Nunca fui outra coisa. Senão. Feliz.

Dia -143

Por Vezes...
...um blog é feito do que não se escreve...
Frase deste senhor aqui, que tem por mania imaginar(se)(nos) mundos, na caixa de comentários do seu blog.

Wednesday, March 15, 2006

Dia -142

«Eu Sou O Quê?
E a resposta é uma solidão assustada»
António Lobo Antunes

Tuesday, March 14, 2006

Dia -141

Quem Sou Eu?
«Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra»
António Ramos Rosa, frase do poema Uma Voz na Pedra

Monday, March 13, 2006

Dia -140

A Primavera
Hoje entrei na sala de aula e anunciei: chegou a Primavera!
Olharam para mim estupefactos e um mais afoito corrigiu-me:
«a Primavera só começa dia 21 de Março, professora».
Que culpa tenho eu, sim, que culpa tenho eu de lá fora estar um sol abrasador,
cheirar a polén e a erva e de ter alunos tão arreigadamente defensores de calendários?

Sunday, March 12, 2006

Dia -139

A Rua
A rua. A minha. É grande e larga. Tem água. Muita. Ao fundo. Advinham-se os montes de sal.
De antes. Advinha-se mais água que não vejo da janela. A minha rua é grande. E larga.
Não sei quantos passos de comprimento. Não sei quantos passos de largura.
Nunca caminhei a pé por toda a extensão da minha rua.
Sou uma habitante inútil. Que se debruça em direcção à água. Ao fundo. Da janela.
Que nunca se aproximou demasiado dos passeios. Das passadeiras. Dos prédios.
E dos vizinhos.
Sou uma pessoa inútil. Que não conhece, com os seus passos. A sua própria rua.
Inutilmente habito uma cidade onde não conheço ninguém.
Inutilmente habito uma rua que só conheço à distância.
Inutilmente entro e saio do meu prédio sem um eco de bons dias.
Inutilmente vagueio pelas divisões da minha casa.
A rua lá fora. A cidade lá fora. Os vizinhos lá fora.
E eu cá dentro. Inutilmente habitando. Um corpo de que não conheço o habitante.

Saturday, March 11, 2006

Dia -138

O Deserto
Há três anos. Desapareceste. Deixaste. Um deserto.
Cá dentro.
Há três anos morreste.
E neste deserto em que estou.
Todos os dias são dias a mais.
Ou a menos.
Para a minha. Solidão.
Ou. Morte.

Friday, March 10, 2006

Dia -137

A Carta da Paixão
Que alguém me escreva
algum dia (por exemplo hoje) alguma coisa semelhante a isto.
Enquanto eu sangro.
Lentamente.
«Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minhavida secreta.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.»
Herberto Helder

Thursday, March 09, 2006

Dia -136

O Feminismo (ainda)
O que é ser feminista? Faz ainda sentido ser feminista?
Ainda que a palavra feminismo tenha uma carga negativa, associada às maniffestações mais radicais dos anos 60... faz sentido.
Aliás, não concebo ser mulher sem ser feminista.
Acho abomináveis e indignas da sua condição (feminina) as mulheres que dizem:
'eu não sou feminista... sou feminina'.
Bom, é uma evidência. Se se é mulher... necessáriamente é-se feminina.
E eu acrescento:
Se se é mulher deve ser-se feminista.
Tive a fortuna de nascer do lado certo do mundo, do lado certo da rua. Na casa certa.
Um lado onde os direitos humanos são relativamente bem assegurados.
Uma rua e uma casa onde nunca houve violência doméstica.
Onde nunca fui utilizada como mais um instrumento de guerra.
Onde nunca me excizaram o clitóris.
Onde nunca me violaram.
Onde nunca me bateram.
Onde nunca me impediram de votar.
De ir à escola. Ao médico. Ao cinema. Ao teatro. Aonde me apetecer.
Tive a fortuna de a minha condição de mulher nunca ter condicionado a minha vida.
Faço o que quero. Sou o que quero. Tive oportunidades.
E depois? Deveria sorrir docemente, ajeitar o cabelo, verificar se o verniz das unhas não estalou
e dizer:
'não sou feminista, sou feminina'?
Se o fizesse, negaria muitas outras mulheres do mundo.
As que não tiveram a mesma sorte que eu.
As que nasceram do lado errado. Na rua errada. Na casa errada.
No lado, na rua, na casa, onde são agredidas, violadas, impedidas de ser seres humanos.
Se o fizesse ignoraria
E isso, desculpem... isso... enquanto pessoa do sexo feminino... isso... não sou capaz.

