Thursday, March 22, 2007

Momento de Intervalo...

... no dia mundial da poesia, eis o poema*
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamentode alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espadas
e perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor? eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo
-eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de tique me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamentea nossa vida.
As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável
-em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder - O Amor em Visita
*Não sei se foi em Março que me disseram este poema.
Era uma ideia que eu tinha. Por gostar tanto destas palavras.
Que um homem, consigo todo, me dissesse isto.
E tu disseste, J.
Sim, talvez tu sejas um dos homens da minha vida.
Por isto e por outras coisas.
Mas, mesmo que não tenha sido em Março... foi em Março que nos conhecemos e ora aqui está uma outra coisa deste mês,
com poesia dentro e tudo, que vale a pena guardar.

Dia -512

A Importância da Informação*

*ou Mafalda, a minha heroína de sempre.

como a tira se vê mal aí vai:

Pai, olhando para a flor mirrada: esta não floriu, foi regada, apanhou luz, adubo... Não sei o que lhe terá faltado

o resto vê-se bem

Wednesday, March 21, 2007

Dia -511

Outras coisas acontecidas em Março e que vale a pena recordar...
(ou se fosse há um ano era mais ou menos assim que eu começava a sentir-me)

Mad about the boy
I know it's stupid to be mad about the boy
I'm so ashamed of it but must admit the sleepless nights I've had
About the boy
On the silverscreen
He melts my foolish heart in every single scene
Although I'm quite aware that here and there are traces of the cad
About the boy
Lord knows I'm not a fool girl
I really shouldn't care
Lord knows I'm not a school girl
In the fury of her first affair
Will it ever cloy
This odd diversity of misery and joy
I'm feeling quite insane and young again
And all because I'm mad about the boy
So if I could employ
A little magic that will finally destroy
This dream that pains me and enchains me
But I can't because
I'm mad...I'm mad about the boy
(Dinah Washington canta esta letra de Noel Coward)

Tuesday, March 20, 2007

Dia -510

E quem é o pai mais lindo do mundo, quem é?
É o meu, pois claro!

Monday, March 19, 2007

Dia -509

Quem é o menino mai lindo da sua tia, quem é?*
Não há só coisas desagradáveis. Em Março. Num dia como hoje.
Com o mesmo anúncio de Primavera. Nasceste tu.
O menino mai lindo da sua tia emprestada.
Parabéns, miúdo!
*Daqui a um ano ou dois já não vais gostar que eu te diga estas coisas, muito acriançadas, por isso há que aproveitar agora.

Saturday, March 17, 2007

Dia -508

Camarada
Uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa.
Lamentavelmente, usamo-la pouco.
(Post-scriptum (se escrevesse só PS provocar-me-ia uma severa urticária) -
já não estou com a neura.
Subi o Marão, desci o Marão e a beleza que ainda há, a imponência dos montes, devolveu-me à minha insignificância)

Dia -507

Ando(amos) a precisar de uma Revolução, caraças!*


E de pessoas bonitas, como esta.

E esta música... andava a precisar de ouvir esta música.

Vienes quemando la brisa

con soles de primavera

para plantar la bandera

con la luz de tu sonrisa.

(extracto(zinho) de Hasta Siempre, de Carlos Puebla)

Ou, numa versão muito mais agressiva (ou revolucionária ou irónica ou lá o que é)


*Ou de como, quando estou com a neura, se acentuam as minhas tendências políticas.

