Thursday, March 01, 2007
Dia -491
Isto é capaz de ser mau sinal
Ultimamente tenho dado por mim a cantar
a plenos pulmões enquanto conduzo.
Seja a distância longa ou curta.
As canções que canto?
É melhor não quererem saber.
Wednesday, February 28, 2007
Dia -490
Manias
A mania que na cama nascem amores profundos só porque um gajo está deitado.
(A frase não é minha que, sendo gaja, já perdi estas manias há uns tempos.
É do J. que, não sendo gaja, ainda lida com estas manias)
Adenda: mas podem nascer amores profundos na cama...
deitados ou noutra qualquer posição.
Os amores profundos podem nascer em qualquer parte.
E a cama é um lugar tão bom como qualquer outro. Hum... talvez ainda melhor.
deitados ou noutra qualquer posição.
Os amores profundos podem nascer em qualquer parte.
E a cama é um lugar tão bom como qualquer outro. Hum... talvez ainda melhor.
Tuesday, February 27, 2007
Dia -489
I am a little bit depressed
São 5:17 da madrugada e eu estou um bocadinho deprimida.
Com os óscares.
A cerimónia foi a melhor dos últimos anos.
4 horas e nem se deu por elas.
Mas... só dois dos meus candidatos ganharam e...
pior... Departed ganhou o óscar para o melhor filme.
Hum... porquê? Nem sequer é um grande filme!
Só me senti assim no ano em que não deram o óscar à Emily Watson
pelo seu enorme papel em Breaking the Waves, de Lars Von Trier.
Parafraseando o Calimero: it's an injustice, it is!
Monday, February 26, 2007
Dia -488
Os Dias Perfeitos...
... são dias como hoje.
Levantei-me com sol. Tomei o pequeno almoço na varanda.
Havia vento. Mas a ria estava azul. Uma cor conveniente a um dia perfeito.
A seguir li um bocadinho do Kafka à Beira Mar
do magnífico Haruki Murakami,
como gosto de ler, aos domingos, deitada na cama.
Depois fui ao cinema, como gosto de ir aos domingos
(bom, na verdade, gosto de ir ao cinema todos os dias da semana)
e pude ver uma interpretação absolutamente brilhante
do (tão velho) Peter O'Toole
em Venus, um extraordinário filme de Roger Michell.
Não admira que seja extraordinário.
Foi escrito por um dos meus escritores preferidos
na literatura inglesa contemporânea: Hanif Kureishi.
A seguir a uma francesinha e umas cervejas em boa companhia,
fui à Casa da Música ver o excelente
(e também tão velho) McCoy Tyner.
Finalmente, voltei a casa.
Deitei-me no sofá e vi toda a cerimónia dos óscares.
Foi a melhor dos últimos anos.
Sim, eu sei, uma mulher não merece ter dias assim tão perfeitos.
Deve ser por isso que são tão raros.
Sunday, February 25, 2007
Dia -487
Os Óscares
Por mim, the oscar goes to:
Melhor Filme: Letters From Iwo Jima
(embora se ganhar o Babel também ache bem)
Melhor Realizador: Alejandro Gonzales Iñárritu (por Babel)
(embora se ganhar o Clint Eastwood também não me importe)
Melhor Actor: Forest Whitaker (em The Last King Of Scotland)
(aqui não há nada a fazer: ou dão o óscar ao Forest Whitaker ou... ou... bah)
Melhor Actriz: Helen Mirren (em The Queen)
(não vi ainda o Notes on a Scandal, pelo que não sei a Judy Dench vai melhor que a minha eleita)
Melhor Actor Secundário: Djimon Hounsou (em Blood Diamond)
(tal como com o Forest Whitaker, neste caso também não há nada a fazer... tem de ser para ele)
Melhor Actriz Secundária: Rinko Kikuchi (em Babel)
(brilhante, mas não vi a Cate Blanchett em Notes on a Scandal nem a Jennifer Hudson em Dreamgirls... pelo que... não sei)
Melhor Argumento Original: Iris Yamashita e Paul Haggis por Letters From Iwo Jima
(ok, o Guillermo Arriaga por Babel também pode ganhar)
Melhor Argumento Adaptado: Todd Field e Tom Perrotta por Little Children
(bom, também pode ser Alfonso Cuarón e Timothy J. Sexton por Children of Men)
Melhor Fotografia: Children of Men
(no doubts)
E pronto. As outras categorias... não sei bem.
Mas sei que amanhã, depois de um (espero que) magnífico concerto do McCoy Tyner na Casa da Música,
vou ficar acordada até às tantas a ver se os meus favoritos levam o óscar para casa.
Friday, February 23, 2007
Momento de Intervalo...
Nunca mais te hás-de calar ó Zeca*
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança
a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância
e a palavra medo.
A cidade é um saco
um pulmão que respira
pela palavra água
pela palavra brisa.
