Wednesday, January 09, 2008

Dia -802

Confesso...

que gosto de todos os familiares, amigos colegas e alunos
(e até gosto de algumas instituições)
que se lembraram que envelheci um bocadinho mais...
mas de todos os emails, sms, telefonemas e mesmo alguns poemas que recebi,
nada me comoveu tanto como este postal dos meus (ex) alunos Paulo e Sara.
Obrigada. O privilégio foi sempre meu. Obviamente.

Tuesday, January 08, 2008

Dia -8/01

É dia 8/01* e este é o meu bilhete de identidade


Eu não sou portuguesa. Sou europeia.
Podia ser de qualquer parte, mas aconteceu ter nascido em Lisboa.
Que não é a cidade mais bonita do mundo.
Ou talvez seja.
Vivo em Aveiro há muitos anos, numa rua que é não é minha
mas da senhora da alegria.
E isto é tão bonito como, ao fundo, a ria.
Trabalho na Universidade mais dinâmica do país.
Na mais bonita também.
E tenho orgulho.
Naturalmente.
Aparte isto tenho alguns gostos e outros tantos não-gostos.
E todos os sonhos do mundo**.
E a convicção de que o que é preciso é dar lugar aos pássaros nas ruas da cidade**.
Gosto do Inverno.
De castanheiros.
De gatos.
De um lugar chamado Cova da Lua, em Montesinho.
De mais uns quantos lugares do mundo que conheço
e de algumas pessoas que nunca chegarei a conhecer completamente.
Gosto de honestidade.
De literatura.
De jazz.
De poesia.
De certas palavras
e de algumas línguas.
De ensinar.
De aprender.
Gosto de fazer peoplespotting.
De cinema.
De pintura.
De política.
Da inteligência.
Do riso.
E da beleza que vai, um dia, dominar tudo.

Não gosto da estupidez.
Da fraca memória.
Da intolerância.
Não gosto das segundas intenções
e do pó nas entrelinhas.
Não gosto de quem não se ri de si mesmo.
Dos espaços desordenados.
Da literatura light.
Não gosto da caridadezinha.
Da música pimba.
Da violência.
De quem diz que não tem tempo
para ver um pôr-do-sol ou olhar para as estrelas.
Não gosto da crueldade.
Da pressa.
E da maior parte dos políticos portugueses.

Poderia ter sido outra pessoa.
Com outros gostos e não gostos.
Ainda poderei ser outra pessoa.

Mas hoje sou isto.
Tenho fotografias melhores.
Mas menos verdadeiras.
Tenho 41 anos.
Aconteceu-me uma vez uma grande dor.
Nos outros dias bastou-me ouvir o vento.


* foi coincidência o post ser no dia -801.
** frases, respectivamente de Álvaro de Campos e de Ruy Belo

Sunday, January 06, 2008

Dia -799

Oggi vorrei darti solamente di cose belli

«Como se não tivesse substância e de membros apagados.

Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.

E germinar no sono, germinar na árvore.

Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.

Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.

No encontro e no abandono, na última nudez,

respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.

Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.

E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila

e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.

Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.»

António Ramos Rosa - Nascimento Último

Friday, January 04, 2008

Dia -797

Grandes são os Desertos e tudo é Deserto

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

Thursday, January 03, 2008

Dia -796

Moi non plus

«Je n'ai pas besoin de lumière pour voir la couleur de mes idées»

Emile Zola - Germinal

En fait, c'est pour ça, par l'obscurité que permet les idées lumineuses, que j'aime la nuit.

Wednesday, January 02, 2008

Dia -795

Continuarei Fumando

"(...) Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando (...)"


Álvaro de Campos - Tabacaria

Tuesday, January 01, 2008

Dia -794

O Primeiro Dia do Ano e

não sei porquê, mas só me apetece ser lamechas.

Sunday, December 30, 2007

Dia -792

Anti-Balanço

Sinceramente. Acho disparatado. Fazer balanços.
Quer dizer... para que serve exactamente um balanço?
Aconteceram imensas coisas em 2007.
A mim. Na minha rua. No meu país e no mundo.
Pronto.
Não acontecem sempre imensas coisas em 365 dias?
Dos últimos 364 dias houve dois especialmente bonitos.
Os dias em que duas pessoas entraram na minha vida.
Ambas com a mesma força, deslumbramento e entusiasmo com que,
em crianças, fazemos amigos.
Bom Ano!

