Monday, February 04, 2008

Dia -828

Quando eu morrer...

não façam nada de especial, por favor. Mas há só duas coisas. Três na verdade. Que eu gostaria que me fizessem.


Reduzam o meu pobre corpo a cinzas.


Coloquem-nas sob os pés de um castanheiro


(pode ser aquele, aberto ao meio por um raio, mas que permanece vivo).


Digam este poema.


Depois deixem-me correr na seiva da árvore.


É tudo.

Despeço-me da Terra da Alegria

Os pássaros da noite povoavam
as tílias desta minha solidão
O juízo severo dos seus olhos
de olhar onde cabia o pensamento
a luz e a sombra de uma geração
precariamente iluminavam uma alma
que punha a salvação no mais profundo sono
Um castanheiro filho descuidado do meio-dia
de uma ramagem lenta e ondulante
sorria com sorrisos litorais
em um jardim em flor do meu desejo
Homenageio aquela primavera
primeira primavera da amizade
Tudo era pensamento para ele mesmo até
caminhos que não levam a qualquer
parte sabida ou sequer desconhecida
Belo país da arte eu te saúdo
as imagens levantam-se no ar
e um mundo litúrgico somente imaginado repovoa
as sendas dos amantes verdadeiros
onde as palavras só vinham depois
Põe a tua mão perto de mim sob os
lobos de pedra em cada capitel
Oceanos de olvido na memória
esse país longínquo donde venho
nuvem de vida sobre a minha morte
Apaga o tempo de uma má reputação
anos de inquietação de espanto de vergonha
estrela da minha infância ergue-te de novo
tu que eras para mim o sol e a lua
deslumbrante manhã da existência
País onde me leva o meu apelo
sonhos de dua sonhos de mulher
o gosto do açúcar e do sal
uns olhares de sombra e de mistério
o sentido e o símbolo dos sonhos
Os peixes negros e dourados das recordações
olhos brilhantes de animais desconhecidos
pequeníssimas flores da memória
relâmpago dourado do olhar
Os cheiros acres das redondas cavidades
alguma boca de ouro de onde voam as palavras
animadas figuras do meu sonho
abismo de ameaça nalguns olhos
regiões insondáveis e inacessíveis
o espanto provocado pelo crime
libertação total e harmonia
a superfície lúcida dos sonhos
os rostos múltiplos trazidos num momento
palavras luminosas para mim
O que dirá de mim o castanheiro do outono
a estação do que passa e se desfaz
Esqueci a minha infância e não sei nada
Estou à sombra e espero alguém virá
sombria melodia do meio-dia o perfume dos campos cavalgados
na quente luz do dia em que eu vivia
Alguém me chegará desse distante bosque
onde eu errei a minha juventude
nas formas levemente tacteadas pelos dedos
Não me demoro em sítio algum
já nada significam as palavras
neste deserto onde vigilo e estou desperto
terrivelmente só dentro da noite
Ali no silêncio profundo da floresta
ao teu singular odor de singular mulher
crucifiquei a minha juventude
A vida tem aspectos criminosos como
a subida da chama silenciosa
na haste da mulher que se procure
Não há nenhum regresso nos meus passos
a lua era outra lua de hora a hora
a natureza espera-me faz-me sofrer
troncos incendiados no outono
depois adormecidos no inverno
o aspecto humano de uma terra cultivada
Melodia da voz que abre os corações
pássaro disparado pelos ares
a gratidão que segue a solidão
tudo aquilo era belo e era bom
sabia a alimentos e a paz
a homens a calor a infância e lar
Ela trazia amor nas suas mãos
Sorri sofri a noite era já negra
o amor é coisa débil fugitiva
onde não cabem coisas sedentárias
Agora arrebatado e empreendedor
ingénuo como um jovem mas depois iniciado
e requintado e até calculador
olhar sentir cheirar e tactear
diversamente cada uma das mulheres
na sua irredutível singularidade
As noites já começam a ser frescas
será pelos começos do outono
o vento do outono é agora húmido
há um silêncio até ao fim do mundo
às vezes quando falas tudo neva sobre
as folhas longo tempo revestindo
as árvores durante o dilatado outono
somente agora verdadeiramente moribundo
com as primeiras neves do inverno
demónio de demência e desespero
estranha companheira dos meus dias
E a solenidade das noites do inverno
descia no meu corpo solitário e nu quando me
sentia longe das habitações humanas
da casa acolhedora ao cimo do inverno
A fome murmurava no meu corpo
o meu desejo ardente de salvar-me de
cantar os velhos salmos no altar do mundo
ameaçado e mísero e pequeno um
círculo rodeando o coração
desânimo da morte amargurada
debaixo da folhagem já apodrecida
através das diversas estações
de olhos divididos por florestas
de narinas abertas para bâlsamicas violetas
bebendo as montanhas e as nuvens
e a quente intimidade sobre a terra
Acordaram-me os ramos de um salgueiro
os dias das imagens transbordantes
na embriaguez vasta dos espaços
na solidão desértica da alma
o meu amor profundo pela arte
o meu ódio selvagem contra mim
Nós mudamos de heróis e pouco mais
só eu mais maduro e seguro de talento
não tenho paz alguma a teu respeito
ó virgem vagarosa e concentrada
de um rosto calmo belo e impassível
ó vida ó minha primitiva mãe
inacessíveis profundezas da morte
e na sua pureza a sua essência
e simplesmente a minha humana mão
o jogo da ambição um simples jogo
Na refrescante primavera primitiva
ternura maternal e melancólica
e logo após o sentimento frágil
naquele êxtase breve e fugitivo
que é inerente ao acto do amor
a solução em sombra dessa face luminosa
que brilha um breve instante numa vida
a solidão desértica do espírito
o símbolo sagrado do amor
O gozo áspero do vasto perigo
modulação suavíssima das faces
não cessará de abrir a flor das minhas mãos
E depois disso a neve logo cobre
aquela boca de fim do verão
como esses frescos peixes prateados
olhos dourados ansiosos e fixos
que à morte se abandonam resignados
Hei-de saborear o mundo o seu horror
fealdade beleza e harmonia
ver passar o inverno e o verão
e sentir solidão e alegria
Quando por vezes paro de cantar e vejo
uns deslumbrantes ombros femininos de
gigantescas estrelas nos cabelos
quero sentir-me atado ao respirar da casa
Ver-me sensível para com as estações
irmão somente de inocentes animais
ao sol ao nevoeiro à chuva à neve
ser no meu coração uma criança
viver num mundo sempre renascente
ser consciente desta vida instável
saber que em meio dos espaços infinitos
circula em mim uma porção de sangue quente
sentir em mim a marca da puerilidade vagabunda
familiar da morte em cada passo
E a mãe eterna de olhos de medusa
atravessava o país dos mortos
no canto alegre e grave dos seus passos
Olho a marcha da morte no teu rosto
um frémito ligeiro passa em tua pele
Vi sonhar a égua da infância
chegou enfim o tempo do adeus
Oiço a canção éfemera das coisas
despeço-me da terra da alegria
já reconheço a música da morte
Severos surdos saem os meus sons
destino humano instável enfim móvel
o seu pequeno pé o seu pescoço branco
reflexo de ouro tão propício ao sono
a música do outono e de abundância
o seu rosto real era recusa
Pelas alturas coloridas do outono canto
a canção inquieta do amor
cabeleira percursora do amor
amor misterioso e perigoso
nada mais do que triste triste apenas
ó mulher loura sorridentemente dou-te
um beijo alto como um sacramento
A despedida súbita do sol
despedida dos dias e estações
crepúsculo propício do adeus
a esta vida frágil é que aspiro
ave entregada ao decisivo voo
pensamentos de terna nostalgia
jardim de harmoniosos pensamentos
dou-te de toda a alma o nome da ausente
árvore em flor no bosque fonte no deserto.