A cidade é um poro
um corpo que transpira
pela palavra sangue
pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos **/ Zeca Afonso - A Cidade
* José Mário Branco - Carta ao Zeca
** Obrigada Alberto, pela correção.
Dia -486
Precisamente
É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre... em toda a parte...
H. Pratt - A Balada do Mar Salgado
Thursday, February 22, 2007
Dia -485
O Meu Pai...
... é o homem mais bonito que conheço
... tem o cabelo branco mais lindo do mundo
... o olhar mais inteligente e meigo do universo
... sabe fazer tudo
... ensina-me muitas coisas
... telefona-me para me lembrar coisas comezinhas que, se não fosse ele, de certeza, me esqueciam
... gosta de pássaros
... gosta de gatos
... gosta de palavras e compreende-as todas muito bem
... nunca me ralhou
... gosta de árvores e já plantou muitas
... gosta de arranjar coisas
... gosta de ver crescer as coisas
... dá-me conselhos
... andou comigo ao colo e dá-me beijos e abraços
... faz um grande sorriso quando lhe dizem que eu sou a menina do papá
... acha mesmo que eu sou a menina do papá
... e eu estou de acordo porque não imagino coisa melhor para se ser.
O meu pai hoje faz anos.
Muitos Parabéns Pai!
Dia -484
Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.
Adélia Prado - Tempo
Wednesday, February 21, 2007
Dia -483
Japoneses, Como Nós
Letters from Iwo Jima é um filme imperdível*.
Sim, estamos todos fartos de filmes sobre a II Guerra Mundial.
Mas este é um filme que dá rostos, emoções, vidas,
a um dos lados da guerra que nos habituamos a ver
como a natureza de todo o mal,
no cinema sobre este período.
Aqui não. Aqui são japoneses.
Como nós.
Exactamente.
Como nós.
*Aconselho a ver primeiro o Lado A deste épico de Clint Eastwood
(um realizador demasiado humano, como sempre) - Flags of Our Fathers.
Tuesday, February 20, 2007
Dia -482
Tenho 40 anos e dois meses...
... e a minha mãe ainda me chama meu amorzinho pequenino.
E o melhor é que eu gosto!
Monday, February 19, 2007
Dia -481
Die Große Stille*
Um homem pode decidir
ser feliz
sozinho
e em silêncio.**
(* ou O Grande Silêncio, um filme de Philip Gröning sobre os monges cartuxos num mosteiro em França)
(** e isto, mais ou menos assim, foi o que disse o Fernando Alves, no fim de uma reportagem da TSF sobre os monges cartuxos em Portugal, no dia 16/2, intitulada O Lugar dos Homens que Não Falam)
Sunday, February 18, 2007
Saturday, February 17, 2007
Dia -479
Só isto é verdade
O epicentro dos grandes terramotos
encontra-se na extrema mansidão
com que caminhas
a uma certa luz da tarde
e alheio
destróis os desertos
que levei anos
a esboçar.
Friday, February 16, 2007
Dia -478
Obrigada*
Amy Winehouse - Love is a Loosing Game
*Depois de ouvir atentamente esta é a minha favorita. A voz desta moça é profundamente interessante.
Amy Winehouse - Love is a Loosing Game
*Depois de ouvir atentamente esta é a minha favorita. A voz desta moça é profundamente interessante.
Thursday, February 15, 2007
Dia -477
E a Extrema Inutilidade das Comemorações Estúpidas
Como a deste dia...
como se namorar tivesse data marcada. A ser celebrada.
Ou melhor, como se o amor (essa treta!)
não fosse já celebração bastante.
Tuesday, February 13, 2007
Dia -476
A Extrema Utilidade das Perguntas Estúpidas
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe
se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto.
Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
(Mário Henrique Leiria - Telefonema)
Monday, February 12, 2007
Dia -475
A Terra Tremeu...
... e eu acordei, com o estremecimento da cama e pensei
'mas que raio... porque é que estou a tremer?'
Eram 10:38.
Muito cedo, para os meus hábitos.
Deixei-me ficar debaixo do edredon muito sossegada,
um pouco como a nêspera do Mário Henrique Leiria...
a ver o que acontecia...
até que percebi...
... a terra tremeu, em Portugal
(5,8 na escala de Richter)
mas foi de satisfação, claro.
(e acrescento que me levantei passado um bocado e que quando saí para a rua, as coisas todas, as pessoas todas, me pareceram... exactamente assim, mais sacudidas, com menos pó nas entrelinhas...)
Sunday, February 11, 2007
Dia -473
Reticências
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner
(o poema não se chama reticências. Chama-se Terror de te amar)
Saturday, February 10, 2007
Momento de Intervalo...
