Thursday, June 15, 2006

Dia -234

Destroço Recuperado...
...de Uma Carta Muito Antiga
Não que ele fosse um homem maravilhoso,
era apenas um homem,
mas deu-me
uma dimensão
de mim, de tudo,
que eu não tinha.

Dia -233

Escapismo
Disse Pacheco Pereira que a febre que nos acomete
(nos, aos portugueses)
(quer dizer, a vocês, a eles, a mim não)
nas alturas de grandes eventos desportivos
(quer dizer, de futebol)
(haverá outro desporto? A acreditar nos 'media' não há)
chama-se escapismo.
Em vez de sentirmos
(sempre)
que pertencemos a um país
(portugal)
sentimos que fazemos parte de uma equipa
(a selecção portuguesa).
E o nosso orgulho nacionalista
(nosso não, vosso ou deles... tudo menos meu)
esgota-se nisso.
Se a nossa
(quer dizer, a vossa, ou a deles, tudo menos minha)
selecção perder o campeonato
não seremos portugueses.
Apenas derrotados.
E é isto que nos define
(antes de tudo o resto)
como povo.
Não somos portugueses sempre.
Somos escapistas.
Entusiastas momentâneos.
(enquanto estamos a ganhar).
Quando perdermos.
Diremos mal de tudo e de todos.
Principalmente do treinador.
E do governo.
(não é o mesmo, embora às vezes pareça).
Tiraremos o orgulho
que pendurámos à janela
(quer dizer, vocês, eles, eu não pendurei nada e nada tenho para tirar)
e cabisbaixos voltaremos
a ser tristes.

É o que se pode chamar
patriotismo de merda.

Tuesday, June 13, 2006

Dia -232

Repetição
Vejo o que escreves.
E o que escreves.
Mesmo com outra destinatária
(ou talvez sem nenhuma).
É igual.
Estranhamente igual.
Ao que escrevias antes.
Para mim.

Dia -231

Entender
As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.
(Herberto Helder)

Sunday, June 11, 2006

Dia -230

Prazer
«Ai que prazer
ter um livro para ler
e não o fazer...»

Saturday, June 10, 2006

Friday, June 09, 2006

Dia -228

A Verdade...
... é que até para respirar,
me fazes falta.

Thursday, June 08, 2006

Dia -227

Destinatários
Por vezes. Eu escrevo a pensar em alguém.
E vem outra pessoa e pergunta:
escreveste aquilo para mim?
A comunicação é uma coisa tramada.

Wednesday, June 07, 2006

Dia -226

O Ponto
Vens aqui picar o ponto.
Não pontualmente
como se deve.
Picar.
O ponto.
Mas vens.
Ponto.

Tuesday, June 06, 2006

Dia -225

O Namoro
Alguém me disse
namorar é desnecessário.
Bom, com a minha idade.
E o resto.
(Mais o resto que a idade).
Depois de pensar por um bocado.
E dormir sobre o assunto.
Até sou capaz de concordar.

Monday, June 05, 2006

Dia -224

Domingo
Pois. Acabou o Domingo. São 1:01.
Leio o que escreves.
Há uma coisa repetida, pelo menos dessa recordo-me.
Que já estava antes. No princípio.
Mas ocorre-me que estejas apaixonado.
Não sei bem se gosto disso
(não tenho que gostar ou não gostar).
Sentei-me na varanda hoje.
À hora que o sol começa a descer.
Para as bandas do mar.
Que se vê (um bocadinho) daqui.
Lembrei-me da expressão que fazias.
Quando a uma hora parecida o sol te batia em cheio na cara.
Na minha varanda.
Lembrei-me disso.
E fiz a mesma expressão que fazias.
Mas não aconteceu nada.
Era Domingo.
Continuou a ser.

Sunday, June 04, 2006

Dia -223

Balanço
Cento e vinte sete testes para corrigir.
Aliás, duas perguntas
em
c e n t o
e
v i n t e
s e t e
testes
para corrigir.
Não posso fazer mais nada até ter visto todos os testes.
Bah.
Sometimes I Hate My Life.
(A boa notícia é que já dei um 19. A má notícia é que já dei um 0)

Saturday, June 03, 2006

Dia -222

Today, I feel this way
(a alegria é o que nos torna os dias úteis...
... o prazer é o que nos torna os dias raros...)
Dias úteis
às vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidade
no percurso de um só dia
Dias úteis
são tão frágeis as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?
Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente transparente
quem a não receberia?
Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna os dias úteis
Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudência
fazem os prazeres do dia
Dias raros
como os ares, rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?
Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas cristalinas
quem as não perseguiria?
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
a alegria é que nos torna os dias úteis
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros
Sérgio Godinho - Dias Úteis in 'Domingo no Mundo'
Se quiserem ouvir a belíssima música sigam o único link que encontrei
e que a contém toda:

Friday, June 02, 2006

Dia -221

Esquece Tudo O Que Te Disse
Esquece tudo o que te disse
leva as promessas que fiz.
Manter este amor, é pura tolice
se teu coração nunca o quis.
O nosso lar não tem futuro
já não me queres na velhice.
Quebraste a jura, ergueste um muro
esquece tudo o que te disse
Estas lágrimas que choro,
são o princípio do fim.
Rogo aos céus
meu Deus imploro:
leva o homem que adoro
para bem longe de mim.
Esquece o que te disse
leva as promessas que fiz.
Quebraste a jura, ergueste um muro.
Esquece tudo o que te disse.
(Azembla's Quartet - Esquece tudo o que te disse, banda sonora original do filme com o mesmo título de António Ferreira)

Thursday, June 01, 2006

Dia -220

Late Night Show
Duzentos e setenta testes para corrigir.
D u z e n t o s
e
s e t e n t a.
Testes.
Para corrigir.