Thursday, March 15, 2007

Dia -506

Dói-me qualquer coisa (acho que é o ombro direito)
O mundo pesa mesmo horrores.
Estou farta desta merda toda.
(Não sei dizer bem que merda é mas, assim mesmo, estou farta).
Construam-me uma casa em Galway, com vista para a Innismore.
Um alpendre onde sentir a chuva e observar os maravilhosos dias nublados.
Tragam todos os livros que quero ler.
Todos os meus Cd's.
Uma cadeira de balouço.
Uma mantinha.
Um cházinho de maçã com canela.
E fechem-me a porta.
Podem deitar fora a chave.
E não, não quero visitas*
*abro uma excepção para os meus pais. E outra para uma certa pessoa que, coitada, sem saber, tem contribuído bastante para que eu esteja farta desta merda toda

Wednesday, March 14, 2007

Dia -505

Evidentemente*
Mieux vaudrait apprendre à faire l'amour correctement
que de s'abrutir sur un livre d'histoire.
Boris Vian - L'Herbe Rouge
*Bom... talvez nem tanto ao amor, nem tanto aos livros de história.

Dia -504

Mensagem
(para uma pessoa que nunca saberá quem é e fica triste com isso, não sei porquê)
Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisas como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes.
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar.
E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua
idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade onde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
ó portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor olor a campo
praia que só existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste.
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive.
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já.
Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa
o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia.
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira.
Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundol
á quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo.
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer.
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia.
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada.
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral .
Ruy Belo - Odeio este tempo detergente

Tuesday, March 13, 2007

Dia -503

Half Nelson*



Provavelmente o melhor filme que vi nos últimos três ou quatro anos.
Absolutamente arrebatador.
De baixíssimo orçamento, pois claro.
Mas isso, como fica muitas vezes demonstrado (incluindo esta),
não interessa mesmo nada.
O facto de ter arrebatado um conjunto impressionante de prémios
e de ter sido nomeado para muitos outros
(incluindo o Oscar para melhor actor principal)
não tem, naturalmente, grande importância,
mas talvez queira dizer alguma coisa.
O protagonista é este rapazinho da fotografia
Um excelente(íssimo) actor.
E giro que se farta.
Espero vê-lo, num cinema perto de mim,
a desempenhar outros papeis fabulosos como este.
* O realizador é Ryan Fleck. E a interpretação da Shareeka Epps também é absolutamente magnífica.

Monday, March 12, 2007

Dia -502

Hoje venho apenas dizer(me) que morreste.

Sunday, March 11, 2007

Dia -501

Última Tentação

E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção.
Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustração.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
Mário Henrique Leiria

Saturday, March 10, 2007

Dia -500

Há muito mais de quinhentos dias
que sou de um país diferente do vosso, de um outro bairro,
de uma outra solidão*

Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J'attends des mutants. Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais...

la solitude...

Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n'avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour. Et...

la solitude...

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant...

la solitude...

Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur", les mots que vous employez n'étant plus " les mots" mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais...

la solitude...

Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.

Leo Ferré - La Solitude
*mas, no entanto, somos todos daqui. Do mesmo sítio.
Uma tradução muito imperfeita pode ser encontrada nos comentários.

Friday, March 09, 2007

Dia -499

O mundo é cada vez maior. As mulheres continuam (in)visíveis*
Imaginemos um mundo pequenino.
Um mundo com apenas 1000 pessoas.
Num mundo assim, passar-se-ia qualquer coisa como isto:
500 destas pessoas seriam mulheres;
Na verdade, poderiam ser 510, não fosse a prática do aborto selectivo
(corrente em países como a China ou a Índia)
ou a ausência de cuidados médicos adequados;
167 seriam espancadas ou expostas a qualquer outra forma de violência durante a sua vida;
100 destas mulheres teriam sido vítimas de violação ou de tentativa de violação.
Agora imaginem um mundo grande.
Como aquele em que vivemos.
Um mundo com 6 301 464 000 pessoas, das quais 3 132 342 000** são mulheres
e multipliquem.
Neste dia em vez de oferecerem flores às mulheres que conhecem
e que, estou certa, não são vítimas de nenhuma forma de violência...
façam mais qualquer coisa pelas mulheres que não conhecem.
Por aquelas que são vítimas de discriminação, de repressão, de violentações várias.
Porque é preciso lembrar, ao menos neste dia,
que sob qualquer das suas formas, a violência contra as mulheres
é ainda a mais frequente violação dos direitos humanos no mundo.
E se não acreditam nisto.
E se acham que o dia 8 de Março
é apenas um dia para oferecer flores,
carreguem aqui.
Adenda após reflexão: vejam e ouçam isto.
Os corações morrem de fome como os corpos;
dai-nos pão, mas dai-nos rosas
(James Oppenheim - Bread and Roses)
*Mulheres (In)Visíveis é o título de um Relatório acerca da violência sobre as mulheres, da Amnistia Internacional - Portugal.
** Dados da Organização das Nações Unidas