Ruy Belo - Despeço-me da Terra da Alegria, Editorial Presença, pp. 26-31

Sunday, February 03, 2008

Dia -827

Intimidade

Quantas vezes (quantas?) nos vimos chorar?

Saturday, February 02, 2008

Dia -826

As palavras são importantes

Por exemplo cativar não poderia nunca ter sido traduzido por domesticar.
Mas foi. É continuamente.

Friday, February 01, 2008

Dia -825

Just In Time


Nina Simone or the best singer ever


Just in time you've found me just in time
Before you came my time was running low
I was lost the losing dice were tossed
My bridges all were crossed nowhere to go
Now you hear now I know just where I am going
No more doubt of fear I've found my way
For love came just in time you've found me just in time
And changed my lonely nights that lucky day
Just in time
Before you came my time was running low oh baby
I was lost the losing dice were tossed
My bridges all crossed nowhere to go
Now you hear now I know just where Im going
No more doubt of fear Ive found my way
For love came just in time you've found me just in time
And changed my lonely nights and changed my lonely nights
And changed my lonely nights and changed my lonely nights
And changed my lonely nights that lucky day

Thursday, January 31, 2008

Dia -824

Recados


I.
J. a resposta (à tua pergunta) é sim.
Mas vou continuar a dizer que não.
E entretanto
pode ser que alguém me dê uma paulada na cabeça.


II.

B. Obrigada.
Estava a precisar de conversar com alguém hoje.
Alguém que não me deprimisse, quer dizer.
Afinal, és o mesmo.
Ainda bem que voltaste.
Ou vieste por este bocadinho.
Ou lá o que for.
E fica combinado que se eu morrer primeiro
me enterras as cinzas aos pés daquele castanheiro
e ao mesmo tempo dizes aquele poema do Ruy Belo.