... Ou Aqueles que Amam as Palavras, Fazem a Mesma Viagem, Quase Sempre
Obrigada Alexandre
por teres colocado num texto absolutamente belo todas as palavras que amo.
para a Elisa
Estive longos minutos sentado na cadeira sem que qualquer palavra surgisse
(e agora que penso melhor, os minutos são uma porção significativa de tempo quando as palavras não se dignam a estar presentes, e por isso minutos longos como quem conta todos os crepúsculos da manhã e da tarde, como quem vai sobrando à conta dos dias, distanciando-se com a boca calada e meneando a cabeça à descoberta de)
de coisas mundanas como os autocarros que passam aqui em frente a horas tardias, levando uma duas pessoas, aconchegadas no colo da noite perdidas sabe-se lá em que boca calada, meneando a cabeça à descoberta das palavras certas, e nenhuma que surgisse, de modo que eu
(provavelmente todos os segundos o mais demorado beijo, uma tarde de amor, uma viagem)
de autocarro fechado no colo da noite a querer lembrar-me de ti sem encontrar resposta para a teimosia das palavras ausentes durante tanto tempo
(fazendo das horas meses, o sol e a chuva, e a lua, tudo isso, quando vejo uma ou duas pessoas dentro dos autocarros a horas tardias, com as coisas pequenas meneando a cabeça dentro do colo da noite, de modo que eu)
deixo-me ficar sentadinho na cadeira como um traste velho à espera de todos os fins, são longos minutos que me faltam, não são uma duas pessoas que passam dentro do colo da noite pestanejando autocarros a horas tardias
(como se um demorado beijo, e as tardes de amor contadas pelos dedos a jurar que)
um dia serias tu, mas nada disso, quando digo que são uma duas pessoas aconchegadas às palavras sem dizer, só a ti te vejo, posso mesmo jurar que és tu dentro do autocarro levado no colo da noite, que são apenas minutos
(e pensando bem, minutos é uma maneira de dizer que uma porção significativa de crepúsculos esperando a tua saída, mas o sonho que tenho é sempre a mesma volta, com a mesma ambiguidade de que se faz a vida que vivemos sem percebermos que ao olhar para trás são dunas)
dunas de segundos pelo mais demorado beijo, uma tarde de amor. Sempre a mesma viagem.
Friday, February 09, 2007
Dia -472
Regresso aos Posts Absolutamente Profundos

Hugh Laurie
Digam lá, mas assim mesmo honestamente...
não merecerei eu:
- os olhos azuis,
- a barba mal feita,
- o cabelo em desalinho,
- as olheiras fundas,
- a camisa escrupulosamente branca e
- a personalidade cáustica e indomável do Dr. House*???
É que eu, assim mesmo honestamente acho que menos não mereço.
(*sim, provavelmente o tipo mais interessante do mundo)
Dia -471
Do que eu gostei mais foi daquele instrumento a que eles chamam Contrabacia**, mas o resto também é muito... hum... original?*
*Pelo menos... divertido foi, sem qualquer dúvida.
Uma mistura de Kusturica com Almodovar ou... sei lá eu bem.
Chamam-se O'queStrada
** Contrabacia - um pau de vassoura enterrado numa bacia de plástico, com uma espécie de corda da roupa ao longo do pau... aparentemente produz música. Uma espécie de...
Thursday, February 08, 2007
Wednesday, February 07, 2007
Dia -469
Avec Moi, C'est Pareil
Le plus clair de mon temps, je le passe à l'obscurcir, parce que la lumière me gêne.
Boris Vian - L'Écume des Jours
Tuesday, February 06, 2007
Dia -468
I Turned Fourty and I Guess I'm Going Through a Life Crisis or Something
There's an old joke. Uh, two elderly women are at a Catskills mountain resort,
and one of 'em says: "Boy, the food at this place is really terrible."
The other one says, "Yeah, I know, and such ... small portions."
Well, that's essentially how I feel about life. Full of loneliness and misery and suffering and unhappiness, and it's all over much too quickly.
The-the other important joke for me is one that's, uh, usually attributed to Groucho Marx, but I think it appears originally in Freud's wit and its relation to the unconscious. And it goes like this-I'm paraphrasing: Uh ... "I would never wanna belong to any club that would have someone like me for a member."
That's the key joke of my adult life in terms of my relationships with women.
Tsch, you know, lately the strangest things have been going through my mind,
'cause I turned forty, tsch, and I guess I'm going through a life crisis or something,
I don't know.
I, uh ... and I'm not worried about aging.
I'm not one o' those characters, you know.
Although I'm balding slightly on top, that's about the worst you can say about me.
I, uh, I think I'm gonna get better as I get older, you know?
I think I'm gonna be the- the balding virile type, you know, as opposed to say the, uh, distinguished gray, for instance, you know?
'Less I'm neither o' those two. Unless I'm one o' those guys with saliva dribbling out of his mouth who wanders into a cafeteria with a shopping bag screaming about socialism. (Sighing)
Annie and I broke up and I-I still can't get my mind around that. You know,
I-I keep sifting the pieces of the relationship through my mind and-and examining my life and tryin' to figure out where did the screw-up come, you know,
and a year ago we were... tsch, in love.