Thursday, March 08, 2007

Dia -498

Os Alunos, essas fontes inesgotáveis de alegria (III)
O miúdo tem um ar meio despassarado.
Um ar bastante invulgar, até.
Não sei se presta atenção às aulas ou não
(eles são sempre mais de cem no anfiteatro).
Mas hoje escreveu-me um email
que me deixou reconciliada com os miúdos todos.
Escreveu-me a dizer que tinha encontrado um artigo assim e assim
que talvez pudesse ser útil a algum colega
que estivesse a trabalhar sobre um tema relacionado.
Vocês podem achar normal.
Mas eu garanto que actualmente o gesto é tão invulgar
como o ar do miúdo em questão.

Wednesday, March 07, 2007

Dia -497

Be Aware of The Shark
(Specially when it's dead)
A relationship, I think, is like a shark.
You know? It has to constantly move forward or it dies.
And I think what we got on our hands is a dead shark.
(Woody Allen - Annie Hall)

Tuesday, March 06, 2007

Dia -496

O
pior
não é
isto.
O
que se diz.
O
pior
é
o
que não pode
ser
dito.

Monday, March 05, 2007

Dia -495

Ene
vezes.
Quando acaba a memória
e
começa o esquecimento?

Sunday, March 04, 2007

Dia -494

U
Ser, talvez, como tu.
Decidir.
E não pensar.
Nunca mais.
Em nada.

Friday, March 02, 2007

Dia -493

N
O que eu pensei foi
preciso de um abraço
hoje preciso de um abraço teu
um abraço desses de estar em casa
ou um abraço dos outros
daqueles de apanhar um comboio para um país distante
sem nada levar como bagagem
hoje preciso de um abraço teu.
Mas o que fiz
foi meter-me num cinema
para não perceber
que os teus abraços
esses
e
aqueles
ou seja
os únicos de que alguma vez precisei
levaste-os tu
para o único lugar onde não irei procurar-te.
Mas, sim, gostei do filme.

Dia -492

Pois Claro
(a nacionalidade de uma pessoa, nota-se, aliás, é mesmo nestas coisas miudinhas)
Diz-me o M.:
és tão exagerada como as espanholas.
Olé!

Thursday, March 01, 2007

Dia -491

Isto é capaz de ser mau sinal
Ultimamente tenho dado por mim a cantar
a plenos pulmões enquanto conduzo.
Seja a distância longa ou curta.
As canções que canto?
É melhor não quererem saber.

Wednesday, February 28, 2007

Dia -490

Manias
A mania que na cama nascem amores profundos só porque um gajo está deitado.
(A frase não é minha que, sendo gaja, já perdi estas manias há uns tempos.
É do J. que, não sendo gaja, ainda lida com estas manias)
Adenda: mas podem nascer amores profundos na cama...
deitados ou noutra qualquer posição.
Os amores profundos podem nascer em qualquer parte.
E a cama é um lugar tão bom como qualquer outro. Hum... talvez ainda melhor.

Tuesday, February 27, 2007

Dia -489

I am a little bit depressed
São 5:17 da madrugada e eu estou um bocadinho deprimida.
Com os óscares.
A cerimónia foi a melhor dos últimos anos.
4 horas e nem se deu por elas.
Mas... só dois dos meus candidatos ganharam e...
pior... Departed ganhou o óscar para o melhor filme.
Hum... porquê? Nem sequer é um grande filme!
Só me senti assim no ano em que não deram o óscar à Emily Watson
pelo seu enorme papel em Breaking the Waves, de Lars Von Trier.