Wednesday, March 08, 2006

Dia -135

Ser Mulher
Eu, que sou apenas uma mulher entre todas as mulheres do mundo,
encontro nos dados que dão conta da persistência das desigualdades de género, em todo o mundo, matéria suficiente para me envergonhar de ser pessoa.
É por isso que dispenso as flores no Dia Internacional da Mulher.
É por isso que acredito que não posso ser feminina se não for também feminista.
É por isso que sei que onde houver uma Mulher com dignidade.
Haverá também uma Feminista.

Tuesday, March 07, 2006

Dia -134

A Massagem
Fazem-me regularmente desde há 4 anos, massagens de relaxamento.
Quando saio das mãos da massagista, sinto-me a caminhar sobre nuvens.
É bom. Muito bom. Demasiado bom.
E eu mereço.

Monday, March 06, 2006

Dia -133

Os Óscares
Desde há muitos anos que assisto em directo, noite fora, à cerimónia de entrega dos óscares.
Um ano zanguei-me por não terem dado o óscar à Emily Watson pelo seu desempenho em Breaking the Waves, de Lars Von Trier.
Este ano zanguei-me por não terem eleito, entre os cinco nomeados, Brokeback Mountain como melhor filme.
Salvou-se terem dado a Ang Lee o óscar de melhor realizador.
De qualquer maneira, o facto do fabuloso (em todos os filmes que com ele vi e em Capote particularmente) Philip Seymour Hoffman ter ganho o óscar de melhor actor, desculpou tudo.
Por preconceito, admito, fiquei um bocado assarapantada com o óscar de melhor actriz a Reese Whiterspoon.
Como ainda não vi Walk the Line, não faço comentários.

Sunday, March 05, 2006

Dia -132

A Pashmina
Tenho uma pashmina linda. Trouxeram-ma da Argentina.
É de uma lã macia e muito quente. Castanha, com fios em creme e em cinzento.
Podia andar vestida só com a minha pashmina nova.
Se me fosse permitido.
Ou se não me prendessem por isso.
Ou ainda se eu ficasse bem só com ela vestida.
O que, lamentavelmente, não é o caso.

Saturday, March 04, 2006

Dia -131

A Inveja
Pronto. Reconheço. Tenho pequenas invejas. Se quiserem.
Invejas pequeninas.
Das também pequeninas felicidades alheias.

Friday, March 03, 2006

Dia -130

A Espera
Às vezes fica tudo suspenso. Parece que nada se move.
Que nada acontece. Nessas vezes. Eu. Fico expectante.
Como os terrenos. À espera de movimento.
À espera de construções.

Thursday, March 02, 2006

Dia -129

O Processo
Ando há mais de cinco meses às voltas com um processo.
De Bolonha.
Não sei bem para onde vamos. Nem exactamente como vamos.
Só sei que nunca fui a Bolonha.
Parece-me mal.

Dia -128

A Vesícula
Nunca tinha reparado que tinha uma. Sabia que tinha. Mas nunca havia dado por ela.
Até agora. Resolveu inflamar. Chatear-me. Impedir-me de comer as coisas que gosto.
Provoca-me tonturas. Vertigens.
Porque é que a minha vesícula decidiu salientar-se agora? E desta maneira tão proeminente?

Wednesday, March 01, 2006

Dia -127

Os Filmes
Vi cinco filmes entre sábado e segunda feira. Dois por dia, portanto.
Deve chegar para uma semana.
Capote
Mrs. Henderson
O Céu Gira
Transamérica
Nada a Esconder.
Bom, também vi o Bambi 2, com a minha afilhada pequena. Gosto tanto do Tambor.

Tuesday, February 28, 2006

Dia -126

O Carnaval
Que graça tem o carnaval? Maminhas a abanar. Rabos a abanar. Braços a abanar.
Pernas a abanar.
Malta em cima de carros. A abanar.
Nunca gostei nada do carnaval. É que tenho pouco jeito.
Para me abanar.

Monday, February 27, 2006

Dia -125

O Síndrome
Parece que sofro de síndrome vertiginoso. Bom... sempre se poupa no alcool. Quer dizer. Vejo tudo a andar à roda, a espaços, e nem uma cerveja preciso de beber. Hum...