You know, and-and-and ... And it's funny, I'm not-I'm not a morose type.
I'm not a depressive character.
I-I-I, uh,
(Laughing)
you know, I was a reasonably happy kid, I guess.
I was brought up in Brooklyn during World War II
(...)
Woody Allen - Annie Hall
Sunday, February 04, 2007
Dia -467
Bluuurrrrpppp
É que já não tenho idade.
Mesmo.
Nem personalidade, acrescente-se
(mas isso nunca tive).
Para beber, quero dizer.
Saturday, February 03, 2007
Dia -466
Mi perdo nel tuo sguardo colossale*
O amor. As coisas do amor.
Não deviam ser ditas. Nunca. Noutra língua.
(*frase da canção de Roberto Benigni Quanto ti ho Amato)
Dia -465
Well, I Hope That I Don't Fall in Love With You*
Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue,
Well the music plays and you display
your heart for me to see,I had a beer and now I hear you
calling out for me
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the room is crowded, people everywhere
And I wonder, should I offer you a chair?
Well if you sit down with this old clown,
take that frown and break it,
Before the evening's gone away,
I think that we could make it,
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the night does funny things inside a man
These old tom-cat feelings you don't understand,
Well I turn around to look at you,
you light a cigarette,
I wish I had the guts to bum one,
but we've never met,
And I hope that I don't fall in love with you.
I can see that you are lonesome just like me,
and it being late, you'd like some company,
Well I turn around to look at you,
and you look back at me,
The guy you're with has up and split,
the chair next to you's free,
And I hope that you don't fall in love with me.
Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you,
you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face,
guess I'll have another round
And I think that I just fell in love with you.
(* Emiliana Torrini, whoever she is... encontrada par hasard
a cantar menos mal esta extraordinária letra de Tom Waits.)
Thursday, February 01, 2007
Dia -464
Eu Nunca Guardei Rebanhos*
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro
* Para o Paulo.
Que não sei se conhece este poema, um dos 37 do Guardador de Rebanhos
(e que era a minha bíblia de bolso aos 15 anos),
e que anda preocupado com os pastores que ainda há.
Já não lia este poema há mais de 20 anos.
Embora alguns dos seus versos andem comigo, sempre, para toda a parte.
Vês, Paulo, como os alunos podem ser fontes inesgotáveis de alegria?
Wednesday, January 31, 2007
Dia -463
Mais um semestre que começa...
... com cento e quarenta novos alunos.
Que inesperadas alegrias me trarão estas
(vistas assim, ainda só de relance)
amáveis criaturas?
Momento de Intervalo...
Esta é a Pergunta
«Concorda com a despenalização da interrupção
voluntária da gravidez,
se realizada, por opção da mulher,
nas primeiras 10 semanas,
em estabelecimento de saúde
legalmente autorizado?»
E é com ela que, a partir de hoje e até dia 11 de Fevereiro de 2007,
deixo de escrever sobre a questão do aborto.
Já disse tudo o que penso.
Sou uma mulher.
Não quero que pensem por mim.
Que falem por mim.
Que decidam por mim.
Que me imponham valores por Decreto.
Que me obriguem a ter filhos, se os não quiser.
Obviamente, Eu Voto Sim!
Dia -462
Obviamente, Eu Voto Sim (10)
Porque,
parafraseando o José Manuel Pureza*,
não quero viver num país onde haja prisioneiros de consciência!
(*no programa Prós&Contras, que acabou há pouco, na RTP1
e cujo o tema foi o Referendo de 11 de Fevereiro sobre a despenalização da IVG)
Tuesday, January 30, 2007
Dia -461
Agora, Julguem-me e Depois Prendam-me, Como se Fosse Preciso*
Passei anos, logo a seguir, a transpirar pelas noites fora. Não tinha calor.
Tinha medo. Ou qualquer coisa parecida com o medo. Talvez um medo sem objecto.
Uma espécie de angústia.
Visitavam-me bocados de feto. Pedaços de carne. Picada. Desfeita.
E o sangue a misturar tudo.
Visitavam-me os cabelos louros dos filhos que esperava ter.
E os pezinhos pequenos desses filhos imaginários,
a correr por uma casa qualquer, que seria a minha.
Uns pés pequenos amarrados a uma vozinha também pequena
que haveria, numa casa qualquer que seria minha,
de dizer 'mamã'.
Visitavam-me os cabelos louros misturados com o sangue.
A vozinha perdida na carne desfeita.
Passei anos, logo a seguir a transpirar pelas noites fora.
Visitava-me a angústia. De ter triturado cabelinhos louros.
Carnes tenrinhas. Vozinhas doces. Pezinhos pequenos.
Todos os gritinhos excitados.