Parafraseando o Calimero: it's an injustice, it is!

Monday, February 26, 2007

Dia -488

Os Dias Perfeitos...
... são dias como hoje.
Levantei-me com sol. Tomei o pequeno almoço na varanda.
Havia vento. Mas a ria estava azul. Uma cor conveniente a um dia perfeito.
A seguir li um bocadinho do Kafka à Beira Mar
do magnífico Haruki Murakami,
como gosto de ler, aos domingos, deitada na cama.
Depois fui ao cinema, como gosto de ir aos domingos
(bom, na verdade, gosto de ir ao cinema todos os dias da semana)
e pude ver uma interpretação absolutamente brilhante
do (tão velho) Peter O'Toole
em Venus, um extraordinário filme de Roger Michell.
Não admira que seja extraordinário.
Foi escrito por um dos meus escritores preferidos
na literatura inglesa contemporânea: Hanif Kureishi.
A seguir a uma francesinha e umas cervejas em boa companhia,
fui à Casa da Música ver o excelente
(e também tão velho) McCoy Tyner.
Finalmente, voltei a casa.
Deitei-me no sofá e vi toda a cerimónia dos óscares.
Foi a melhor dos últimos anos.
Sim, eu sei, uma mulher não merece ter dias assim tão perfeitos.
Deve ser por isso que são tão raros.

Sunday, February 25, 2007

Dia -487

Os Óscares
Por mim, the oscar goes to:
Melhor Filme: Letters From Iwo Jima
(embora se ganhar o Babel também ache bem)
Melhor Realizador: Alejandro Gonzales Iñárritu (por Babel)
(embora se ganhar o Clint Eastwood também não me importe)
Melhor Actor: Forest Whitaker (em The Last King Of Scotland)
(aqui não há nada a fazer: ou dão o óscar ao Forest Whitaker ou... ou... bah)
Melhor Actriz: Helen Mirren (em The Queen)
(não vi ainda o Notes on a Scandal, pelo que não sei a Judy Dench vai melhor que a minha eleita)
Melhor Actor Secundário: Djimon Hounsou (em Blood Diamond)
(tal como com o Forest Whitaker, neste caso também não há nada a fazer... tem de ser para ele)
Melhor Actriz Secundária: Rinko Kikuchi (em Babel)
(brilhante, mas não vi a Cate Blanchett em Notes on a Scandal nem a Jennifer Hudson em Dreamgirls... pelo que... não sei)
Melhor Argumento Original: Iris Yamashita e Paul Haggis por Letters From Iwo Jima
(ok, o Guillermo Arriaga por Babel também pode ganhar)
Melhor Argumento Adaptado: Todd Field e Tom Perrotta por Little Children
(bom, também pode ser Alfonso Cuarón e Timothy J. Sexton por Children of Men)
Melhor Fotografia: Children of Men
(no doubts)
E pronto. As outras categorias... não sei bem.
Mas sei que amanhã, depois de um (espero que) magnífico concerto do McCoy Tyner na Casa da Música,
vou ficar acordada até às tantas a ver se os meus favoritos levam o óscar para casa.

Friday, February 23, 2007

Momento de Intervalo...

Nunca mais te hás-de calar ó Zeca*
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança
a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância
e a palavra medo.
A cidade é um saco
um pulmão que respira
pela palavra água
pela palavra brisa.
A cidade é um poro
um corpo que transpira
pela palavra sangue
pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos **/ Zeca Afonso - A Cidade

* José Mário Branco - Carta ao Zeca

** Obrigada Alberto, pela correção.

Dia -486

Precisamente
É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre... em toda a parte...
H. Pratt - A Balada do Mar Salgado
(ou de com um blog me lembrou que devia reler Corto Maltese)