Wednesday, May 31, 2006

Dia -219

Dilatação
O calor dilata os corpos.
Vou explodir no ar.
Odeio o Verão!

Tuesday, May 30, 2006

Dia -218

(há um link aqui)
Há demasiadas coisas dentro de mim.
Demasiadas pessoas.
Demasiadas vidas.
Demasiadas mortes.
Tenho de escrever qualquer coisa.
Mesmo mal.
Mesmo demasiado.
Se não.
Rebento.
Ou vivo.
Ou morro.
Ou assim.

Monday, May 29, 2006

Dia -217

O Desamparado Desespero
Descubro isto, pronto a usar,no blog da CGR.
Conhecia este desespero. Mas nunca o tinha encontrado.
Assim.
Tão pronto a usar.
Este desespero é hoje. Também o meu.
E tão antigo.
Nada mais triste que alguém que ama.
Nada mais triste que alguém que amando.
Não tem já qualquer possibilidade de ser amado.
«Que será de mim?....e que queres tu que eu faça?...
Vejo-me bem longe de tudo o que tinha imaginado!
(...)
Não sei nem o que sou, nem o que faço, nem o que desejo...
Mil tormentos contrários me despedaçam!...
Quem poderá imaginar um estado mais deplorável?...
Amo-te como uma perdida, e modero-me ainda assim contigo, até não ousar talvez desejar-te as mesmas tribulações, os mesmos transportes que me agitam...
Matar-me-ia, ou a não fazê-lo, morreria de dor, se estivesse certa que nunca tinhas repouso, que a tua vida era uma contínua desordem e perturbação, que não cessavas de derramar lágrimas, e que tudo aborrecias...
Eu não me sinto com forças para os meus males, como poderia suportar a dor que me causariam os teus, mil vezes mais penetrantes?...
Contudo não posso do mesmo modo resolver-me a desejar que não me tragas no pensamento, e para falar-te sinceramente, sinto com furor ciúmes de tudo quanto possa causar-te alegria; comover ä teu coração, e dar-te gosto (...)
Ignoro por que motivo te escrevo...
Vejo que apenas terás dó de mim, e eu rejeito a tua compaixão, e nada quero dela;
Enfado-me contra mim mesma, quando faço reflexão sobre tudo o que te sacrifiquei...
(...)
Parece-me até não estar contente, nem das minhas mágoas, nem do excesso de meu Amor, ainda que, ai de mim! não possa, mal pecado, lisonjear-me de estar contente de ti...
(...)
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah ! por que não te queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te. E ainda respiro!...
É uma traição...
Peço-te dela perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de Amor por ti...
(...)
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara, e quiçá esta morte extraordinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me abaixaste?...
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço neste mesmo instante em que te escrevo, quanto prefiro e prezo mais ser infeliz amando-te, do que não te haver jamais visto.
Cedo sem murmurar à minha malfadada sorte, já que tu não quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me de conservar uma terna e maviosa saudade de mim, se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da minha paixão, inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
(...)
Dize, não seria nímia crueldade a tua, se te servisses da minha desesperação para, pareceres mais amável, mostrando que acendeste a maior paixão que houve no mundo?
Adeus outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, o que é uma falta de consideração para ti: peço-te mil perdões, e atrevo-me a esperar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata, que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do estado insuportável em que estou.
Contudo agradeço-te, do íntimo do meu coração, a desesperação que me causas, e aborreço o sossego em que vivi antes de conhecer-te...
Adeus.
A minha paixão cresce a cada momento.
Ah! quantas cousas tinha ainda para dizer-te!...»
(Soror Mariana Alcoforado - Terceira Carta in Lettres Portugaises)

Sunday, May 28, 2006

Dia -216

Uma Revelação
(porque estou a precisar de afagos no ego.
Ou simplesmente de festinhas na cabeça)
Caro e amável leitor:
Esta de que se fala no texto mais abaixo sou eu.
Eu sou a LiZZie
(por causa do Azul que acha que os Z's, como no JaZZ devem fazer parte do meu nome).
E eu sou a Elisa.
(porque é o diminutivo mais simpático do meu nome).
Sou ainda outras pessoas de quem nunca ouviram falar.
(Nem eu).
Obrigada Rosmaninho pelo afago aqui transcrito.
(Não foste tu que te ausentaste. Fui eu que deixei que te ausentasses):
«Shame on me
Conheci-a, há 4 ou 5 anos, já não interessa como. O que conta é que percebi, no meio do grupo em que a encontrei, que havia qualquer coisa de especial na Elisa. Na atitude, na inteligência, na presença... Depois de um único e breve encontro, circunstâncias inesperadas fizeram com que me afastasse daquele grupo, daquelas andanças e o contacto perdeu-se. Perdemo-nos uma da outra, por culpa minha, até há cerca de alguns meses atrás, quando a reencontrei por aqui.Novamente, o fascínio, a admiração, o orgulho de já ter conversado com alguém assim, bem como uma pontinha de inveja (da boa, claro) de tanta arte numa pessoa só. Esta tarde, ao passear pelos blogs vizinhos, dei com um
Cheers à Elisa e ao seu Bebedeiras de Jazz, e ao passar pelos comentários, critiquei-lhe a modéstia. Ela respondeu-me com um "menina simpática" e relembrou-me o café prometido há tanto tempo.E eu respondo-lhe agora, aqui, que terei, não todo o gosto, nem todo o prazer, mas o maior orgulho em reencontrá-la.
Desculpa-me a ausência, Elisa, e até já.»
E obrigada à Blahblah pelo 'cheers' imerecido.
(E não me venham dizer, que depois disto sou modesta.
Estendi aqui o meu ego agradecido.
E fizeram-me bem, caraças, estes afagos!)