Wednesday, January 30, 2008

Dia -823

Que estranho lugar...

para se estar...
a cabeça de alguém.

Tuesday, January 29, 2008

Dia -822

Arrepio (iv)

Que importa que o coração,
Diga que sim ou que não,
Se continua a viver?


(Primavera,
David Mourão Ferreira)

Monday, January 28, 2008

Dia -821

Lisboa, a ponte, o Tejo e tudo



(fotografia de José Alberto Esteves, o meu primo)

e eu sempre pequena.

Sunday, January 27, 2008

Dia -819

Talvez eu seja, afinal, malgré tout, portuguesa...
(pelo menos de vez em quando)




Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Quando
Canta Kátia Guerreiro. Canta tão bem.

Saturday, January 26, 2008

Dia -818

No meu mau italiano, eu podia dizer que...

forse la felicità potrebbe essere soltanto nella sensazione di cose che sentiamo.
Allora, Io sono felice perchè sento un sacco di cose. Di belle cose.
Forse sentire è sufficiente. Forse non si ha bisogno di pensare.
No lo so. E non voglio sapere.
:-)

Thursday, January 24, 2008

Dia -816

Massagem Doce

Ofereceram-me pelo meu aniversário uma massagem com envolvimento de chocolate.
Fui fazê-la hoje e nem sei se vos diga, se vos conte ou se guarde só para mim esta sensação de walking on clouds. Recomendo.
M a r a v i l h o s o.
Eu repito. M a r a v i l h o s o.
Cada vez me convenço mais que eu nasci para ser mimada. E rica. Já agora.

(Sim... há qualquer coisa que não bate certo neste meu fado, mas pronto em havendo amigas maravilhosas que nos oferecem coisas destas, a coisa vai)

Wednesday, January 23, 2008

Dia -815

How to break up with your girlfriend (or boyfriend) in 64 easy steps...



Mais Tales of Mere Existence, no You Tube

Tuesday, January 22, 2008

Dia -814

Arrepio (iii)

(...)
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill (extracto do (magnífico) Um Adeus Português)

Sunday, January 20, 2008

Dia -812

Acho que

estou um bocadinho tramada...
pronto.

Friday, January 18, 2008

Dia -810

Não sei se repararam

Eu só reparei depois. Quase todos os tipos do dia -809 têm barba...
ou, pelo menos, a sugestão de...
Pois. Parece que eu tenho uma especial predilecção por tipos com barba.

Thursday, January 17, 2008

Dia -809

Se todos os homens à nossa volta fossem como o...*


Reynaldo Gianecchini

Mark Ruffalo

Ryan Gosling
Richard Gere Johnny Depp
Orlando Bloom
Jude LawPatrick Dempsey John Cusack
Matt Damon Leonardo DiCaprioEdward NortonJonathan Rhys-MeyersDaniel CraigColin FirthBrad Pitt

O mundo podia não ser um lugar melhor, mas seguramente era bastante mais bonito.
Sobretudo se todos os homens se parecessem com o tipo mais interessante do mundo
(em duplicado, por ser para mim)
Hugh Laurie


ou com o tipo (também) mais interessante do mundo
(em duplicado por ser para a minha amiga-irmã-praticamente-gêmea)
George Clooney


*fiz 41 anos, mas não estou morta, ora essa!

Tuesday, January 15, 2008

Dia -808

Pronto...
para os meus queridos (e dedicados) leitores
uma prenda de Ano Novo, em nome da igualdade & etc

Scarlett Johansson... or the sexiest girl in the world.

(are you happy now, Miguel?)

Monday, January 14, 2008

Dia -807

Uma prenda de Ano Novo (um bocadinho atrasada)
para todas as minhas (lindas) leitoras

What Else?

Saturday, January 12, 2008

Dia -805

Neste blog é permitido fumar*

*cigarros, cigarrilhas, charutos, charros, chinesas, barbas de milho, mata-ratos, whatever...

Mais se informa que a autora se recusa a cumprir as normas da ASAE. Nada de ventiladores, portanto.

Friday, January 11, 2008

Dia -804

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

Encontrei há pouco este poema numa antiga carta que a Teresa me escreveu.
A Teresa escreve-me sempre cartas.
Mesmo sendo sob a forma de email.
São cartas.
Daquelas que guardamos com dedicação.
Daquelas que esperamos com urgência.
E não sei por que razão
(a razão tem pouco a ver com estas coisas)
abri hoje de novo o enorme ficheiro que junta a nossa correspondência
e encontrei este poema.
Pareceu-me adequado ao que hoje sinto.
Pareceu-me que fala de espera.
De adiamentos.
E de urgências.
Mas talvez me tenha parecido tudo mal.
E não seja nada disto.