Thursday, February 22, 2007

Dia -485

O Meu Pai...
... é o homem mais bonito que conheço
... tem o cabelo branco mais lindo do mundo
... o olhar mais inteligente e meigo do universo
... sabe fazer tudo
... ensina-me muitas coisas
... telefona-me para me lembrar coisas comezinhas que, se não fosse ele, de certeza, me esqueciam
... gosta de pássaros
... gosta de gatos
... gosta de palavras e compreende-as todas muito bem
... nunca me ralhou
... gosta de árvores e já plantou muitas
... gosta de arranjar coisas
... gosta de ver crescer as coisas
... dá-me conselhos
... andou comigo ao colo e dá-me beijos e abraços
... faz um grande sorriso quando lhe dizem que eu sou a menina do papá
... acha mesmo que eu sou a menina do papá
... e eu estou de acordo porque não imagino coisa melhor para se ser.
O meu pai hoje faz anos.
Muitos Parabéns Pai!

Dia -484

Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.
Adélia Prado - Tempo

Wednesday, February 21, 2007

Dia -483

Japoneses, Como Nós
Letters from Iwo Jima é um filme imperdível*.
Sim, estamos todos fartos de filmes sobre a II Guerra Mundial.
Mas este é um filme que dá rostos, emoções, vidas,
a um dos lados da guerra que nos habituamos a ver
como a natureza de todo o mal,
no cinema sobre este período.
Aqui não. Aqui são japoneses.
Como nós.
Exactamente.
Como nós.
*Aconselho a ver primeiro o Lado A deste épico de Clint Eastwood
(um realizador demasiado humano, como sempre) - Flags of Our Fathers.

Tuesday, February 20, 2007

Dia -482

Tenho 40 anos e dois meses...
... e a minha mãe ainda me chama meu amorzinho pequenino.
E o melhor é que eu gosto!

Monday, February 19, 2007

Dia -481

Die Große Stille*
Um homem pode decidir
ser feliz
sozinho
e em silêncio.**
(* ou O Grande Silêncio, um filme de Philip Gröning sobre os monges cartuxos num mosteiro em França)
(** e isto, mais ou menos assim, foi o que disse o Fernando Alves, no fim de uma reportagem da TSF sobre os monges cartuxos em Portugal, no dia 16/2, intitulada O Lugar dos Homens que Não Falam)

Sunday, February 18, 2007

Dia -480

Ideias ou lá o que é
As ideias fazem-me mal.
A sério.
Sinto-me um bocadinho desencontrada.

Saturday, February 17, 2007

Dia -479

Só isto é verdade
O epicentro dos grandes terramotos
encontra-se na extrema mansidão
com que caminhas
a uma certa luz da tarde
e alheio
destróis os desertos
que levei anos
a esboçar.

Friday, February 16, 2007

Dia -478

Obrigada*



Amy Winehouse - Love is a Loosing Game

*Depois de ouvir atentamente esta é a minha favorita. A voz desta moça é profundamente interessante.

Thursday, February 15, 2007

Dia -477

E a Extrema Inutilidade das Comemorações Estúpidas
Como a deste dia...
como se namorar tivesse data marcada. A ser celebrada.
Ou melhor, como se o amor (essa treta!)
não fosse já celebração bastante.

Tuesday, February 13, 2007

Dia -476

A Extrema Utilidade das Perguntas Estúpidas
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe
se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto.
Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
(Mário Henrique Leiria - Telefonema)

Monday, February 12, 2007

Dia -475

A Terra Tremeu...
... e eu acordei, com o estremecimento da cama e pensei
'mas que raio... porque é que estou a tremer?'
Eram 10:38.
Muito cedo, para os meus hábitos.
Deixei-me ficar debaixo do edredon muito sossegada,
um pouco como a nêspera do Mário Henrique Leiria...
a ver o que acontecia...
até que percebi...
... a terra tremeu, em Portugal
(5,8 na escala de Richter)
mas foi de satisfação, claro.
(e acrescento que me levantei passado um bocado e que quando saí para a rua, as coisas todas, as pessoas todas, me pareceram... exactamente assim, mais sacudidas, com menos pó nas entrelinhas...)