Saturday, May 27, 2006

Dia -215

Um vai nu. Outro também
Gosto de ti. Pronto.
Ponto.

Friday, May 26, 2006

Dia -214

A Depressão Suspensa*
Também eu me encontro em estado pré-depressionário.
Se isso existe. É tal e qual assim que me encontro.
Basta qualquer coisa. Neste momento.
Para desencadear uma entrada triunfal no profundo reino.
Dos que não se interessam por nada.
Dos que só querem dormir.
Dos que não vêem razões para se levantar.
Dos que choram lágrimas brutais.
Dos que não sabem a razão e nem querem saber.
Basta qualquer coisa.
Uma certa música que se ouve inesperadamente.
Ou mesmo propositadamente.
Até à náusea.
Uma certa frase que ouvimos.
Porque nos disseram.
E não nos sai da cabeça.
Uma qualquer coisa. Será agora bastante.
Para entrar nesse turbilhão de nadas.
Para mergulhar no mais profundo vazio.
*João desculpa o uso e abuso. Tu já sabes que sou uma ladra de expressões.
Mas na realidade, a minha sorte é que não tenho tempo . Nem vida.
Para entrar em depressão.
Só para a sentir pairar. Suspensa.
Estranho paradoxo.

Dia -213

Ler(-Te)
Por que me lês? Perguntas-me.
Porque me lês quando há tantos livros por ler?
Eu leio-te porque escreves.
Com as entranhas.
Eu leio-te porque tens frases.
Impossíveis.
Para onde se olha.
Se torna a olhar.
E se olha novamente.
À espera que se esgote o espanto.
Ou se confirme o assombro.
Ou nos passe pela cabeça
foda-se!
Percebes, agora, porque te leio?
E ler-te não exclui que eu leia esses outros livros. Por ler.
E não coloco aqui quem és, porque não te pedi autorização para o fazer. Pois.
E entretanto, acusas-te e eu faço o link.

Thursday, May 25, 2006

Momento de Intervalo...

... com vacas à vista
Eu gostei de ver a minha cidade invadida pelas Vacas.
Umas falam da vida. Outras de sonhos.
Outras do amor.
Outras de coisas concretas.
Aqui estão as minhas preferidas.





Vaca Enamorada - Marquês de Pombal


Vaca Noite e Dia - CC Colombo



Vaca Pessoana - Largo do Rato


Os Gatos da Vaca Preta - Rua do Carmo


Clowds - Aeroporto

Dia -212

Ó Pá!
(momento de imodéstia, vaidadezinha e tal...)
Eu não mereço. Que me citem assim.
Em outros blogs.
Surpreende-me que os outros.
Achem que o que escrevo merece estar assim.
Citado. Nos sítios deles.
Não exactamente o que Eu escrevo.
Mas o que a Outra, a que não sou eu. Escreve.
Talvez essa Outra escreva realmente bem.
Mas talvez o faça só porque tem um coração surdo.
Tão mouco que não houve o que lhe dizem.
E, surdo, deixa-se invadir pela tristeza.
E a tristeza. Já se sabe.
É o melhor veículo (que eu conheço) para a escrita.
Mesmo daqueles que. Como Eu. E como a Outra.
Carecem de talento especial.
Para escrever.
Ou para viver.
O que, por vezes, é o mesmo.

Wednesday, May 24, 2006

Dia -211

An so it is
O fim é o fim é o fim. E depois?
O fim é apenas o fim.
Mas eu não gosto de fins.
Confesso. Faço tudo.
Quase tudo.
Por um fim qualquer.
E depois?
Fico a remoer no fim.
A pensar no antes. No durante.
A desejar. Quase ardentemente.
Que o fim volte a ser princípio.
E o melhor.
É que costuma ser.

Tuesday, May 23, 2006

Dia -210

Ser Uma Cabra
(tem algumas vantagens...)
'A mim nunca nenhum homem me deixou
por uma coisa tão prosaica
como outra mulher'*
Ora bem!
*frase de Alma, no filme Os Inconscientes de Joaquín Oristrell.
A estrear, brevemente, talvez numa sala perto de si

Monday, May 22, 2006

Dia -209

A Estúpida Ironia
Chego a Lisboa. Ontem. Sábado. Exactamente às 16:15.
Se fosse propositado, não seria tão estupidamente irónico.
Mas assim?
Não houve nenhum girassol à minha espera.
O local era o exacto.
A hora era a exacta.
Apenas uma pétala abandonada.
Num caderno de apontamentos.
Onde aponto também flores.
Ou o que delas (me) resta.
E uma etiqueta colada numa folha.
Que (ainda) me diz: Amo-te.
Numa espécie de grego.