Thursday, January 10, 2008

Dia -803

A Fátima Mudou-se

Bom, não exactamente a Fátima, mas o seu F-World.
Como é um mundo único, continuem a visitá-lo

Wednesday, January 09, 2008

Dia -802

Confesso...

que gosto de todos os familiares, amigos colegas e alunos
(e até gosto de algumas instituições)
que se lembraram que envelheci um bocadinho mais...
mas de todos os emails, sms, telefonemas e mesmo alguns poemas que recebi,
nada me comoveu tanto como este postal dos meus (ex) alunos Paulo e Sara.
Obrigada. O privilégio foi sempre meu. Obviamente.

Tuesday, January 08, 2008

Dia -8/01

É dia 8/01* e este é o meu bilhete de identidade


Eu não sou portuguesa. Sou europeia.
Podia ser de qualquer parte, mas aconteceu ter nascido em Lisboa.
Que não é a cidade mais bonita do mundo.
Ou talvez seja.
Vivo em Aveiro há muitos anos, numa rua que é não é minha
mas da senhora da alegria.
E isto é tão bonito como, ao fundo, a ria.
Trabalho na Universidade mais dinâmica do país.
Na mais bonita também.
E tenho orgulho.
Naturalmente.
Aparte isto tenho alguns gostos e outros tantos não-gostos.
E todos os sonhos do mundo**.
E a convicção de que o que é preciso é dar lugar aos pássaros nas ruas da cidade**.
Gosto do Inverno.
De castanheiros.
De gatos.
De um lugar chamado Cova da Lua, em Montesinho.
De mais uns quantos lugares do mundo que conheço
e de algumas pessoas que nunca chegarei a conhecer completamente.
Gosto de honestidade.
De literatura.
De jazz.
De poesia.
De certas palavras
e de algumas línguas.
De ensinar.
De aprender.
Gosto de fazer peoplespotting.
De cinema.
De pintura.
De política.
Da inteligência.
Do riso.
E da beleza que vai, um dia, dominar tudo.

Não gosto da estupidez.
Da fraca memória.
Da intolerância.
Não gosto das segundas intenções
e do pó nas entrelinhas.
Não gosto de quem não se ri de si mesmo.
Dos espaços desordenados.
Da literatura light.
Não gosto da caridadezinha.
Da música pimba.
Da violência.
De quem diz que não tem tempo
para ver um pôr-do-sol ou olhar para as estrelas.
Não gosto da crueldade.
Da pressa.
E da maior parte dos políticos portugueses.

Poderia ter sido outra pessoa.
Com outros gostos e não gostos.
Ainda poderei ser outra pessoa.

Mas hoje sou isto.
Tenho fotografias melhores.
Mas menos verdadeiras.
Tenho 41 anos.
Aconteceu-me uma vez uma grande dor.
Nos outros dias bastou-me ouvir o vento.


* foi coincidência o post ser no dia -801.
** frases, respectivamente de Álvaro de Campos e de Ruy Belo

Sunday, January 06, 2008

Dia -799

Oggi vorrei darti solamente di cose belli

«Como se não tivesse substância e de membros apagados.

Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.

E germinar no sono, germinar na árvore.

Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.

Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.

No encontro e no abandono, na última nudez,

respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.

Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.

E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila

e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.

Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.»

António Ramos Rosa - Nascimento Último

Friday, January 04, 2008

Dia -797

Grandes são os Desertos e tudo é Deserto

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

Thursday, January 03, 2008

Dia -796

Moi non plus

«Je n'ai pas besoin de lumière pour voir la couleur de mes idées»

Emile Zola - Germinal

En fait, c'est pour ça, par l'obscurité que permet les idées lumineuses, que j'aime la nuit.

Wednesday, January 02, 2008

Dia -795

Continuarei Fumando

"(...) Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando (...)"


Álvaro de Campos - Tabacaria

Tuesday, January 01, 2008

Dia -794

O Primeiro Dia do Ano e

não sei porquê, mas só me apetece ser lamechas.

Sunday, December 30, 2007

Dia -792

Anti-Balanço

Sinceramente. Acho disparatado. Fazer balanços.
Quer dizer... para que serve exactamente um balanço?
Aconteceram imensas coisas em 2007.
A mim. Na minha rua. No meu país e no mundo.
Pronto.
Não acontecem sempre imensas coisas em 365 dias?
Dos últimos 364 dias houve dois especialmente bonitos.
Os dias em que duas pessoas entraram na minha vida.
Ambas com a mesma força, deslumbramento e entusiasmo com que,
em crianças, fazemos amigos.
Bom Ano!

Friday, December 28, 2007

Dia -790

Ora aqui está!

"Não tenho culpa de ter nascido em Portugal, e exijo uma pátria que me mereça"

Almada Negreiros (citação do poeta/escritor/pintor e tudo... do Público de ontem... uma citação que eu lamentavelmente desconhecia)

Sunday, December 23, 2007

Dia -785

La La La La
La La La
La La La La
La La
La La La La


Ella Fitzgerald - Jingle Bells

Saturday, December 22, 2007

Dia -784

All I Want For Christmas...