Sunday, February 11, 2007

Dia -474

Hoje, os meus pensamentos são contentes
SIM
finalmente!

Dia -473

Reticências
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner
(o poema não se chama reticências. Chama-se Terror de te amar)

Saturday, February 10, 2007

Momento de Intervalo...


... Ou Aqueles que Amam as Palavras, Fazem a Mesma Viagem, Quase Sempre

Obrigada Alexandre


por teres colocado num texto absolutamente belo todas as palavras que amo.


para a Elisa
Estive longos minutos sentado na cadeira sem que qualquer palavra surgisse
(e agora que penso melhor, os minutos são uma porção significativa de tempo quando as palavras não se dignam a estar presentes, e por isso minutos longos como quem conta todos os crepúsculos da manhã e da tarde, como quem vai sobrando à conta dos dias, distanciando-se com a boca calada e meneando a cabeça à descoberta de)
de coisas mundanas como os autocarros que passam aqui em frente a horas tardias, levando uma duas pessoas, aconchegadas no colo da noite perdidas sabe-se lá em que boca calada, meneando a cabeça à descoberta das palavras certas, e nenhuma que surgisse, de modo que eu
(provavelmente todos os segundos o mais demorado beijo, uma tarde de amor, uma viagem)
de autocarro fechado no colo da noite a querer lembrar-me de ti sem encontrar resposta para a teimosia das palavras ausentes durante tanto tempo
(fazendo das horas meses, o sol e a chuva, e a lua, tudo isso, quando vejo uma ou duas pessoas dentro dos autocarros a horas tardias, com as coisas pequenas meneando a cabeça dentro do colo da noite, de modo que eu)
deixo-me ficar sentadinho na cadeira como um traste velho à espera de todos os fins, são longos minutos que me faltam, não são uma duas pessoas que passam dentro do colo da noite pestanejando autocarros a horas tardias
(como se um demorado beijo, e as tardes de amor contadas pelos dedos a jurar que)
um dia serias tu, mas nada disso, quando digo que são uma duas pessoas aconchegadas às palavras sem dizer, só a ti te vejo, posso mesmo jurar que és tu dentro do autocarro levado no colo da noite, que são apenas minutos
(e pensando bem, minutos é uma maneira de dizer que uma porção significativa de crepúsculos esperando a tua saída, mas o sonho que tenho é sempre a mesma volta, com a mesma ambiguidade de que se faz a vida que vivemos sem percebermos que ao olhar para trás são dunas)
dunas de segundos pelo mais demorado beijo, uma tarde de amor. Sempre a mesma viagem.

Friday, February 09, 2007

Dia -472

Regresso aos Posts Absolutamente Profundos




















Hugh Laurie

Digam lá, mas assim mesmo honestamente...
não merecerei eu:
- os olhos azuis,
- a barba mal feita,
- o cabelo em desalinho,
- as olheiras fundas,
- a camisa escrupulosamente branca e
- a personalidade cáustica e indomável do Dr. House*???
É que eu, assim mesmo honestamente acho que menos não mereço.

(*sim, provavelmente o tipo mais interessante do mundo)

Dia -471

Do que eu gostei mais foi daquele instrumento a que eles chamam Contrabacia**, mas o resto também é muito... hum... original?*
*Pelo menos... divertido foi, sem qualquer dúvida.
Uma mistura de Kusturica com Almodovar ou... sei lá eu bem.
Chamam-se O'queStrada
** Contrabacia - um pau de vassoura enterrado numa bacia de plástico, com uma espécie de corda da roupa ao longo do pau... aparentemente produz música. Uma espécie de...

Thursday, February 08, 2007

Dia -470

Я тупоумн
e, parecendo que não, isso explica muita coisa.