Sunday, May 21, 2006

Dia -208

Contradições
É assim tão pouco humano
Tão pouco digno
Tão pouco saudável
Ter tendência para
dizer
e
contradizer?

Saturday, May 20, 2006

Dia -207

As Touradas
O touro é vítima ou lutador?*
Quer dizer... neste contexto... alguém tem dúvidas quanto à resposta?
Ou melhor.
Isto é realmente uma pergunta que se faça?
Ou ainda.
Se já sabe, por que é que pergunta?
*pergunta que vi agora mesmo na Sic Notícias.

Thursday, May 18, 2006

Dia -206

Frases do Caraças
Apesar do meu ateísmo.
Às vezes, de madrugada.
Quando o calor.
A saudade.
Os remorsos.
O arrependimento.
Ou apenas a solidão.
Me caem em cima.
Evidentes.
Também me ocorre.
Se Deus existe.
E se, a existir, não será somente qualquer coisa como o lado fresco.
Da almofada.

Dia -205

Absolutamente
Porque é que quando agora digo meu amor
não acontece absolutamente
nada?

Wednesday, May 17, 2006

Dia -204

As Coisas (uma vez) Feitas...
... ganham uma dimensão quase absoluta.
Porque não se pode simplesmente desfazer o feito?
Como quem faz malha e se engana e puxa os fios para desfazer o erro?
Porque é que a vida não é como o raio do tricot?

Tuesday, May 16, 2006

Dia -203

Iogurtes com moral...
Há uns iogurtes que têm provérbios.
Antes tinham frases lamechas.
Agora têm provérbios.
O meu iogurte de hoje dizia:
Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje!
Pelo sim pelo não, segui o conselho.
Nunca se sabe.

Sunday, May 14, 2006

Dia -202

A Pergunta a que ninguém (me) responde

Para onde vão os amores que foram um dia?

R.Guedes de Carvalho - Mulher em Branco

Saturday, May 13, 2006

Dia -201

Sábado, 16:15
Há dias e horas. Insuportáveis.

Dia -200

Azul
Eu tenho um amigo azul.
Que acha que eu sou bonita.
Que me quer bem.
Que me pede devagar. Coisas. Como.
'Não estejas triste'.
Que me abre a porta de casa.
Que chora das minhas lágrimas.
Que tem o coração pesado.
Quando o meu também pesa muito.
Eu tenho um amigo azul.
O azul é uma cor bonita.

Friday, May 12, 2006

Dia -199

O Tempo Perdido
Nada ficou. Aqui.
Quanto mais penso. Mais sei.
Que não acrescentaste nada.
Tiraste só algumas coisas.
Não deixaste praticamente nada.
Não sei onde estava com a cabeça.
Quando me atrevi a lamentar.
Só tempo perdido.
E eu que tenho tão pouco.
Raios me partam.
Tudo o que fiz contigo.
Podia ter sido feito.
Apenas comigo.
Sem perdas de tempo.
Sem ondas.
Sem nada.
Exactamente... sem nada, como ficou.
O que vale. É que ainda me tenho a mim.
E comigo. Eu nunca perdi o meu tempo.

Thursday, May 11, 2006

Dia -198

A Ironia
A suprema ironia é quando a faca que usas para ferir o outro
é exactamente a mesma faca,
(um tudo nada mais afiada)
que o outro usa
para te matar.

Wednesday, May 10, 2006

Dia -197

A Leveza
Que a vida te seja leve.
Que os dias te passem suaves.
Que as certezas cegas existam longe de ti.
Que as dúvidas te assaltem com frequência.
Que o amor te visite sempre.
Seja por quem for.
Seja como for.
Que a estranheza não te quebre os laços.
Que a incompreensão não faça morrer em ti.
Os sentimentos enormes.
Que a vida te seja leve.
Como a quero para mim.

Monday, May 08, 2006

Dia -196

O Mal
Por muito grande. Até enorme. Que o bem seja.
Ou tenha sido.
O mal sobrepor-se-á.
Sempre.

Sunday, May 07, 2006

Dia -195

Uma Parte da Razão
Irritabilidade.
Nervosismo.
Descontrole das acções ou emoções.
Agitação.
Raiva.
Insónia.
Dificuldade de concentração.
Letargia.
Depressão.
Sensação de cansaço.
Ansiedade.
Confusão.
Esquecimento frequente.
Baixa auto-estima.
Paranóia.
Hipersensibilidade emocional.
Ataques de choro.
(Sintomas psicológicos do SPM. Um dia os homens escolherão as mulheres pela inexistência destes sintomas. Eu tenho muitos deles)

