Saturday, June 17, 2006

Dia -236

As Aulas
Talvez seja um bocado deprimente.
Ser sábado.
E eu ter dado aulas das 10h até às 19h.
Ter gasto vários dias, até de madrugada a prepará-las.
(Acrescento: sem ninguém me pagar mais por isso)
Mas às vezes, há coisas pequeninas
que retiram o lado deprimente a isto
(bom, não estou certa se terá mesmo um lado deprimente, mas talvez pareça).
Como dizerem-me: se todos os professores fossem como a professora!
Ou em oito alunos, três quererem fazer as teses comigo.
Ou, como outro dia, noutra Universidade.
Vários alunos, no fim,
me terem agradecido muito
a aula que lhes dei
(sem que eu os fosse avaliar).
Sometimes, I love my life.
Sometimes I love my work.

Dia -235

Com um Brilhozinho nos Olhos
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há
(Sérgio Godinho)

Thursday, June 15, 2006

Dia -234

Destroço Recuperado...
...de Uma Carta Muito Antiga
Não que ele fosse um homem maravilhoso,
era apenas um homem,
mas deu-me
uma dimensão
de mim, de tudo,
que eu não tinha.

Dia -233

Escapismo
Disse Pacheco Pereira que a febre que nos acomete
(nos, aos portugueses)
(quer dizer, a vocês, a eles, a mim não)
nas alturas de grandes eventos desportivos
(quer dizer, de futebol)
(haverá outro desporto? A acreditar nos 'media' não há)
chama-se escapismo.
Em vez de sentirmos
(sempre)
que pertencemos a um país
(portugal)
sentimos que fazemos parte de uma equipa
(a selecção portuguesa).
E o nosso orgulho nacionalista
(nosso não, vosso ou deles... tudo menos meu)
esgota-se nisso.
Se a nossa
(quer dizer, a vossa, ou a deles, tudo menos minha)
selecção perder o campeonato
não seremos portugueses.
Apenas derrotados.
E é isto que nos define
(antes de tudo o resto)
como povo.
Não somos portugueses sempre.
Somos escapistas.
Entusiastas momentâneos.
(enquanto estamos a ganhar).
Quando perdermos.
Diremos mal de tudo e de todos.
Principalmente do treinador.
E do governo.
(não é o mesmo, embora às vezes pareça).
Tiraremos o orgulho
que pendurámos à janela
(quer dizer, vocês, eles, eu não pendurei nada e nada tenho para tirar)
e cabisbaixos voltaremos
a ser tristes.

É o que se pode chamar
patriotismo de merda.

Tuesday, June 13, 2006

Dia -232

Repetição
Vejo o que escreves.
E o que escreves.
Mesmo com outra destinatária
(ou talvez sem nenhuma).
É igual.
Estranhamente igual.
Ao que escrevias antes.
Para mim.

Dia -231

Entender
As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.
(Herberto Helder)

Sunday, June 11, 2006

Dia -230

Prazer
«Ai que prazer
ter um livro para ler
e não o fazer...»

Saturday, June 10, 2006

Friday, June 09, 2006

Dia -228

A Verdade...
... é que até para respirar,
me fazes falta.

Thursday, June 08, 2006

Dia -227

Destinatários
Por vezes. Eu escrevo a pensar em alguém.
E vem outra pessoa e pergunta:
escreveste aquilo para mim?
A comunicação é uma coisa tramada.

Wednesday, June 07, 2006

Dia -226

O Ponto
Vens aqui picar o ponto.
Não pontualmente
como se deve.
Picar.
O ponto.
Mas vens.
Ponto.

Tuesday, June 06, 2006

Dia -225

O Namoro
Alguém me disse
namorar é desnecessário.
Bom, com a minha idade.
E o resto.
(Mais o resto que a idade).
Depois de pensar por um bocado.
E dormir sobre o assunto.
Até sou capaz de concordar.

Monday, June 05, 2006

Dia -224

Domingo
Pois. Acabou o Domingo. São 1:01.
Leio o que escreves.
Há uma coisa repetida, pelo menos dessa recordo-me.
Que já estava antes. No princípio.
Mas ocorre-me que estejas apaixonado.
Não sei bem se gosto disso
(não tenho que gostar ou não gostar).
Sentei-me na varanda hoje.
À hora que o sol começa a descer.
Para as bandas do mar.
Que se vê (um bocadinho) daqui.
Lembrei-me da expressão que fazias.
Quando a uma hora parecida o sol te batia em cheio na cara.
Na minha varanda.
Lembrei-me disso.
E fiz a mesma expressão que fazias.
Mas não aconteceu nada.
Era Domingo.
Continuou a ser.

