"Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte"
(Sérgio Godinho - Romance de um Dia na Estrada)
que gosto de todos os familiares, amigos colegas e alunos (e até gosto de algumas instituições) que se lembraram que envelheci um bocadinho mais... mas de todos os emails, sms, telefonemas e mesmo alguns poemas que recebi, nada me comoveu tanto como este postal dos meus (ex) alunos Paulo e Sara. Obrigada. O privilégio foi sempre meu. Obviamente.
Eu não sou portuguesa. Sou europeia. Podia ser de qualquer parte, mas aconteceu ter nascido em Lisboa. Que não é a cidade mais bonita do mundo. Ou talvez seja. Vivo em Aveiro há muitos anos, numa rua que é não é minha mas da senhora da alegria. E isto é tão bonito como, ao fundo, a ria. Trabalho na Universidade mais dinâmica do país. Na mais bonita também. E tenho orgulho. Naturalmente. Aparte isto tenho alguns gostos e outros tantos não-gostos. E todos os sonhos do mundo**. E a convicção de que o que é preciso é dar lugar aos pássaros nas ruas da cidade**. Gosto do Inverno. De castanheiros. De gatos. De um lugar chamado Cova da Lua, em Montesinho. De mais uns quantos lugares do mundo que conheço e de algumas pessoas que nunca chegarei a conhecer completamente. Gosto de honestidade. De literatura. De jazz. De poesia. De certas palavras e de algumas línguas. De ensinar. De aprender. Gosto de fazer peoplespotting. De cinema. De pintura. De política. Da inteligência. Do riso. E da beleza que vai, um dia, dominar tudo.
Não gosto da estupidez. Da fraca memória. Da intolerância. Não gosto das segundas intenções e do pó nas entrelinhas. Não gosto de quem não se ri de si mesmo. Dos espaços desordenados. Da literatura light. Não gosto da caridadezinha. Da música pimba. Da violência. De quem diz que não tem tempo para ver um pôr-do-sol ou olhar para as estrelas. Não gosto da crueldade. Da pressa. E da maior parte dos políticos portugueses.
Poderia ter sido outra pessoa. Com outros gostos e não gostos. Ainda poderei ser outra pessoa.
Mas hoje sou isto. Tenho fotografias melhores. Mas menos verdadeiras. Tenho 41 anos. Aconteceu-me uma vez uma grande dor. Nos outros dias bastou-me ouvir o vento.
* foi coincidência o post ser no dia -801. ** frases, respectivamente de Álvaro de Campos e de Ruy Belo
Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma! Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida, Errei a porta do sentimento, Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. Hoje não me resta, em vésperas de viagem, Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) Senão saber isto: Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) Acendo o cigarro para adiar a viagem, Para adiar todas as viagens. Para adiar o universo inteiro. Volta amanhã, realidade! Basta por hoje, gentes! Adia-te, presente absoluto! Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar mala, Tenho por força que arrumar a mala, A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser. Tenho que existir a arrumar malas. A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. Olho para o lado, verifico que estou a dormir. Sei só que tenho que arrumar a mala, E que os desertos são grandes e tudo é deserto, E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares. Vou definitivamente arrumar a mala. Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; Hei de vê-la levar de aqui, Hei de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto, Salvo erro, naturalmente. Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
(Kátia Guerreiro - numa versão incompleta e roufenha. Muito roufenha. Apesar de ter sido mandatária do nosso PR a moça tem uma belíssima voz)
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração.
Ainda me encontro a digerir o indescritível concerto de Vinicio Capossela. Aquilo deve ser uma cena alternativa qualquer que me escapa completamente. Mas foi penoso. Hesitei o concerto todo entre o riso nervoso escondido pelo cachecol e o queixo caído de espanto. Confesso que ainda estou hesitante. Mas devo ser eu que não tenho capacidade para entender estas cenas alternativas. De certeza.