Todas as possibilidades de ouvir chamar 'mamã'.
Alguns anos a seguir, a esses anos suados de angústia, visitaram-me de novo, os pequenos pés, as pequenas vozes, os cabelos louros, a covinha atrás, no pescoço, onde se enterra o nariz e sempre, quase sempre, sim, sempre, encontramos o cheiro original de todas as coisas vivas.
Também desta vez todas as coisas acabaram trituradas. Desfeitas. Picadas. Ensanguentadas. Mas como não tinha cometido um crime, não as vi.
Ou não me as mostraram, como manda a decência dos hospitais públicos e a solidariedade com a dor de uma mulher quase-mãe que perde um filho.
Ou a possibilidade de um filho.
Acho que entre uma e outra coisa, se passaram dez anos.
Acho que continuei a desfazer-me em água pelas noites fora.
Até hoje. Agora mesmo. Que falo disto.
Da covinha atrás do pescoço, logo ali onde nascem os cabelinhos louros do meu possível filho.
Essa covinha onde haveria de enterrar o nariz para me certificar do mundo.
Noite após noite, ainda, as coisas que me visitam, anunciam-me que a segunda vez só aconteceu por causa da primeira.
E é assim que cá vou indo.
A desfazer-me, líquida.
Às vezes, penso: 'Vá, agora julguem-me. Agora prendam-me'.
Como se fosse preciso.
*ou Obviamente, Eu Voto Sim (9)
Sunday, January 28, 2007
Saturday, January 27, 2007
Dia -459
O Problema do(a) Papa e a Questão do Aborto
O meu sobrinho emprestado, que tem oito anos e o ouvido atento ao que dizem os adultos quando acham que ele não está a ouvir, teve a seguinte conversa com o pai:
Ele: sabes, pai, estou muito pessimista, acho que o não vai ganhar
O pai: então porquê, filho?
Ele: por causa do papa, que diz às pessoas para votarem não... e o papa tem muita influência nas pessoas não é?
O pai: ?...?
Ele: mas também... quem é que se chama papa? Que nome tão esquisito para um homem... papa... papa é comida de bebés, não é?
Friday, January 26, 2007
Dia -458
Obviamente, Eu Voto Sim (8)
... mas tão cedo não me apanham num jantar como o de ontem.
Dos vários movimentos pelo Sim. Em Coimbra.
Onde falamos uns para os outros. De e para quem já vota sim.
Apesar de a recolha de fundos que tais iniciativas supõem ser importante...
é muito questionável a sua eficácia. Quer na própria recolha de fundos, quer informativa.
Prefiro contribuir, como contribuo com frequência, com dinheiro a troco de nada, por assim dizer*, e ser poupada aos bifinhos com cogumelos subversivos e ao vinho tinto sem qualificação.
E aos discursos e comportamentos de uma certa esquerda
absolutamente monolítica.
E aos desejos de protagonismo de certas ilustres cabeças.
Mesmo que sejam pelo sim, isso não desculpa tudo.
(* além do meu contributo de outros modos: a recolher assinaturas, a colocar cartazes, a escrever crónicas, a escrever nos meus blogs. Pode não ser muito mas pelo menos preservo-me do ruído, da estridência, da militância às vezes quase cega que move certas pessoas. O que pode ser louvável. Mas para mim, não.)
Dia -457
A Carta de Condução...
... chegou hoje pelo correio, num envelope da Loja do Cidadão,
mas sem um nome próprio no remetente.
Acompanhava a minha carta de condução, roubada no sábado
juntamente com todos os meus documentos de identificação,
um papel onde estava escrito à mão:
envio-lhe a sua carta de condução que encontrei perdida
na estação de comboios de Aveiro (nas traseiras).
Anónimo/a um grande bem-haja pela devolução.
Já agora, se vir perdidos por aí
o meu bilhete de identidade,
o meu cartão de eleitor,
o meu cartão de contribuinte,
o livrete e registo de propriedade do meu carro,
o meu cartão da ADSE,
o meu cartão do ACP,
o meu Medeia Card,
o meu cartão do Cineclube de Aveiro,
a carta verde,
o meu cartão de identificação da universidade,
o monte de papéis inúteis que enchiam a minha mandarina duck
e a própria...
e se não lhe der muita maçada...
a morada é a mesma.
Thursday, January 25, 2007
Dia -456
Tadadatatam, tadatadadam
*Le donne odiavano il jazz
non si capisce il motivo
du-dad-du-dad*
Claro que não se compreende o motivo!
*Paolo Conte - Sotto le stelle del jazz
Wednesday, January 24, 2007
Dia -455
Ça Va Mieux, Merci
Com a ajuda de um belo concerto*,
num belo sítio,
com uma companhia muito simpática.
:-)
*refiro-me ao concerto do Brad Mehldau, no Teatro Circo de Braga.
A 24 Brad Mehldau toca no CCB e a 25 em Alcobaça.