Sunday, June 04, 2006

Dia -223

Balanço
Cento e vinte sete testes para corrigir.
Aliás, duas perguntas
em
c e n t o
e
v i n t e
s e t e
testes
para corrigir.
Não posso fazer mais nada até ter visto todos os testes.
Bah.
Sometimes I Hate My Life.
(A boa notícia é que já dei um 19. A má notícia é que já dei um 0)

Saturday, June 03, 2006

Dia -222

Today, I feel this way
(a alegria é o que nos torna os dias úteis...
... o prazer é o que nos torna os dias raros...)
Dias úteis
às vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidade
no percurso de um só dia
Dias úteis
são tão frágeis as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?
Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente transparente
quem a não receberia?
Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna os dias úteis
Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudência
fazem os prazeres do dia
Dias raros
como os ares, rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?
Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas cristalinas
quem as não perseguiria?
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
a alegria é que nos torna os dias úteis
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros
Sérgio Godinho - Dias Úteis in 'Domingo no Mundo'
Se quiserem ouvir a belíssima música sigam o único link que encontrei
e que a contém toda:

Friday, June 02, 2006

Dia -221

Esquece Tudo O Que Te Disse
Esquece tudo o que te disse
leva as promessas que fiz.
Manter este amor, é pura tolice
se teu coração nunca o quis.
O nosso lar não tem futuro
já não me queres na velhice.
Quebraste a jura, ergueste um muro
esquece tudo o que te disse
Estas lágrimas que choro,
são o princípio do fim.
Rogo aos céus
meu Deus imploro:
leva o homem que adoro
para bem longe de mim.
Esquece o que te disse
leva as promessas que fiz.
Quebraste a jura, ergueste um muro.
Esquece tudo o que te disse.
(Azembla's Quartet - Esquece tudo o que te disse, banda sonora original do filme com o mesmo título de António Ferreira)

Thursday, June 01, 2006

Dia -220

Late Night Show
Duzentos e setenta testes para corrigir.
D u z e n t o s
e
s e t e n t a.
Testes.
Para corrigir.

Wednesday, May 31, 2006

Dia -219

Dilatação
O calor dilata os corpos.
Vou explodir no ar.
Odeio o Verão!

Tuesday, May 30, 2006

Dia -218

(há um link aqui)
Há demasiadas coisas dentro de mim.
Demasiadas pessoas.
Demasiadas vidas.
Demasiadas mortes.
Tenho de escrever qualquer coisa.
Mesmo mal.
Mesmo demasiado.
Se não.
Rebento.
Ou vivo.
Ou morro.
Ou assim.

Monday, May 29, 2006

Dia -217

O Desamparado Desespero
Descubro isto, pronto a usar,no blog da CGR.
Conhecia este desespero. Mas nunca o tinha encontrado.
Assim.
Tão pronto a usar.
Este desespero é hoje. Também o meu.
E tão antigo.
Nada mais triste que alguém que ama.
Nada mais triste que alguém que amando.
Não tem já qualquer possibilidade de ser amado.
«Que será de mim?....e que queres tu que eu faça?...
Vejo-me bem longe de tudo o que tinha imaginado!
(...)
Não sei nem o que sou, nem o que faço, nem o que desejo...
Mil tormentos contrários me despedaçam!...
Quem poderá imaginar um estado mais deplorável?...
Amo-te como uma perdida, e modero-me ainda assim contigo, até não ousar talvez desejar-te as mesmas tribulações, os mesmos transportes que me agitam...
Matar-me-ia, ou a não fazê-lo, morreria de dor, se estivesse certa que nunca tinhas repouso, que a tua vida era uma contínua desordem e perturbação, que não cessavas de derramar lágrimas, e que tudo aborrecias...
Eu não me sinto com forças para os meus males, como poderia suportar a dor que me causariam os teus, mil vezes mais penetrantes?...
Contudo não posso do mesmo modo resolver-me a desejar que não me tragas no pensamento, e para falar-te sinceramente, sinto com furor ciúmes de tudo quanto possa causar-te alegria; comover ä teu coração, e dar-te gosto (...)
Ignoro por que motivo te escrevo...
Vejo que apenas terás dó de mim, e eu rejeito a tua compaixão, e nada quero dela;
Enfado-me contra mim mesma, quando faço reflexão sobre tudo o que te sacrifiquei...
(...)
Parece-me até não estar contente, nem das minhas mágoas, nem do excesso de meu Amor, ainda que, ai de mim! não possa, mal pecado, lisonjear-me de estar contente de ti...
(...)
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes te disse, não teria eu já de longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah ! por que não te queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de mais ver-te. E ainda respiro!...
É uma traição...
Peço-te dela perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de Amor por ti...
(...)
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara, e quiçá esta morte extraordinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me abaixaste?...
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço neste mesmo instante em que te escrevo, quanto prefiro e prezo mais ser infeliz amando-te, do que não te haver jamais visto.
Cedo sem murmurar à minha malfadada sorte, já que tu não quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me de conservar uma terna e maviosa saudade de mim, se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da minha paixão, inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
(...)
Dize, não seria nímia crueldade a tua, se te servisses da minha desesperação para, pareceres mais amável, mostrando que acendeste a maior paixão que houve no mundo?
Adeus outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, o que é uma falta de consideração para ti: peço-te mil perdões, e atrevo-me a esperar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata, que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do estado insuportável em que estou.
Contudo agradeço-te, do íntimo do meu coração, a desesperação que me causas, e aborreço o sossego em que vivi antes de conhecer-te...
Adeus.
A minha paixão cresce a cada momento.
Ah! quantas cousas tinha ainda para dizer-te!...»
(Soror Mariana Alcoforado - Terceira Carta in Lettres Portugaises)