Sunday, February 26, 2006

Dia -124

As Concessões de uma Tia
'Vá. Combinámos que ias para a cama às dez e meia'.
'Está bem. Mas ainda tens de me ler uma história'.
'Sim, eu leio. Que andas a ler?'
'Este' - mostrou-me o Harry Potter e a Pedra Filosofal.
'Ó pá, mas esse é enorme'.
'Lês-me só oito páginas'.
'Oito??? Quantas te lê o teu pai ou a tua mãe por dia?'
'Ahh... aí umas quatro'.
'Ora, então leio-te quatro... se eles te lêem quatro, porque é que hoje te vou ler oito?'
'Porque tu és minha tia'.
Arrematado. Li-lhe dez. E nem se falou mais nisso.

Saturday, February 25, 2006

Dia -123

O Peso
«Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito»
António Lobo Antunes, título de uma crónica do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Friday, February 24, 2006

Dia -122

A Terra Natal
«Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal»
António Lobo Antunes, título de uma das crónicas do Terceiro Livro de Crónicas, D. Quixote

Thursday, February 23, 2006

Dia -121

O Meu Pai
Tenho, confesso, um complexo de electra, bastante acentuado, desde que me conheço.
Tenho esta paixão avassaladora pelo meu pai.
Não há homem mais bonito. Nem mais inteligente. Nem mais habilidoso.
Não há no mundo, outro homem que goste tanto de mim.
Não há no mundo outro homem de quem eu goste tanto como dele.
O meu pai hoje faz 68 anos.
Parabéns Pai!

Wednesday, February 22, 2006

Dia -120

O Fantasma
De repente reapareceu-me. Como um fantasma. Ou como sei lá o quê.
Disse-me, como se me tivesse visto há pouco tempo:
'sonhei contigo ontem. Quis ver o que faria o destino.'
Fiquei meia azamboada, confesso, com este fantasma sonhador e crente no destino.
Perguntou-me ainda: 'posso convidar-te para jantar amanhã?'.
No meio de alguma confusão. Que o fantasma não deixou de se caótico só por ter começado a sonhar comigo e a acreditar no destino, lembro-me de lhe dizer:'ora, bardamerda'.
E pronto. Esfumou-se.

Tuesday, February 21, 2006

Dia -119

O Sentimento de Culpa
Não sei bem o que fiz. Mas alguma coisa foi. Se mereço isto.
A culpa. Sentir culpa. Mesmo que a culpa. Não seja minha.
Mesmo que não saiba de quem é a culpa.
'Je me sens coupable, parce que j'ai l'habitude.
C'est la seule chose que je peut faire, avec une certaine
certitude'.
Lhasa The Living Road

Monday, February 20, 2006

Dia -118

A Trasladação
Honestamente. Que merda é esta? Num estado laico! Que merda vem a ser esta?
Honras de transmissão interminável pelas várias televisões? Cortejos de milhares de pessoas?
Que merda é esta?
Quem é esta mulher, ou este monte de ossos que agora mudam de lugar?
Que fez ela pelo país? A não ser contribuir para a tacanhez?
Para a perpetuação de uma crença numa história de uma senhora cheia de luz.
Escarrapachada numa azinheira, ou oliveira... ou lá no que foi.
Só estou certa que não foi um castanheiro.
Os castanheiros são árvores com dignidade. Não se prestam a merdas destas.
Que merda é esta? Honestamente, continuamos na mesma.
Família, Futebol e Fátima.
Falta um F. Falta um F.
Foda-se!

Sunday, February 19, 2006

Dia -117

A Chuva
É torrencial esta chuva. Sinto-me minúscula. Sou minúscula.
Enquanto alguém, algures, acima. Atira violentos baldes de água.
É torrencial. A chuva. E eu tão pequena, tão pequena.
Que não tenho medo.
Deixo que a chuva torrencial me lave o corpo.
Os olhos.
E os sentidos.

Friday, February 17, 2006

Dia -116

Munique
Porque é que acho que Munique é um filme extraordinário?
Porque, ainda que no início, estivesse preocupada com a tendência pró-israelita que o filme destilava... depressa foi evidente a ambivalência.
Volto, pois, a dizer. Todos. Podemos ser Terroristas. Pelo menos. Uma vez.