Brook Benton - All I Want For Christmas

Thursday, December 20, 2007

Dia -782

Boas Festas

Bom Natal

E que 2008 seja um ano cheio.

De sucessos pessoais e profissionais.

De paz.

De alegria.

De bom humor.

E da beleza que ainda anda pelo mundo.


Joan Miró - Estrella Azul

Wednesday, December 19, 2007

Wednesday, December 12, 2007

Dia -774

Terceira

Fotografia roubada aqui

Desta vez não vou sair de Angra do Heroísmo.

O tempo vai estar chuvoso.

Mas isso também não é exactamente uma novidade.

O Angra Jazz já foi há uns meses.

O que é pena.

Mas dar umas aulas num sítio chamado Pico da Urze é poético.

E assenta-me bem.

Tuesday, December 11, 2007

Dia -773

É Natal, É Natal,
la la la la

Agora que já comprei as minhas prendas quase (quase) todas,
que já escrevi os meus cartões de natal quase (quase) todos...
já posso respirar de alívio e trautear um standard como o que aqui interpreta Diana Krall
- Have Yourself a Merry Little Christmas.

Monday, December 10, 2007

Dia -772

Eu nunca me calo

ou seja, raramente
( a não ser quando estou sozinha o que até acontece muitas vezes)
estamos em silêncio.
Que pensarás tu de mim?

Friday, December 07, 2007

Dia -769

Sim, é este mesmo o Fado mais bonito de sempre*



*Obrigada sem.se.ver pelo link. Canta 'a capela' Ana Laíns

Wednesday, December 05, 2007

Dia -767

Este é o Fado mais bonito de sempre




(Kátia Guerreiro - numa versão incompleta e roufenha. Muito roufenha.
Apesar de ter sido mandatária do nosso PR a moça tem uma belíssima voz)


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

(Alexandre O'Neill)



Tuesday, December 04, 2007

Dia -766

O Roberto Begnini canta muito mal*...


mas a letra desta música é tão bonita... não é?

<

Se tu mi avessi chiesto: "Come stai

se tu mi avessi chiesto dove andiamo

t'avrei risposto "bene, certo sai"

ti parlo però senza fiato

mi perdo nel tuo sguardo colossale,

la stella polare sei tu mi sfiori e ridi no, cosi non vale

non parlo e se non parlo poi sto male

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

e non lo sai perchè non te l'ho detto mai

anche se resto in silenzio, tu lo capisci da te

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto e non te lo dirò mai

nell'amor le parole non contano conta la musica.

Se tu mi avessi chiesto: "Che si fa?"

se tu mi avessi chiesto dove andiamo

t'avrei risposto dove il vento va

le nuvole fanno un ricamo

mi piove sulla testa un temporale

il cielo nascosto sei tu ma poi svanisce in mezzo alle parole

per questo io non parlo e poi sto male

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

e non lo sai perchè non te l'ho detto mai

anche se resto in silenzio, tu lo capisci da te

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto e non te lo dirò mai

nell'amor le parole non contano conta la musica.

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto ma un giorno capirai

nell'amor le parole non contano conta la musica

(Roberto Benigni )

* A Amalia Grè canta isto bastante melhor...

Monday, December 03, 2007

Dia -765

Digestão Difícil

Ainda me encontro a digerir o indescritível concerto de Vinicio Capossela.
Aquilo deve ser uma cena alternativa qualquer que me escapa completamente.
Mas foi penoso.
Hesitei o concerto todo entre o riso nervoso escondido pelo cachecol e o queixo caído de espanto.
Confesso que ainda estou hesitante.
Mas devo ser eu que não tenho capacidade para entender estas cenas alternativas.
De certeza.

Friday, November 30, 2007

Dia -762

O que eu gosto deste homem...



há tantos anos.
Que quando o revejo, como hoje,
a cantar tão bem as letras que conheço de cor...
lembro-me de mim há tantos anos.
E do tanto que gostei e gosto dele.

Thursday, November 29, 2007

Momento de Intervalo...

para partilhar uma frase bonita*


Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação.
Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória.
A Europa imitará Portugal.
Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio.

A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos!


Victor Hugo, 1876, a propósito da abolição da pena de morte em Portugal (o primeiro país europeu a fazê-lo)

* bom e um certo orgulho de ser, afinal, portuguesa. Nisto. Só nisto. Ou quase só nisto.

