Podia ser de qualquer parte, mas aconteceu ter nascido em Lisboa.
Que não é a cidade mais bonita do mundo.
Ou talvez seja.
Vivo em Aveiro há muitos anos, numa rua que é não é minha
mas da senhora da alegria.
E isto é tão bonito como, ao fundo, a ria.
Trabalho na Universidade mais dinâmica do país.
Na mais bonita também.
E tenho orgulho.
Naturalmente.
Aparte isto tenho alguns gostos e outros tantos não-gostos.
E todos os sonhos do mundo**.
E a convicção de que o que é preciso é dar lugar aos pássaros nas ruas da cidade**.
Gosto do Inverno.
De castanheiros.
De gatos.
De um lugar chamado Cova da Lua, em Montesinho.
De mais uns quantos lugares do mundo que conheço
e de algumas pessoas que nunca chegarei a conhecer completamente.
Gosto de honestidade.
De literatura.
De jazz.
De poesia.
De certas palavras
e de algumas línguas.
De ensinar.
De aprender.
Gosto de fazer peoplespotting.
De cinema.
De pintura.
De política.
Da inteligência.
Do riso.
E da beleza que vai, um dia, dominar tudo.
Não gosto da estupidez.
Da fraca memória.
Da intolerância.
Não gosto das segundas intenções
e do pó nas entrelinhas.
Não gosto de quem não se ri de si mesmo.
Dos espaços desordenados.
Da literatura light.
Não gosto da caridadezinha.
Da música pimba.
Da violência.
De quem diz que não tem tempo
para ver um pôr-do-sol ou olhar para as estrelas.
Não gosto da crueldade.
Da pressa.
E da maior parte dos políticos portugueses.
Poderia ter sido outra pessoa.
Com outros gostos e não gostos.
Ainda poderei ser outra pessoa.
Mas hoje sou isto.
Tenho fotografias melhores.
Mas menos verdadeiras.
Tenho 41 anos.
Aconteceu-me uma vez uma grande dor.
Nos outros dias bastou-me ouvir o vento.
* foi coincidência o post ser no dia -801.
** frases, respectivamente de Álvaro de Campos e de Ruy Belo