Wednesday, February 07, 2007

Dia -469

Avec Moi, C'est Pareil
Le plus clair de mon temps, je le passe à l'obscurcir, parce que la lumière me gêne.
Boris Vian - L'Écume des Jours

Tuesday, February 06, 2007

Dia -468

I Turned Fourty and I Guess I'm Going Through a Life Crisis or Something


There's an old joke. Uh, two elderly women are at a Catskills mountain resort,
and one of 'em says: "Boy, the food at this place is really terrible."
The other one says, "Yeah, I know, and such ... small portions."
Well, that's essentially how I feel about life. Full of loneliness and misery and suffering and unhappiness, and it's all over much too quickly.
The-the other important joke for me is one that's, uh, usually attributed to Groucho Marx, but I think it appears originally in Freud's wit and its relation to the unconscious. And it goes like this-I'm paraphrasing: Uh ... "I would never wanna belong to any club that would have someone like me for a member."
That's the key joke of my adult life in terms of my relationships with women.
Tsch, you know, lately the strangest things have been going through my mind,
'cause I turned forty, tsch, and I guess I'm going through a life crisis or something,
I don't know.
I, uh ... and I'm not worried about aging.
I'm not one o' those characters, you know.
Although I'm balding slightly on top, that's about the worst you can say about me.
I, uh, I think I'm gonna get better as I get older, you know?
I think I'm gonna be the- the balding virile type, you know, as opposed to say the, uh, distinguished gray, for instance, you know?
'Less I'm neither o' those two. Unless I'm one o' those guys with saliva dribbling out of his mouth who wanders into a cafeteria with a shopping bag screaming about socialism. (Sighing)
Annie and I broke up and I-I still can't get my mind around that. You know,
I-I keep sifting the pieces of the relationship through my mind and-and examining my life and tryin' to figure out where did the screw-up come, you know,
and a year ago we were... tsch, in love.
You know, and-and-and ... And it's funny, I'm not-I'm not a morose type.
I'm not a depressive character.
I-I-I, uh,
(Laughing)
you know, I was a reasonably happy kid, I guess.
I was brought up in Brooklyn during World War II
(...)
Woody Allen - Annie Hall

Sunday, February 04, 2007

Dia -467

Bluuurrrrpppp
É que já não tenho idade.
Mesmo.
Nem personalidade, acrescente-se
(mas isso nunca tive).
Para beber, quero dizer.

Saturday, February 03, 2007

Dia -466

Mi perdo nel tuo sguardo colossale*
O amor. As coisas do amor.
Não deviam ser ditas. Nunca. Noutra língua.
(*frase da canção de Roberto Benigni Quanto ti ho Amato)

Dia -465

Well, I Hope That I Don't Fall in Love With You*
Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue,
Well the music plays and you display
your heart for me to see,I had a beer and now I hear you
calling out for me
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the room is crowded, people everywhere
And I wonder, should I offer you a chair?
Well if you sit down with this old clown,
take that frown and break it,
Before the evening's gone away,
I think that we could make it,
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the night does funny things inside a man
These old tom-cat feelings you don't understand,
Well I turn around to look at you,
you light a cigarette,
I wish I had the guts to bum one,
but we've never met,
And I hope that I don't fall in love with you.
I can see that you are lonesome just like me,
and it being late, you'd like some company,
Well I turn around to look at you,
and you look back at me,
The guy you're with has up and split,
the chair next to you's free,
And I hope that you don't fall in love with me.
Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you,
you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face,
guess I'll have another round
And I think that I just fell in love with you.
(* Emiliana Torrini, whoever she is... encontrada par hasard
a cantar menos mal esta extraordinária letra de Tom Waits.)

Thursday, February 01, 2007

Dia -464

Eu Nunca Guardei Rebanhos*
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro
* Para o Paulo.
Que não sei se conhece este poema, um dos 37 do Guardador de Rebanhos
(e que era a minha bíblia de bolso aos 15 anos),
e que anda preocupado com os pastores que ainda há.
Já não lia este poema há mais de 20 anos.
Embora alguns dos seus versos andem comigo, sempre, para toda a parte.
Vês, Paulo, como os alunos podem ser fontes inesgotáveis de alegria?