Isto tudo vem a propósito de uma carta do Antonio, sobre amanhã se celebrar a Festa Regionale della Toscana.
A 30 de Novembro de 1786 aboliu-se nesta região de Itália a pena de morte.
Uma excelente razão para fazer uma festa e celebrar.
Também vem isto a propósito de no passado 15 de Novembro a Assembleia Geral das Nações Unidas ter aprovad uma moratória que decreta a suspensão das execuções por pena de morte em todo o mundo.
Mas... ainda são 74 os países do mundo em que esta lei existe.
Países entre os quais se encontram os EUA, o paradigma do desenvolvimento, da modernidade
e da civilização ocidental.
Neste país, em 38 dos 50 estados a pena de morte é legalmente permitida.
Também o governo federal tem o direito de utilizar estes instrumento legal.
A liberdade é uma cidade imensa. Mas nem todos são concidadãos dessa cidade.

Dia -761




Piet Mondrian - The Red Tree

A árvore é uma habitação perdida. E encontrada**. As árvores lembram-nos o que seríamos se pudessemos ser durante séculos. As árvores exigem a nossa lenta reverência**. Com vagar, diante do tronco rugoso, das folhas que rebentam novamente a cada primavera, dos ramos que se tingem de vermelho para depois se despirem, no outono... reconhecemos o quão pequenos somos. E fugazes. As árvores não. As árvores permanecem majestosas mesmo quando deixarmos de poder reconhecê-las.

* Ahmad Jamal (8:06) in 'The Legendary Ahmad Jamal Trio Live'
** frases de António Ramos Rosa, no poema cada árvore é um ser para ser em nós

Poinciana é uma árvore tropical de folhagem abundante e escarlate ou, outras vezes, laranja. Também pode ser chamada a árvore vermelha.

Wednesday, November 28, 2007

Dia -760

Chega de árvores por agora

Contemplemos antes este cavalheiro. Aqui na pele de Sir Walter Raleigh em Elizabeth - The Golden Age*. O filme hum... nothing special. O bem contra o mal e assim. O costume, portanto, neste género de filmes. Mas o moço... Oh atentem bem neste moço! Até pode ser um bocadinho canastrão**, mas ao olhar para ele... quer dizer... ehr... que interessa isso?


*É um filme de Shekhar Kapur, também com Cate Blanchett e Geoffrey Rush. O filme é a sequela de Elizabeth, do mesmo realizador e igualmente com Cate Blanchett e Geoffrey Rush nos mesmos papeis.

** Em Closer, de Mike Nichols, não esteve nada canastrão. Esteve almost perfect. Nos restantes, bom... enfim... Mas suponho que lhe podemos perdoar, não?

Tuesday, November 27, 2007

Dia -759

Ainda as árvores, ou os poemas com árvores

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-a
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.

António Ramos Rosa -
Cada árvore é um ser para ser em nós

Monday, November 26, 2007

Dia -758

Receptáculo anónimo do espanto

(A imagem deste belo castanheiro foi tirada de Montesinho Vivo)


Árvore rumorosa pedestal da sombra

sinal de intimidade decrescente

que a primavera veste pontualmente

e os olhos do poema de repente deslumbra

Receptáculo anónimo do espanto

capaz de encher aquele que direito à morte passa

e no ar da manhã inconsequente traça

e rasto desprendido do seu canto

Não há inverno rigoroso que te impeça

de rematar esse trabalho que começa

na primeira folha que nos braços te desponta

Explodiste de vida e és serenidade

e imprimes no coração mais fundo da cidade

a marca do princípio a que tudo remonta

Ruy Belo - Àrvore Rumorosa

Sunday, November 25, 2007

Dia -757

Le Fabuleux Destin d'Odette Toulemonde*


Oui, il y a quelque chose de pareil entre Odette Toulemonde
(mais quel beau nom!)
et Amélie Poulain.
Je sais pas quoi.
Mais il y a.
Peut-être le bonheur. L'optimisme.
Apprendre et enseigner le bonheur.
Les deux le rende aussi simple!
Et ce genre de choses lá... ça peut arriver a tout le monde ;-))

* Odette Toulemonde c'est un film de Eric-Emmanuel Schmitt, avec la magnifique Catherine Frot dans le rôle d'Odette.

Friday, November 23, 2007

Dia -756

Les Baobabs, selon le Petit Prince

(para a Lou)







«(...) Chaque jour j'apprennais quelque chose sur la planète, sur le départ, sur le voyage. Ca venait tout doucement, au hasard des réflexions. C'est ainsi que, le troisième jour, je connus le drame des baobabs. Cette fois-ci encore fut grâce au mouton, car brusquement le petit prince m'interrogea, comme pris d'un doute grave:

-C'est bien vrai, n'est-ce pas, que les moutons mangent les arbustes? -Oui. C'est vrai. -Ah! Je suis content.

Je ne compris pas pourquoi il était si important que les moutons mangeassent les arbustes. Mais le petit prince ajouta:

-Par conséquent ils mangent aussi les baobabs?

Je fis remarquer au petit prince que les baobabs ne sont pas des arbustes, mais des arbres grands comme des églises et que, si même il emportait avec lui tout un troupeau d'éléphants, ce troupeau ne viendrait pas à bout d'un seul baobab. L'idée du troupeau d'éléphants fit rire le petit prince:

-Il faudrait les mettre les uns sur les autres...