Saturday, May 06, 2006

Dia -194

Como à espera do comboio...
...baixinho. Sem gritar.
Quando gritar contra o silêncio do comboio nos carris
é a única coisa que apetece.
Gritar contra esse silêncio.
Experimentar um grito. Assim.
Não gritar para que o homem dentro do comboio ouça.
Talvez para que não ouça.
Nem veja.
Porque já nem (ver) quer.
E o comboio aproxima-se sobre os carris.
Silêncio.
É um comboio exacto. Desta vez.
Aproxima-se.
De uma estação agora triste.
Como o Verão.
E quem vem dentro do comboio sabe.
Que parará na estação exacta.
E não. Coisa tão improvável. Mas já acontecida.
Numa paragem de autocarro.
Há uma mulher na estação exacta.
Parada. Como no Inverno.
Uma mulher cheia de frio.
Uma mulher perfeitamente inexacta.
Perfeitamente banal.
Que sabe que todos os seus gestos.
Não mudarão nada.
Há este sol brutal. Como ao meio-dia.
Há este frio inexplicável.
Como na madrugada.
Nem já os olhos serão exactamente verdes.
Nem já a pele exactamente faminta.
Nem já a voz exactamente música.
Nem já as mãos exactamente cheias.
Há esta solidão desamparada.
Como a solidão que deve haver na morte.
Dos que amaram.
Exactamente.
O verde de um olhar.
Exactamente.
A fome de uma pele.
Exactamente.
A música de uma voz.
Exactamente.
A plenitude de umas mãos.
Há esta mulher inexacta.
Quase inexplicável.
Que é já uma mulher qualquer.
À espera de um comboio.
Onde um homem exacto.
E (ainda) único.
Virá.
Para se transformará em memória.

Dia -193

A Carta
(que nunca te escrevi, nem nada)
Se eu soubesse a razão. Para a minha súbita loucura.
Saberia. Certamente.
Porque perdi o que julguei ter encontrado.
Em ti. Ou através de ti. Ou por ti.
Ou em mim. Por tua causa.
Se eu soubesse a razão. Se eu, ao menos a tivesse!
Saberia.
Que no teu amor por mim começaram largas avenidas.
Que se abrem agora essas avenidas.
Como estradas para lugar nenhum.
No fundo das avenidas que o teu amor abriu em mim não existe mais nada.
Nem a razão que eu queria saber.
Se eu soubesse a razão.
Para a minha súbita crueldade.
Para a minha súbita entrada do lado do que se não dirá nunca.
E nunca. E nunca. Menos ainda. A quem diz amar-se.
Se eu a soubesse.
Saberia talvez a matéria de que sou feita.
Saberia que há um universo indefensável.
Se eu soubesse a razão.
Do meu súbito desejo de te fazer mal.
Não o teria tido.
Tudo estaria como agora.
As avenidas abertas.
E ao fundo... uma razão para viver sem culpas.
Haveria a razão que outrora havia.
Se eu soubesse mexer nas coisas.
Saberia.
Que nada muda o amor que tive. E me tiveste.
Que nada transforma um ataque suícida.
Que nada muda que o amor que tive e me tiveste seja exactamente isso.
O amor. Que eu te tive. E me tiveste.

Thursday, May 04, 2006

Dia -192

Arder...
... na fogueira destas palavras.
Quem escreve como tu não deveria. Nunca. Fazer intervalos.
Sabes bem o que tens a fazer, quando tudo arde, não sabes?

Wednesday, May 03, 2006

Dia -191

A Perplexidade
Não. Não é. Ou será. Alguma vez. A paixão.
Que me deixa perplexa.
A paixão não.
É fácil pensar que estamos apaixonados.
As pessoas são tão interessantes.
O que me deixa perplexa é o Amor.
Ou seja. As pessoas conhecerem-se por dentro.
E por fora.
E ainda assim. Apesar disso.
Até mesmo por isso.
Serem capazes de se amar.

Tuesday, May 02, 2006

Dia -190

A Amiga Apaixonada
A minha amiga escreveu-me isto:
«Não fazes ideia. Ou até farás.
Se alguém pode fazer, será com certeza tu.
Tem sido fabuloso.
Algo que nunca julguei possível, ou pelo menos algo que já não julgava possível.
Um amor avassalador, enfim não nos precipitemos -
uma paixão avassaladora.
Um turbilhão, um ciclone que tudo arrasta
Mais uma vez fiquei contente.

Monday, May 01, 2006

Dia -189

Maio
O verão aproxima-se em grandes e quentes passos.
Toda a gente sabe que eu odeio o verão.

Sunday, April 30, 2006

Dia -188

Os Dedos
Deslizam. E fazem-me chorar.
Porque.
Produzem.
Tanta.
Beleza.

Saturday, April 29, 2006

Dia -187

Desaparecer
Há dias. Em que gostaria muito.
De desaparecer.
Completamente.

Friday, April 28, 2006

Dia -186

As Gargalhadas
Eu gosto. De me rir às gargalhadas.

Thursday, April 27, 2006

Dia -185

A Assinatura
Não. Não precisas de assinar.
Reconheço as tuas palavras.
Como se fossem minhas.
Na verdade.
São minhas.

Wednesday, April 26, 2006

Dia -184

O (Bom) Vernáculo
Foda-se, eu amo-te, caraças!

Tuesday, April 25, 2006

Dia -183

25 de Abril
'Esta é a madrugada que eu esperava,
o dia inicial,
inteiro e limpo,
onde emergimos
da noite e do silêncio
e, livres, habitamos
a substancia do tempo'
Sophia de Mello Breyner

Monday, April 24, 2006

Dia -182

O Perigo
Há olhares que nos atravessam.
Que entram cá dentro.
Não sei como.
Ou por onde.
Há olhares que, sabemos, não podem ser retribuídos.
Podia ser perigoso.