A música que ouvem - Anything Goes - adequa-se ao meu melhor estado de espírito,
mas não foi tocada no Teatro Circo
Tuesday, January 23, 2007
Dia -454
Obviamente, Eu Voto Sim (7)
Tanto que arranjei tempo para ir à Junta de Freguesia pedir
uma segunda via do Cartão de Eleitor.
Está pronto na 5ª feira e acho que é o 1º documento
(bom, tinha o passaporte dentro de uma gaveta aqui em casa
e foi durante 1 dia a minha única forma de provar que eu sou eu)
que vou ter.
Monday, January 22, 2007
Dia -453
CSI à Portuguesa, com certeza
Diz-me o senhor agente, após minha inquirição sobre as diligências que costumavam desencadear nestes casos de furto: "oh minha senhora de certeza que o caso está encaminhado, mas sabe que isto toca a todos. A mim roubaram-me a carteira profissional e o casaco da farda, nunca apareceram e ainda por cima tenho um processo disciplinar por causa disso"
Era suposto isto deixar-me mais descansada?
Sunday, January 21, 2007
Dia -452
O Roubo
Vejam lá vocês que foi preciso esperar até aos 40 anos para que me assaltassem.
Ou melhor, roubaram-me a carteira, com todos os documentos e cartões multibanco
e etc e etc, dentro.
Eu que me gabava de nunca ter sido assaltada.
Toma lá! E às seis e meia da tarde!
Já cancelei cartões, Já bloqueei contas...
mas... só de pensar nas longas filas que vou ter de enfrentar para
tratar dos documentos...
(todos! Só me sobrou o passaporte, que estava em casa,
para poder demonstrar que eu sou eu),
...dá-me uma coisa.
Bom, o senhor agente da PSP que me tratou da queixa-crime,
o senhor da Caixa Geral de Depósitos
e a senhora do SIBS
foram muito simpáticos.
Gostava que o senhor ladrão ou a dona ladra tivesse, ao menos,
a decência de me devolver a minha mandarina duck
(que me foi oferecida por uma pessoa especialíssima,
que já morreu)
com os meus documentos lá dentro.
Que vida esta!
Friday, January 19, 2007
Dia -450
Hoje os Parabéns são para a
Mãe
(as vossas mães podem ser excelentes, mas a minha será
sempre, sempre, a melhor)
Wednesday, January 17, 2007
Tuesday, January 16, 2007
Dia -448
Obviamente, Eu Voto Sim (4)
Porque o aborto, na dimensão em que frequentemente se discute em Portugal, é sobretudo uma questão de mulheres sem poder económico. Ninguém se recordará de ver uma mulher rica no banco dos réus por prática de aborto. Essas costumam ir a Espanha ou a Inglaterra.
Ouvimos inúmeras vezes o argumento de que o aborto é uma questão de consciência.
Não discuto. É também uma questão de consciência. Apenas podemos lamentar que a maior parte dos responsáveis políticos se esconda atrás de tal argumento e se recuse a ter um debate sério, digno e claro sobre a questão. Se é uma questão de consciência individual porque se invocam, com tanta frequência, razões de natureza colectiva, relacionadas com o direito, relacionadas com a religião? Se é uma questão de consciência ela coloca-se no plano das escolhas pessoais. Neste sentido é hipócrita continuar a não ter as condições legais que nos permitam, de facto, decidir em consciência. Se é uma questão de consciência porque é criminalizada? Porque sentem vergonha as sete mulheres que estão agora sentadas no banco dos réus? Porque ficam em silêncio quando poderiam argumentar que desconhecemos tudo a seu respeito? Que nenhum de nós, os outros, os que tiveram sorte, sabe quem são estas mulheres?*
(*excerto da primeira crónica que escrevi para O Jornal de Notícias, publicada a 6 de Janeiro de 2004, a propósito do julgamento em Aveiro de sete mulheres por prática de aborto)
Friday, January 12, 2007
Wednesday, January 10, 2007
Dia -442
Obviamente, Eu Voto Sim (1)
(excerto da crónica O Navio e as Ondas, publicada no Jornal de Notícias a 31/8/04 e a propósito da presença em Portugal do navio-clínica do projecto Women on Waves)
Tuesday, January 09, 2007
Minuto de Intervalo... Aliás, Nota de Rodapé Mesmo Muito Pequenina...
... ou agradecimento (último e definitivo) pelas graças recebidas...
ao big brother ortográfico.
Como já agradeci. E o visado pelo agradecimento já leu
(embora certamente não tenha registado o pedido encarecido para que me desampare a loja)
não faço mais publicidade ao dito. Naturalmente.
Dia -441
Ai, já em bebé eras tão gira...
... diz-me, numa sms, o meu sempre simpático amigo Alberto.
Eu respondi-lhe: gira??? Eu, em bebé, era linda!*
O problema foi ter começado a envelhecer.