Friday, December 28, 2007

Dia -790

Ora aqui está!

"Não tenho culpa de ter nascido em Portugal, e exijo uma pátria que me mereça"

Almada Negreiros (citação do poeta/escritor/pintor e tudo... do Público de ontem... uma citação que eu lamentavelmente desconhecia)

Sunday, December 23, 2007

Dia -785

La La La La
La La La
La La La La
La La
La La La La


Ella Fitzgerald - Jingle Bells

Saturday, December 22, 2007

Dia -784

All I Want For Christmas...

Brook Benton - All I Want For Christmas

Thursday, December 20, 2007

Dia -782

Boas Festas

Bom Natal

E que 2008 seja um ano cheio.

De sucessos pessoais e profissionais.

De paz.

De alegria.

De bom humor.

E da beleza que ainda anda pelo mundo.


Joan Miró - Estrella Azul

Wednesday, December 19, 2007

Wednesday, December 12, 2007

Dia -774

Terceira

Fotografia roubada aqui

Desta vez não vou sair de Angra do Heroísmo.

O tempo vai estar chuvoso.

Mas isso também não é exactamente uma novidade.

O Angra Jazz já foi há uns meses.

O que é pena.

Mas dar umas aulas num sítio chamado Pico da Urze é poético.

E assenta-me bem.

Tuesday, December 11, 2007

Dia -773

É Natal, É Natal,
la la la la

Agora que já comprei as minhas prendas quase (quase) todas,
que já escrevi os meus cartões de natal quase (quase) todos...
já posso respirar de alívio e trautear um standard como o que aqui interpreta Diana Krall
- Have Yourself a Merry Little Christmas.

Monday, December 10, 2007

Dia -772

Eu nunca me calo

ou seja, raramente
( a não ser quando estou sozinha o que até acontece muitas vezes)
estamos em silêncio.
Que pensarás tu de mim?

Friday, December 07, 2007

Dia -769

Sim, é este mesmo o Fado mais bonito de sempre*



*Obrigada sem.se.ver pelo link. Canta 'a capela' Ana Laíns

Wednesday, December 05, 2007

Dia -767

Este é o Fado mais bonito de sempre




(Kátia Guerreiro - numa versão incompleta e roufenha. Muito roufenha.
Apesar de ter sido mandatária do nosso PR a moça tem uma belíssima voz)


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

(Alexandre O'Neill)



Tuesday, December 04, 2007

Dia -766

O Roberto Begnini canta muito mal*...


mas a letra desta música é tão bonita... não é?

<

Se tu mi avessi chiesto: "Come stai

se tu mi avessi chiesto dove andiamo

t'avrei risposto "bene, certo sai"

ti parlo però senza fiato

mi perdo nel tuo sguardo colossale,

la stella polare sei tu mi sfiori e ridi no, cosi non vale

non parlo e se non parlo poi sto male

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

e non lo sai perchè non te l'ho detto mai

anche se resto in silenzio, tu lo capisci da te

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto e non te lo dirò mai

nell'amor le parole non contano conta la musica.

Se tu mi avessi chiesto: "Che si fa?"

se tu mi avessi chiesto dove andiamo

t'avrei risposto dove il vento va

le nuvole fanno un ricamo

mi piove sulla testa un temporale

il cielo nascosto sei tu ma poi svanisce in mezzo alle parole

per questo io non parlo e poi sto male

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

e non lo sai perchè non te l'ho detto mai

anche se resto in silenzio, tu lo capisci da te

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto e non te lo dirò mai

nell'amor le parole non contano conta la musica.

Quanto t'ho amato e quanto t'amo non lo sai

non l'ho mai detto ma un giorno capirai

nell'amor le parole non contano conta la musica

(Roberto Benigni )

* A Amalia Grè canta isto bastante melhor...

Monday, December 03, 2007

Dia -765

Digestão Difícil

Ainda me encontro a digerir o indescritível concerto de Vinicio Capossela.
Aquilo deve ser uma cena alternativa qualquer que me escapa completamente.
Mas foi penoso.
Hesitei o concerto todo entre o riso nervoso escondido pelo cachecol e o queixo caído de espanto.
Confesso que ainda estou hesitante.
Mas devo ser eu que não tenho capacidade para entender estas cenas alternativas.
De certeza.