Sunday, April 23, 2006

Dia -181

O Comboio
Gosto do que o comboio traz.
Detesto quando o comboio leva...

Saturday, April 22, 2006

Dia -180

A Peripécia
'cancro, cólera e pedra nos rins,
são o melhor meio de locomoção para as estrelas'
frase da peça Vincent, Van e Gogh

Friday, April 21, 2006

Dia -179

Agora
Ela deixou que o mar entrasse, inteiro, na sua casa.
Ela coseu as velas. Do frágil pano.
Ela deixou-se navegar. Como um bote.
Ou.
Outras vezes.
Como uma caravela.
Ela resolveu plantar girassois.
E castanheiros.
Ela resolveu esquecer-se que detesta as manhãs.
Ela resolveu entregar as mãos.
Ou.
O que das mãos lhe resta.
Ela entregou-se, inteira, a frases como.
Por exemplo.
Esta.
Nem mais um passo longínquo, nunca mais estar apartado de ti...
Agora.
Ela ama.
Ela sente o tempo. Passar inteiro.
Devagar.
Ela domina a urgência que punha.
Antes.
Em todas as coisas.
Ela espera.
Agora.
Ela não sabia.
Antes.
Que sabia.
Esperar.

Thursday, April 20, 2006

Dia -178

As Evidências
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que ao ter-te, amo-te mais
e mais ainda
Depois de ter-te, meu amor
não finda com o próprio amor,
o amor do teu encanto
Que encanto é o teu?
Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos,
prendem
por uma paz da guerra a que se vendem
a pouca liberdade do meu canto.
Um cântico da terra e do seu povo
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu?
Deitado à tua beira
sei que se rasga
eterno
o véu da graça.
Jorge de Sena

Wednesday, April 19, 2006

Dia -177

O Amigo Apaixonado
Tenho um amigo que se apaixonou.
Disse-me assim: estou apaixonado. Por uma flor. Chamada Margarida.
Eu fiquei contente.

Tuesday, April 18, 2006

Dia -176

O Ciclo
São 28 dias, mais ou menos. Os ciclos da lua.
Os ciclos menstruais.
Os ciclos das coisas que fazem a vida ser qualquer coisa mais.
Que dias a menos. Para a morte.
Foram 28 dias mais ou menos. Não sei. Não decido facilmente.
Se a mais na vida. Se a menos para a morte.
Fumo o enésimo cigarro após as quatro e meia da tarde.
Há demasiada solidão nos cigarros que fumo.
O ciclo que se acaba. Eu que volto à minha vida.
Não me queixo. A vida é-me suave.
Os dias que me restam serão suaves.
O sofrimento não tem lugar. Não pode. Quando se espera.
Suavemente.
Fumando cigarros cheios de solidão.
A morte.

Monday, April 17, 2006

Dia -175

Os Minutos
Nos teus olhos não há minutos.
Mas abismos de eternidade.
Nos teus olhos os minutos são a eternidade.

Sunday, April 16, 2006

Dia -174

O Jardim
Esqueço-me de mim.
Como se eu nunca houvesse sido. Antes. De ti.
Posso não ser mais nada. Nunca.
Outra vez.
Mas sou. Agora. Esquecida de mim.
Como se nunca houvesse sido.
Antes.
De ti.

Saturday, April 15, 2006

Dia -173

A Busca
Conheces a sensação de parares?
De parar de repente e ter uma revelação.
Muito importante.
Como.
Tu és.
E isso basta.

Friday, April 14, 2006

Dia -172

Querer(Te)
Seria capaz de atravessar o mundo. Provocar terramotos.
Sobre asas de borboletas. Ou sobre pétalas.
De um girassol.
Hoje.
Contigo. Ou. Por ti. Ou. Para ti.

Thursday, April 13, 2006

Dia -171

O Percurso Diário
'Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim'.
Ruy Belo

Wednesday, April 12, 2006

Dia -170

A Cautela
As pessoas, em certas posições, deviam ter cuidado com o que dizem
Sobretudo se o que dizem compromete o futuro de outros. Noutras posições.

Tuesday, April 11, 2006

Dia -169

O Amigo
Tenho pena que mores tão longe de mim.
Que seja preciso subir serras e descer a vales.
Voltar a descer. Voltar a subir. Para que nos encontremos.
Falar contigo, falo sempre.
Mas o que eu gostava era de estar mais próxima de ti.

Monday, April 10, 2006

Dia -168

Conhecidos
Há demasiadas pessoas muito conhecidas.
Que não conhecem ninguém.

Sunday, April 09, 2006

Dia -167

O Marão
Subo a serra. É quase quase noite.
E deixo-me invadir pela quietude destes montes.
Recortados.
A vida é feita de nadas, como dizia Torga*.
De grandes serras paradas. À espera de movimento.
Pois.
* no poema Bucólica

Saturday, April 08, 2006

Dia -166

O Olhar
Não é fácil pensar, quando me olhas.
Apetece-me ficar apenas dentro dos teus olhos.
Ter uma melhor imagem de mim.
Só porque me olhas.