Mais il remarqua avec sagesse:

-Les baobabs, avant de grandir, ça commence par être petit.

-C'est exact! Mais pourquoi veux-tu que tes moutons mangent les petits baobabs?

Il me répondit:

- "Bien! Voyons!"

comme il s'agissait là d'une évidence. Et il me fallut un grand effort d'intelligence pour comprendre à moi seul ce problème. Et en effet, sur la planète du petit prince, il y avait comme sur toutes les planètes, de bonnes herbes et de mauvaises herbes. Par conséquent de bonnes graines de bonnes herbes et de mauvaises graines de mauvaises herbes. Mais les graines sont invisibles. Elles dorment dans le secrèt de la terre jusqu'à ce qu'il prenne fantaisie à l'une d'elles de se réveiller. Alors elle s'étire, et pousse d'abord timidement vers le soleil une ravissante petite brindille de radis ou de rosier, on peut la laisser pousser comme elle veut. Mais s'il s'agit d'une mauvaise plante, il faut arracher la plante aussitôt, dès qu'on a su la reconnaître. Or il y avait des graines terribles sur la planète du petit prince... c'étaient les graines de baobabs. le sol de la planète en était infesté. Or un baobab, si l'on si prend trop tard, on ne peut jamais plus s'en débarasser. Il encombre toute la planète. Il la perfore de ses racines. Et si la planète est trop petite, et si les baobabs sont trop nombreux, ils la font éclater.

- C'est une question de discipline,

me disait plus tard le petit prince.

- Quand on a terminé sa toilette du matin, il faut faire soigneusement la toilette de la planète. Il faut s'astreindre réguliérement à arracher les baobabs dès qu'on les distingue d'avec les rosiers auxquels ils se rassemblent beaucoup quand ils sont très jeunes. C'est un travail très ennuyeux, mais très facile.

Et un jour il me conseilla de m'appliquer à réussir un beau dessin, pour bien faire entrer ça dans la tête des enfants de chez moi.

- S'ils voyagent un jour, me disait-il, ça pourra leur servir. Il est quelquefois sans inconvénient de remettre à plus tard son travail. Mais, s'il s'agit des baobabs, c'est toujours une catastrophe. J'ai connu une planète, habitée par un paresseux. Il avait négligé trois arbustes...

Et, sur les indications du petit prince, j'ai dessiné cette planète-là. Je n'aime guère prendre le ton d'un moraliste. Mais le danger des baobabs est si peu connu, et les risques courus par celui qui s'égarerait dans un astéroïde sont si considérables, que, pour une fois, je fais exception à ma réserve. Je dis:

- Enfants! Faites attention aux baobabs!

C'est pour avertir mes amis du danger qu'ils frôlaient depuis longtemps, comme moi-même, sans le connaître, que j'ai tant travaillé ce dessin-là. la leçon que je donnais en valait la peine. Vous vous demanderez peut-être: Pourquoi n'y a-t-il pas dans ce livre, d'autres dessins aussi grandioses que le dessin des baobabs? La réponse est bien simple: J'ai essayé mais je n'ai pas pu réussir. Quand j'ai dessiné les baobabs j'ai été animé par le sentiment de l'urgence.»

(Antoine de Saint-Éxupery)


Thursday, November 22, 2007

Dia -755

A Árvore

Estava a dar a aula.
Uma aula bastante expositiva.
a exlusão social isto e aquilo. e a exclusão territorial assim. e a segregação espacial assado.
e os territórios rurais assim. e os territórios urbanos assado. e a diversidade. e isto. e aquilo.
E de repente calei-me.
Parei completamente.
Quando ouvi o silêncio.
O silêncio espantado dos alunos.
É que percebi que me tinha calado.
Que me tinha distraído sem me aperceber.
A olhar para a árvore ao fundo, além da janela.
Uma magnífica árvore.
Com as folhas carregadas de todos os tons do outono.
Quando expliquei isto aos alunos.
Olharam para mim como se não me conhecessem.
Apenas um, mais afoito, perguntou:
temos de saber isso para o teste, professora?

Wednesday, November 21, 2007

Dia -754

Downloads (ou isso)

A maior parte das pessoas faz downloads de música.
Já eu nunca os faço.
Em vez disso fico toda contente quando descubro que a Sage
tem todos (repito: todos) os artigos de todas (repito: todas)
as revistas que publica, em acesso completamente livre.
É até 30 de Novembro.

Sunday, November 18, 2007

Dia -752

Juro que não é verdade... *


Para si, os homens estão entre o desporto e a colecção de cromos.
Hedonista, gosta essencialmente de se divertir.
Não perde tempo a planear o futuro e só acredita em relações intensas mas fugazes.