Eu bem queria ter ficado sempre pequenina.
*E se não acreditam, perguntem à minha mãe, ora essa!
Dia -440
Parabéns...
... A mim, que já fui assim.
Pequenina e tudo.
Na verdade... nestes 40 anos... nunca cresci.
Monday, January 08, 2007
Sunday, January 07, 2007
Thursday, January 04, 2007
Dia -436
Coisas (mesmo mesmo muito) Importantes
Ver o Dr. House, hoje*
(*bom, já sabem que se a vida fosse como as comédias românticas eu e o Hugh Laurie seríamos o casal perfeito)
Wednesday, January 03, 2007
Tuesday, January 02, 2007
Monday, January 01, 2007
Sunday, December 31, 2006
Saturday, December 30, 2006
Dia -430
Babel*
Não sei se é o melhor filme do ano. Mas é um grande filme.
O que se passa em Tóquio.
Sobretudo o que (não) se passa em Tóquio.
É de uma solidão tão desamparada.
Somos pequenos.
E estamos todos tão ligados.
(um filme de Alejandro González Iñárritu, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal, entre outros)
Thursday, December 28, 2006
Dia -429
The Holiday*
Odeio comédias românticas! Bah!
(*título do filme de Nancy Meyers, com Jude Law, Cameron Diaz, Kate Winslet e Jack Black)
Dia -428
Balanço
Dizem-me que a maior parte dos bloggers anda em fase de balanço.
Eu não faço balanços.
Tenho vertigens. E enjoo com frequência.
E além disso... que balanço se pode fazer?
Este ano foi assim... o ano que vem,
mais coisa menos coisa,
há-de ser muito semelhante.
E sinceramente não me importarei nada se assim for.
Friday, December 22, 2006
Thursday, December 21, 2006
Dia -422
Comida
Já se sabe que celebramos tudo com comida.
Já se sabe que nesta quadra os almoços, lanches e jantares são abundantes.
Mas... um almoço, um lanche e um jantar de Natal tudo no mesmo dia... hoje, mais exactamente...
... é um bocadinho exagerado, não?
Wednesday, December 20, 2006
Tuesday, December 19, 2006
Dia -420
Com O Frio Que Está...*
*parece-me que podemos sonhar com um White Christmas
*parece-me que podemos sonhar com um White Christmas
(aqui na voz de Frank Sinatra)
Monday, December 18, 2006
Dia -419
O Teu Aniversário...
Era hoje. Não sei se ainda é.
Quando se morre, continua-se a fazer anos?
Sunday, December 17, 2006
Dia -418
Elisa è una giovane donna portoghese*
Mas sim, o italiano é uma bela língua. Obrigada Pierrde :-)
Wednesday, December 13, 2006
Dia -414
Tuesday, December 12, 2006
Dia -413
Eu Gosto Muito da Época Natalícia*
*so... jingle bells, jingle bells, jingle all the away...
Monday, December 11, 2006
Dia -412
Camadas
Devíamos viver por camadas.
Devíamos morrer juntamente com aqueles que amamos.
Deixava de haver ausência, escuridão, vazio.
Este buraco aqui dentro que nunca se encherá de outra coisa senão tristeza.
Dia -411
Santa Claus Is Coming to Town...
O Pai Natal que há em mim já fez todas as suas compras de Natal.
Ufffffff.
O Pai Natal que há em mim, não sei... mas eu sinto-me aliviada.
Thursday, December 07, 2006
Dia -408
A Grito....
... é o que me apetece.
Exactamente.
Matar cachorro a grito.
Se bem que os desgraçados dos cães não tenham muito a ver com o assunto.
Wednesday, December 06, 2006
Tuesday, December 05, 2006
Dia -406
A Solidão
A solidão não é estarmos sózinhos.
É sentirmo-nos sózinhos.
Enquanto estou só não me incomodo.
Estou. Só.
Mas às vezes sinto-me só.
E é aí que começo a preocupar-me.
Com o futuro da minha solidão e assim.
Monday, December 04, 2006
Thursday, November 30, 2006
Dia -401
Afinal sempre é verdade...
Ela diz-me: ó pá, tu é que podias dar esta 'cadeira', é na tua área, já deste uma semelhante.
Eu respondi: sim, ok é na minha área, mas vou ter 140 alunos de licenciatura no próximo semestre, mais aulas a outros dois mestrados, um dos quais a 200 km daqui, quase todas as sextas e sábados de Março a Maio... como é que eu vou conseguir fazer tudo?
Ela: vá lá, são só 'x' horas, não te vai custar nada a preparar.
Eu: pronto, ok. Eu dou, mas acho que já arranjei sarna para me coçar.
Ela: ó pá, obrigada.... eu ajudo-te a coçar.
Bom, parece que afinal sempre é verdade...
os professores universitários coçam mesmo as costas (e a sarna) uns dos outros.