Friday, April 07, 2006

Dia -165

Quem é a Imperatriz, afinal?
(ou de como, se eu acreditasse nesta treta, tudo seria mais fácil, ou pelo menos parecer-me-ia melhor)
Carta dominante: III A IMPERATRIZ
A IMPERATRIZ define um mês excelente para os nativos de Capricórnio.
A IMPERATRIZ permite desenvolver aspectos de personalidade, ultrapassar barreiras, estabelecer novas pontes de comunicação e alargar horizontes.
Capricórnio deve confiar mais em si próprio e em circunstância alguma colocar limites aos seus sonhos; este mês pode dar passos muito importantes fruto de iniciativa própria. Sentimentalmente este é sem dúvida um mês de evoluções muito agradáveis; em Abril a vida de Capricórnio pode dar uma volta significativa no sentido ascendente.
A renovação da vida sentimental está bem patente na conjuntura perspectivando-se momentos de grande intensidade e romance. Não volte as costas ao amor porque, de acordo com as cartas, ele virá este mês ao seu encontro.
No campo profissional o mês é muito positivo no campo profissional. Pode fazer alterações porque a conjuntura ajuda-o e “empurra-o “ para situações mais favoráveis. Este mês não esteja com meias medidas e enfrente decididamente o seu futuro; está no momento certo para iniciar uma nova fase profissional. Não dê ouvidos a quem pretende tolher-lhe o passo; dos fracos não reza a história. Na saúde está muito sensível e por isso sujeito a momentos de quebra energética ou cansaço excessivo.
LIGAÇÕES MAIS PROTEGIDAS COM – Carneiro, Leão e Sagitário

Thursday, April 06, 2006

Dia -164

O Decote
Por vezes compramos coisas que depois...
não nos fazem sentir muito bem, ainda que nem nos fiquem nada mal.
Passei o dia preocupada com a extensão do meu decote.

Wednesday, April 05, 2006

Dia -163

A Realidade
Custa-me muito. Estar aqui. E tu. Aí.
A realidade é uma coisa que estraga muito os sonhos.
A realidade é uma coisa que arruína a imaginação.
Não quero pensar na realidade. Só pensar. Imaginando-te aqui.

Tuesday, April 04, 2006

Dia -162

Não Existes
Não. Tu não existes.
Quer dizer. Não é possível que sejas de verdade.
Não. Não existes. Tu.
Fui eu que te inventei.
Não fui?
Inventei-te assim, exactamente.
Tal como esperei que fosses.
Não. Tu não existes.
Fui eu que te inventei.
Numa destas noites em que não durmo.
E, afinal (parece que sempre) sonho.

Monday, April 03, 2006

Dia -161

A Declaração
«(...)Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo. (...)»
Joaquim Pessoa, extracto do poema Eu sei, não te conheço mas existes

Sunday, April 02, 2006

Dia -160

Coisas Importantes (II)
Encontrar um Sputnik*.
E poder chamar-lhe, de facto, meu amor.
* Sputnik significa 'companheiro de viagem'.
Só soube isto quando li o livro de Haruki Murakami, justamente intitulado
Sputnik, meu amor

Saturday, April 01, 2006

Dia -159

Coisas Importantes (I)
Os teus olhos quando entram nos meus.

Friday, March 31, 2006

Dia -158

A Diferença
Dizemos que o que nos une é maior do que o que nos separa.
Gostamos de usar estas frases. A que a junção de água confere evidência.
Na prática. No amor. Na amizade. No trabalho. No tempo.
Na vida.
Aquilo que nos separa.
A todos.
Será sempre.
Maior. Mais forte. Mais impeditivo.
Que aquilo que nos une.
E assim sendo.
O que nos une é o quê?

Thursday, March 30, 2006

Dia -157

A Terra de Ninguém
No meio caminho entre a mentira e a verdade.
Entre o possível e o impossível.
Onde repousa o que não pode ser dito.
É onde eu te digo.
Amo-te.

Wednesday, March 29, 2006

Dia -156

O Folêgo
Aquilo que nos corta o folêgo
é
a única
razão
por que respiramos.
A grande
razão.

Tuesday, March 28, 2006

Momento de Intervalo...

... Ou Outra Coisa Qualquer

«And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her skies
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you...
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind...
My mind...
my mind...
'Til I find somebody new»

Damien Rice The blower's daughter
da banda sonora do filme Closer, de Mike Nichols

Dia -155

O (teu) Vazio
Nada a fazer quando o silêncio toma o lugar outrora ocupado. Pela música.
Nada a fazer quando a única coisa possível é fechar os olhos.
E voltar a abri-los para reconhecer que falhaste.
Outra vez.
Que ainda não. Que ainda não.
Que agora. Já. Não.
Já não sentes a música. Que foste assaltado pelo silêncio.
Quando antes todas as coisas se dissolviam na música.
Não quero que deixes de ouvir a música. Mas sei.
Que há silêncios que nos tomam.
Nada a fazer. Quando. A única coisa possível é reconhecer que ainda não.
Que. Agora. Já não.
Nada a fazer?

Monday, March 27, 2006

Dia -154

A Saída
Hesito. Entre a esquerda alta e a direita baixa.
O pano de cena enreda-se em mim.
Caí numa armadilha.
Não sou capaz de encontrar uma saída.
Posso deixar-me cair no meio do palco.
Como quem morre.
Talvez a equipa de limpeza repare no que de mim resta.
E amavelmente me transporte para fora.
De mim.