Thursday, February 16, 2006

Dia -115

A Ambivalência
Porque todos acreditamos profundamente em alguma coisa.
Porque temos todos pelo menos uma convicção inabalável.
Uma ideia. Uma ideologia. Uma religião. Um laço. Um lugar.
Uma pátria.
Todos podemos ser terroristas. Ao menos uma vez.

Wednesday, February 15, 2006

Dia -114

Detesto o Amor*
A verdade é que não detesto o amor.
Apenas as celebrações a dias certos. Aparatosas.
Cheias de coisas vermelhas. Parafernália inútil. Ao próprio amor.
Na verdade, tenho saudades dos homens que amei profundamente.
Na verdade, detesto a ideia de já não os amar.
Ou de eles já não me amarem a mim.
*J'Ai Horreur de L'Amour, apresentado em Portugal com o título 'Detesto o Amor' é um belíssimo filme de Laurence Ferreira-Barbosa.

Dia -113

As Manias
Tenho muitas. Manias. Muito mais que cinco. (In)Felizmente.
Assim, Vanessa:
1. A mania de acordar tarde. Pontualmente tarde.
2. A mania de me deitar de madrugada.
3. A mania de cheirar qualquer livro em que pegue. Velho ou novo.
4. A mania de acreditar. Nas pessoas. Nas situações. Mesmo que tudo se repita. Indefinidamente. Acredito sempre que não será igual. E, de facto, igual não é. Apenas muito parecido.
5. A mania das limpezas e da organização. Só funciono se tudo estiver muito limpo e muito organizado. Quer seja a minha casa, quer seja o local de trabalho. Acho que o caos 'cá dentro' é tão grande que é o único modo que encontrei para viver.
Passo esta corrente ao JOS do Turno da Noite. Ao JPN do Respirar o Mesmo Ar.
Ao Carlos Azevedo do The Cat Scats. À Sandra Costa do Tubo de Ensaio. Ao Henrique do Insónia.
Não sei é se eles vão responder.
Regulamento: Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.

Monday, February 13, 2006

Dia -112

O Filósofo
100 anos sobre o nascimento de alguém, são muitos dias.
Aproximadamente 36500. A menos. Para a morte.
Mas há quem ainda que morrendo, não morra.
Talvez nunca ninguém morra, enquanto houver razões para recordarmos.
E aprendermos ainda. A pensar. E a não nos conformarmos.

Friday, February 10, 2006

Dia -109

A Fórmula
João* se a fórmula para se ter alguma felicidade é sermos bons na cama e bons cozinheiros, não percebo por que raio não serei eu feliz. É que eles não costumam queixar-se. Da comida.
Ou do modo como como. Ou do modo como me deixo comer.
Por que raio, então?
Porque aquilo de que preciso (ou precisamos) não se esgota nessas elementares necessidades?
Porque tenho mais necessidades do que as elementares?
Porque até tenho mais elementares necessidades?
Ou porque tenho necessidades a mais para o bem que como e cozinho?
* a propósito do comentário deixado no post do dia -104 - O Troglodita)

Thursday, February 09, 2006

Dia -108

Estado em que se encontra este blog. E eu. Consequentemente.
*Título de uma canção de Paolo Conte (in 'Una Faccia in Prestito'). Não faço ideia do que significa, mas sempre me soou a 'falem para aí que eu não me ralo nada', que é como quem diz: 'vão dar banho ao cão que eu entretanto darei palha às minhas renas'. Cliquem no título e vejam se não vos soa ao mesmo.

Wednesday, February 08, 2006

Dia -107

O Paradoxo
É possível estar-se numa sobreposição de dois estados e ter disso consciência?
Por exemplo eu, qual gato na experiência teórica de Erwin Schrödinger...
eu estou simultaneamente morta e viva.
Que sentido fará uma pessoa morta-viva?

Tuesday, February 07, 2006

Dia -106

Golpes de Beleza, por Correio Normal
«Esta noite, não sei se viram, o céu esteve claro
como se fosse uma hora impossível do dia»
in Lúcia
(posts editados em A Natureza do Mal, blog de André Bonirre e Luís Januário, em 2005)

Monday, February 06, 2006

Dia -105

A Resistência
Na minha idade é mais fácil resistir. Que ceder.
Se quiser, encontro sempre excelentes razões.
Para resistir. A praticamente tudo.