Wednesday, November 29, 2006
Dia -400
Os Libros Arden Mal*...
... todos os verdadeiros amantes de livros sabem isto e é isto que Manuel Rivas, um dos meus escritores (e poeta e jornalista e galego e tudo) preferidos, nos diz.
Que o fogo não apaga a memória de um (bom) livro.
E também que os livros, quando ardem, desprendem um cheiro a carne humana.
A mim não me surpreende.
Sabe-se que os livros têm muitas vidas dentro.
* título do último romance de Manuel Rivas, que tem como pano de fundo a queima de livros que os fascistas levaram a cabo na Coruña em Agosto de 1936.
Tuesday, November 28, 2006
Dia -399
Coçar as costas ou a incompetência dos professores universitários
Num intervalo entre coçar as costas ao meu colega, professor universitário, mais próximo
e ele coçar as minhas, manifesto a minha perplexidade:
o professor Mariano Gago já não se lembra do que é ser professor universitário?
Do equílibrio (por vezes a raiar o impossível)
entre as funções docentes, a investigação e as tarefas de gestão?
Já não se recorda do que é ter 25 horas lectivas atribuídas
(quando o ECDU prevê apenas 18) anualmente*?
Do tempo que essas 25 horas demoram a preparar?
Do que é ter 300 alunos, procurando que cada um deles adquira competências fundamentais e que seja avaliado justamente?
Do que é ser Director de uma Licenciatura?
Do que é ser Presidente de um Conselho Directivo?
Coordenador Científico? Coordenador Pedagógico?
Das horas necessárias em reuniões dos diversos orgãos
(Comissões Científicas, Comissões Pedagógicas, Senado, Assembleia de Representantes, Conselho Científico, Conselho Pedagógico)
que permitem às Universidades funcionarem de forma democrática e transparente?
Já não se recorda das horas dedicadas ao estudo? Ao trabalho de campo? Aos laboratórios?
Já não se lembra da dificuldade que há em gerir orçamentos
sempre mais pequenos do que as necessidades a serem supridas?
O Professor Mariano Gago, enquanto professor universitário deve ter passado muitas horas a coçar qualquer coisa, se já se esqueceu de tudo isto ou então, as suas passagens pelo governo foram o passaporte para um outro país que não é o meu.
(talvez para a quinta dimensão, a avaliar pela irrealidade das suas palavras)
Eu às vezes coço as costas, é certo,
mas entre as aulas de licenciatura, de mestrado, a orientação de teses, os projectos de investigação e as tarefas de gestão que tenho atribuídas...
em conjunto com os parcos recursos financeiros e humanos disponíveis no meu departamento e na minha universidade...
não admira que sofra de alergias várias.
Incompetência não é o nome de nenhuma delas.
* melhor dizendo, 12,5h/semana por semestre, quando o ECDU não prevê mais de 9h/s/s
Monday, November 27, 2006
Dia -398
Eu vou nascer feliz numa cidade futura*...
Radiograma
Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar
Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar
Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar
Mário Cesariny
* frase de outro poema de Mário Cesariny - O Jovem Mágico
Sunday, November 26, 2006
Dia -397
Faz-me o Favor
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu.
Não digas nada.
Sê Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny (1923 - 2006)
O poeta morre. A poesia não.
Friday, November 24, 2006
Dia -395
Ser ou não ser?
Eu digo muitas vezes que me falta um bocadinho assim para ser lésbica.
Acho as mulheres, em geral, melhores seres humanos que os homens.
Muito mais interessantes.
E até mais giras.
Na verdade, não sei se me falta ou não me falta o tal bocadinho... e não sei
provavelmente porque, apesar de já me ter apaixonado por algumas mulheres,
nunca aconteceu sentir por elas qualquer desejo carnal.
Se um dia sentir... acho que não negarei esse sentimento.
Deve ser um sentimento como qualquer outro não?
Dia -394
Probably I Am Not So Straight As I Thought*



Scarlett Johansson
A beleza, seja do que seja e de quem seja,
é uma coisa que deve ser apreciada.
(*ou de como, por exemplo, esta moça se quisesse poderia pôr em causa
a minha orientação sexual)
(isto a propósito de um comentário da Vanessa, ao post anterior)
Wednesday, November 22, 2006
Dia -393

A mim, honestamente, tanto me faz nu ou vestido. Mas nestas fotografias faz-lhe falta a barba de 3 ou 4 dias para lhe dar aquele aspecto verdadeiramente 'tortuoso' que faria do maybe, baby um of course I am ready, baby, for everything you want to do with me.
Mas, com ou sem barba, o Hugh Laurie merece toda a nossa devoção naturalmente.
* Imagens do filme Maybe Baby em que há um monte de cenas de sexo, para os mais libidinosos, mas onde não há um nu frontal do Hugh. Temos pena. Muita pena.
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