Sunday, November 20, 2005

Dia -27

O Ditador

Há trinta anos morria Francisco Franco. Hoje em 150 cidades do mundo passou o documentário realizado por seis jovens cineastas nascidos depois de 1975 - Entre o Ditador e Eu. Estes jovens nasceram depois da morte de Franco, já no caminho de Espanha para a democracia, sem violência, sem sobressaltos, sem rupturas fortes. Os seus pequenos filmes são tentativas de compreender o que se passou em Espanha antes do seu nascimento. A guerra civil, a ditadura. Tentativas de abrir um buraco no esquecimento colectivo. O que os seus documentários mostram é todo um povo que esqueceu. Ou que soube perdoar (não é o mesmo, afinal). De um modo ou de outro, um povo que não quer recordar, mas que apesar de tudo, abraçou a vida. Até ao futuro. Y que viva España!

Saturday, November 19, 2005

Dia -26

A Sopa
Tenho esta idade e nunca gostei muito de sopa. Comi hoje uma sopa que nunca tinha comido e que me reconciliou com todas as sopas, mesmo com as que rejeitei sempre. Comi uma sopa da pedra. Talvez pelo facto de parecer que se engoliu mesmo uma pedra da calçada, no fim, estou incapaz de ser contra o que quer que seja hoje. Especialmente a sopa.

Friday, November 18, 2005

Dia -25

O Trabalho

Tanta coisa para fazer. Tenho tanta coisa para fazer. Tanta. Tanta. Tanta.
Amanhã mesmo. Começarei.

Thursday, November 17, 2005

Dia -24

A Saudade

Não deviamos ter saudades. De nada. Nem ninguém. Estou aqui sentada. Sem fazer nada. Tenho os olhos (bem) abertos. Os sentidos alerta. a razão a funcionar. E esta coisa. Esta coisa no peito. Tenho tantas saudades tuas que nem consigo respirar. Não devíamos ter saudades. De nada. nem de ninguém. Não.

Wednesday, November 16, 2005

Dia -23

A Evidência
Ela perguntou-lhe. Passados tantos meses. Um ano, mais precisamente. Ela perguntou-lhe passado um ano. Qual é que achas que é o meu problema? Ele olhou-a. Fez um sorriso enorme. E um gesto largo com os braços. Abriu-os primeiro. Baixou-se com eles abertos. Ela percebeu. O problema dela era ser demasiado sufocante. Ele sentou-se novamente, com os braços ao longo do corpo. Olhou de novo para ela e sem sorrir disse. Talvez. Seja suposto ser mesmo assim. Contigo.

Tuesday, November 15, 2005

Dia -22

O Engate
Isabela era feia como, dizem, é a noite. Dizem. Não sei. Para mim a noite é sempre mais bonita que um dia qualquer. Mas Isabela era feia. Feia de fugir. Feia como uma máquina de lavar enferrujada que alguém deixa na beira da estrada. Isabela era feia. E estava sozinha. Sozinha como, dizem, um cão. Não sei. Vejo sempre cães em bando. Mas Isabela estava sozinha. S o z i n h a. Entrou Isabela no café. Não levava livros porque não gostava de ler. Não levava o telemóvel porque ninguém lhe telefonava. Não levava nada a não ser a sua fealdade e a sua solidão. Foi suficiente. Numa mesa do fundo, Aníbal, lindo de morrer. Não sei. Se morrer será assim tão bonito. No meio de um telefonema e com um livro virado para baixo, a mostrar as letras ao mármore, viu Isabela, feia e despojada entrar. Teve um 'coup de foudre'. Piscou-lhe o olho, sorriu-lhe, acenou-lhe de leve. Isabela nem pestanejou. Pensou: que pena, um homem tão bonito e cheio de tiques.

Monday, November 14, 2005

Dia -21

A Teia
Primeiro aproxima-se. E observa. E ajuíza. Pesa. Valoriza. Desvaloriza. Ajuíza de novo. Pesa novamente. Pensa. De si para si. Hum... Hum... pode ser. Tece. A primeira malha. A segunda. A terceira. A quarta. Consegue enredar. Enreda. Tece o enredo. Vê o filme todo. Atrapalha-se. Observa a teia. Pesa. Ajuíza. Valoriza. Desvaloriza. Corta os fios.

Sunday, November 13, 2005

Dia -20

O Fumo
Fumo até se me encherem os olhos de fumo. Não vejo um palmo à minha frente e no entanto, continuo. Fumando. Como quem não vê o que está para acontecer. Mais tarde. Ou mais cedo. Há-de acontecer. Por enquanto. Fumo

Saturday, November 12, 2005

Dia -19

A Coisa
Não ser grande coisa. Não ser uma pequena coisa. Uma coisa grande. Ou uma coisa pequena.
Ser uma coisa diferente. Uma coisa. Qualquer coisa.