* Se bem que a maioria dos homens seja de facto uma colecção de cromos... não é verdade esta primeira frase, aplicada ao meu caso. O resto sim. Se querem saber que personagem do Sexo e a Cidade seriam, cliquem na imagem.

Saturday, November 17, 2007

Dia -751

Great Concert*






* Não foi este. Foi no CC Vila Flor, no Guimarães Jazz 2007, em quarteto.
Mas também se ouviu a música que aqui toca o Ahmad Jamal Trio -
Poinciana.

Friday, November 16, 2007

Dia -750

A Solidão

*

é saber que nunca mais


n
u
n
c
a

m
a
i
s

te vejo.

*Amalia Gre. Uma jovem (e belíssima) cantora de jazz italiana em Io Cammino di notte da sola


Io cammino
di notte da sola
poi piango poi rido
e aspetto l’aurora
Ed è una realtà
tutta mia
e una strana atmosfera
pervade la mente
di sera
Io vivo
a volte infelice
a volte gaudente
talvolta vincente
o perdente
Ed è una vita d’artista
così altalenante
ma quello che creo
è importante per me
Io cammino
di notte da sola
poi piango, poi rido
poi parlo, poi rido
poi grido

Thursday, November 15, 2007

Dia -749

La veille d'un jour important, il y a 16 ans


La solitude ne se partage pas.

Wednesday, November 14, 2007

Dia -748

O Paulo*

não é bem uma daquelas pessoas malucas a que me referi no post anterior.
Mas se calhar até é.
Dá-me os parabéns, ali uns posts mais abaixo,
por tudo (?).
Tudo é o quê?
É praticamente o mesmo que nada.

*Miúdo: olha que talvez estejas a ficar maluco.
Dares os parabéns às pessoas, assim, por tudo e por nada,
bem pode ser o início de um processo de loucura, não?
Mas eu gosto de ti à mesma.

Tuesday, November 13, 2007

Dia -747

Eu acho

que as pessoas andam todas malucas. Acho mesmo.
Isso não seria um problema se
eu não estivesse destinada a cruzar-me com mais de metade delas.

Monday, November 12, 2007

Dia -746



Eu não devia viver dentro de uma canção de amor.
Dessas de onde apetece fugir.
Onde as notas são como facas.
Dessas canções.
De amor.
Onde as notas são lágrimas afiadas.
A vazar-nos os olhos.
A rasgar-nos a carne.
A queimar-nos a pele.
Eu devia viver dentro de uma canção de amor.
Onde o teu sorriso não estivesse.
A lembrar-me para sempre.
Onde era o amor.
Onde eram as notas.
Mansas.
Como as árvores centenárias.
Eu não devia viver dentro de uma canção de amor.
Dessas onde todas as árvores estão mortas.
Ou a arder.
E de qualquer maneira me empurram.
Ao morrer.
Para fora da floresta.

* Brad Mehldau Trio (4:23) in ‘The Art of the Trio, Volume 3: Songs’

Sunday, November 11, 2007

Dia -745

Arrumações

Não sei porque é que abri a primeira caixa.
Depois vi-te.
O resto é o teu sorriso imenso.
Nunca te conseguirei arrumar.
Em lado nenhum
O teu sorriso não cabe em lado nenhum.

Saturday, November 10, 2007

Dia -744

O Primeiro Dia





Gosto tanto do Sérgio Godinho.
E num dia em que sinto que as coisas
começam finalmente a mexer-se
que começamos a não ter receio de pensar
e debater...
num dia assim só me lembro desta música.
Adelante!

Friday, November 09, 2007

Dia -743

Ainda a Felicidade (algumas diferenças de género)



Cartoon de Maitena, da série Superadas

Thursday, November 08, 2007

Tuesday, November 06, 2007

Dia -741

I miei amici sono meglio di me
(particolarmente per Antonio)*


Io non meritano i miei amici.
Sono troppo buoni per me.
Oggi ho davvero bisogno di un abbraccio.
Un grande abbracio.
Mi sono recato all'ufficio postale per raccogliere una lettera raccomandata ...
Non era una lettera.
Ma una scatola (una grande) piena di cioccolatini.
Cioccolatini belgi.
Da la migliore casa di cioccolatini in tutto il mondo - Neu Haus.
Grazie mille Antonio.
Per la sorpresa.
Per il cioccolato
e per l'abbraccio che mi avete dato,
senza sapere che avevo bisogno.

* Scusa Antonio, ma mio italiano non è molto buono

Sunday, November 04, 2007

Dia -739

Sicko


Mais um tiro certeiro de Michael Moore.

Thursday, November 01, 2007

Dia -736

Conheço outros retratos teus onde também estás viva*

Vou ali.
É quase certo que volto.

Entretanto deixo-vos isto:



* Ruy Belo, Elogio de Maria Teresa.
Aqui dito, tão bonito, por Luís Miguel Cintra)