Sunday, March 26, 2006

Dia -153

Lugares
O meu lugar é onde a tua voz começa.

Saturday, March 25, 2006

Dia -152

«Mas Dancemos
já que temos
a valsa começada»
Reinaldo Ferreira - Extracto de Rosie

Friday, March 24, 2006

Dia -151

Tu
«(...) Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
(...) E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.»
Heberto Helder - Extracto de O Amor em Visita

Thursday, March 23, 2006

Dia -150

O Precipício
«Afinal o que importa é não ter medo: fechar os
olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício»*
Acontece-me passar a vida que me resta até à morte a saltar. De precipício em precipício.
A merda toda é que não há um farol que indique o caminho do abismo.
* Mário Cesariny - extracto do poema Pastelaria

Dia -149

A Impotência
A minha maior morte é a morte de mim em ti. É uma morte dificil. Deve ser.
Porque é a morte completa. Aquela de que nunca se regressará.
Aquela que põe uma pedra definitiva e sólida entre o que foi e o que há-de ser.
Eu sei que te traí de multiplas maneiras.
Não há caminho para voltar de uma morte assim.
Eu sei.
E não é triste que me sinto. É desarmada.
Para abrir uma janela qualquer nessa pedra.
Ou uma pequena fresta por onde passe um dos teus dedos em direcção ao meu cabelo.

Tuesday, March 21, 2006

Dia -148

O Dia da Poesia

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo -nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade
Ruy Belo - Espaço Preenchido

Monday, March 20, 2006

Dia -147

A Pergunta sem Resposta
Como se pode viver depois da morte do teu riso?
Como esperas que eu viva depois de ti?

Dia -146

Dia do Pai
Todos os dias, contigo, Pai, nunca são dias a menos.
Sempre dias a mais. Que me acrescentam.

Sunday, March 19, 2006

Dia -145

A Idade
Fazes oito anos hoje. Mas não é a tua idade que me preocupa. És pequenino.
Tão pequenino, para mim, como no dia em que nasceste.
Aquilo que me preocupa nos teus oito anos... não é tu estares a ficar crescido.
É o tempo que também não pára. Para mim.

Friday, March 17, 2006

Dia -144

O Regresso
Alguém me disse. Num dia a menos. Que não podemos regressar.
Aos lugares. Onde. Já fomos. Felizes.
Desde esse dia. Menor. E a menos.
Nunca deixei de regressar. Àquele lugar. Àquela pessoa.
Onde. Com quem.
Nunca fui outra coisa. Senão. Feliz.

Dia -143

Por Vezes...
...um blog é feito do que não se escreve...
Frase deste senhor aqui, que tem por mania imaginar(se)(nos) mundos, na caixa de comentários do seu blog.

Wednesday, March 15, 2006

Dia -142

«Eu Sou O Quê?
E a resposta é uma solidão assustada»
António Lobo Antunes

Tuesday, March 14, 2006

Dia -141

Quem Sou Eu?
«Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra»
António Ramos Rosa, frase do poema Uma Voz na Pedra

Monday, March 13, 2006

Dia -140

A Primavera
Hoje entrei na sala de aula e anunciei: chegou a Primavera!
Olharam para mim estupefactos e um mais afoito corrigiu-me:
«a Primavera só começa dia 21 de Março, professora».
Que culpa tenho eu, sim, que culpa tenho eu de lá fora estar um sol abrasador,
cheirar a polén e a erva e de ter alunos tão arreigadamente defensores de calendários?

Sunday, March 12, 2006

Dia -139

A Rua
A rua. A minha. É grande e larga. Tem água. Muita. Ao fundo. Advinham-se os montes de sal.
De antes. Advinha-se mais água que não vejo da janela. A minha rua é grande. E larga.
Não sei quantos passos de comprimento. Não sei quantos passos de largura.
Nunca caminhei a pé por toda a extensão da minha rua.
Sou uma habitante inútil. Que se debruça em direcção à água. Ao fundo. Da janela.
Que nunca se aproximou demasiado dos passeios. Das passadeiras. Dos prédios.
E dos vizinhos.
Sou uma pessoa inútil. Que não conhece, com os seus passos. A sua própria rua.
Inutilmente habito uma cidade onde não conheço ninguém.
Inutilmente habito uma rua que só conheço à distância.
Inutilmente entro e saio do meu prédio sem um eco de bons dias.
Inutilmente vagueio pelas divisões da minha casa.
A rua lá fora. A cidade lá fora. Os vizinhos lá fora.
E eu cá dentro. Inutilmente habitando. Um corpo de que não conheço o habitante.

Saturday, March 11, 2006

Dia -138

O Deserto
Há três anos. Desapareceste. Deixaste. Um deserto.
Cá dentro.
Há três anos morreste.
E neste deserto em que estou.
Todos os dias são dias a mais.
Ou a menos.
Para a minha. Solidão.
Ou. Morte.

Friday, March 10, 2006

Dia -137

A Carta da Paixão
Que alguém me escreva
algum dia (por exemplo hoje) alguma coisa semelhante a isto.
Enquanto eu sangro.
Lentamente.
«Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minhavida secreta.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.»
Herberto Helder