Friday, November 11, 2005

Dia -18

O Telefonema
Estou. Sim, sou eu. Sim. Não tenho muito tempo. Estou num táxi. Não posso falar agora. Pois. Não. Não te amo. Disse? Pois. Mas não. Foi só uma atracção. Estas coisas acontecem. Sim. O quê? Acreditaste? Pois. Não quero saber que estejas mal. Vai falar disso com outra pessoa. Comigo não. Não, não acho que seja responsável pelo que estás a sentir. As minhas coisas? Fica com elas. O quê? Oh pá, não quero saber delas. Deita-as fora, faz o que quiseres. Sim. Não posso falar agora. Vou jantar. Com quem? Sozinho. Sim. Não gosto de ti, não. Mas podemos ser amigos. Sim, amigos, que é que foi? Não? Pois. Está bem. Se não queres, está bem. Não quero ver-te, não. Não quero falar contigo, não. Oh pá, vou desligar. Deixa-me em paz, sim? Se te disse que te amava enganei-me, queres que faça o quê? Foi uma atracção, já te disse. Vou desligar. Olha que eu desligo! Queres o quê? Não, já te disse que não te quero ver mais, nem falar contigo. Deixa-me desligar, anda lá. Esses jogos não. Não estou com paciência para jogos desses. Amas-me? Que queres que faça? A semana passada eu disse isso? Enganei-me. Anda, vai falar disso com outra pessoa. Já te disse que não. Não. A Paris? Se ainda vamos a Paris? Nunca se sabe o dia de amanhã. O quê? Pois. Não sei. Agora não posso falar. Já cheguei. Vou jantar. Já te disse, sozinho. Vou jantar sozinho. Vou desligar, agora. Vou desligar.

Thursday, November 10, 2005

Dia -17

A Manhã
Não sei com que se parecem as manhãs. Salto-as todas. Acordo tarde. Cada vez mais tarde.
Até quando?

Wednesday, November 09, 2005

Dia -16

A Troca
Não sei porque dramatizamos tanto o fim. Do que quer que seja.
Por cada coisa, pessoa, situação, etc. que acaba, aparecem sempre outras. Novas. Para a troca.

Tuesday, November 08, 2005

Dia -15

A Solução
Como dizem os chineses:
se um problema tem solução está resolvido.
Se não tem solução, também está resolvido.
Ou seja, não vale a pena pensar muito nos problemas. Mas sim nas soluções, caso existam.

Monday, November 07, 2005

Dia -14

O Sol de Inverno
Gosto do sol. Só no Inverno.

Sunday, November 06, 2005

Dia -13

O Livro
Devolve-me o livro que te dei quando pensei que gostava de ti. Não gostava. Afinal o livro faz-me bastante mais falta que tu.

Saturday, November 05, 2005

Dia -12

O Cinema
Gosto muito de cinema. Mesmo. Tanto que não sou capaz de ver filmes na televisão. Só numa sala. De cinema. De preferência sozinha. Gosto tanto de cinema que a maior parte das vezes penso 'tirem-me deste filme'.

Friday, November 04, 2005

Dia -11

O Horóscopo
Não percebo. Se percebesse e acreditasse. Se acreditasse sem perceber.
Talvez fosse mais feliz. A culpa nunca seria minha. Nem dos outros. Mas dos astros.

Dia -10

O Recado
Queria dizer-te. Dizer-te que sei. Sei algumas coisas. E nem sei eu nem sabes tu do que serei capaz de fazer com aquilo que sei. Tanto certamente como tudo o que serei capaz de fazer com aquilo que não sei. A (ir)racionalidade tem meandros pouco claros. E no entanto quase tudo é perfeitamente racional e calculado. Mesmo o que ainda não sei que sou capaz de fazer. Mesmo o que só imagino fazer nos meus mais delirantes pensamentos. Todos contra ti. Nem um só a teu favor. Incendiar-te a casa. Partir-te as duas mãos. Vazar-te os olhos. Reduzir-te a pó. Reduzir-te a nada. Nem sequer a um vago pensamento que de vez em quando me atravessaria a mente. Reduzir-te não. Eliminar-te de todos os meus itinerários. Eliminar-te de mim. Compreendo agora, como nunca compreendi antes, alguns actos completamente vis que um ser humano é capaz de praticar contra outro ser humano. E fá-los-ia. Se.
Se não fosse esta ténue sensação de que ainda sou humana
Se. Se não fosse esta sensação de que somos cartilagens de asas de pássaro. Ambos.
Se não fosse isso partia-te a cara, as duas pernas, os dentes. Queimava-te o cabelo. Destruía-te os sonhos que ainda te restam. Rasgava-te os livros. Despedaçava-te os discos. Comia-te o coração e exigiria que a tua cabeça me fosse oferecida numa travessa.
Uma coisa sei. Eu não sou assim. Mas estou assim. Tomada de assalto por este concreto sentimento de raiva. Por esta concreta dor de não saber a razão. De saber que nunca saberei a razão.
Tenho de ter cuidado comigo.
Nunca se sabe o que serei capaz de fazer com as coisas que não sei.

Wednesday, November 02, 2005

Dia -9

A Sorte
Primeiro o piano. Depois o saxofone. Depois o clarinete. E de novo o saxofone. A bateria. O contrabaixo. A vida seria muito menos interessante se o Jazz não existisse. E se eu não tivesse sorte. A sorte de em cinco dias poder assistir a três grandes concertos. Primeiro o Uri Caine, a solo. Depois o David Binney, em sexteto. Finalmente, amanhã, o trio maravilha: Aldo Romano, Louis Sclavis e Henri Texier. Tenho mesmo sorte. Hei-de lembrar-me da sorte que tenho quando me passar pela cabeça armar-me no que não sou: forte.

Tuesday, November 01, 2005

Dia -8

O Medo
Tens tanto medo que não respiras. Tens tanto medo que apagas tudo.
Como se fosse possível apagar tudo. Apagar a memória.
Apagar o medo do que ainda está para vir. Olhas as fotografias e tens medo.
Olhas aquela cara, agora estranha, e tens medo.
Sabes que tens medo e que não podes fugir para sítio nenhum.
Estás pendurado num estranho sítio. Não podes sair. Não podes fugir.
Tinhas de matar. Sem morrer. O amor é como a guerra. Aprende a matar. Aprende a fugir.
Aprende a separar os teus inimigos dos teus amigos. Aprende a viver. Com medo.