Friday, December 09, 2005

Dia -46

A Playstation
O meu sobrinho emprestado (que ainda não lê blogs, mas livros do capitão cuecas) anda a pedir uma playstation desde os quatro anos. Houve uma decisão lá em casa de que o miúdo teria a playsation no fim da 4ª classe. Pois. Ele ainda agora começou a 2ª e tanta foi a pressão que decidi (com o acordo dos seus pais) oferecer-lhe uma este ano. Ele ainda não sabe, mas acho que desconfia. A caixa é enorme. O laço imponente. Acho que só por isso a cara dele vai brilhar quando eu chegar com tal oferta nas mãos. Mas no processo da compra vi-me tão atordoada que estive a escassos passos de desistir. Fiquei a olhar com cara de parva para o vendedor que me explicava as especificidades de cada um dos muitos modelos à venda. Dos jogos que se podiam jogar nesta, na outra, nos acessórios que se poderiam comprar. Acabei por me decidir por um deles, sem saber exactamente se tomei a decisão correcta. Uma coisa me preocupa. O meu sobrinho tem computador, hi-fi, tv, dvd, game boy. Quando lhe falta alguma destas coisas pede o telemóvel emprestado a quem quer que seja para jogar um qualquer jogo.
Estou bastante arrependida. Por minha causa o puto vai passar mais tempo ligado a uma máquina. Acho que vai acabar por se esquecer dos livros do capitão cuecas. E de me dar mimos.

Thursday, December 08, 2005

Dia -45

As Compras
As pessoas acotovelam-se. Andam depressa. Estranhamente andam mais simpáticas.
Fazem-se embrulhos em papel colorido.
Com laços ainda mais coloridos e brilhantes.
As pessoas esperam em filas aparentemente intermináveis para pagar.
Para que lhes façam os embrulhos.
Para que lhes ponham os laços.
Saem das lojas carregadas com sacos e saquinhos. Caixas e caixotes.
A época das compras de Natal começou.
Faltam 15 dias para o Natal e eu ainda só comprei quatro presentes.
De uma lista de muitos mais.
Sempre gostei de oferecer prendas. Mas não sei o que se passa comigo este ano.
Nem as luzes me seduzem. Nem as filas me encantam. Nem imaginar a cara das pessoas a desembrulhar caixas e a abrir os saquinhos que lhes vou dar, me motiva.
Estarei deprimida ou apenas farta que tanto brilho, simpatia e dádiva aconteça apenas uma vez por ano?

Wednesday, December 07, 2005

Dia -44

A Escuridão
Disseram-me hoje que este registo era sombrio. Fiquei a pensar. Na luz e na escuridão.
No sol e na sombra. E em mim, no meio de tudo isso. Efectivamente.
Tenho uma tendência para me vestir de preto desde que me conheço.
Detesto as manhãs e o sol. Gosto da noite. E é de noite que faço a maior parte das coisas que os outros fazem durante o dia. Tenho sempre poucas luzes acesas, mesmo para ler.
Durante o dia costumo ter as persianas corridas. Tenho um amigo que me chama morceguinha.
A minha mãe acha que me trocaram na maternidade.
Que devo descender de uma qualquer linhagem de vampiros.
Este registo é sombrio?
Talvez. Mas adequa-se.

Tuesday, December 06, 2005

Dia -43

O Tempo

Está a fazer-se cada vez mais tarde. Sabes? Está a fazer-se cada vez mais tarde para tudo.
Para os livros que (já não) serei capaz de ler.
Para os homens que (já não) serei capaz de amar.
Para as palavras que (já não) serei capaz de escrever.
Para os olhos que (já não) serei capaz de olhar.
Para as pessoas que (já não) serei capaz de suportar.
Para a música que (já não) serei capaz de ouvir.
Para os países que (já não) serei capaz de visitar.
Está a fazer-se cada vez mais tarde. Sabes?
Afinal. O tempo não é aquilo que fazemos.
Mas o que (já não) faremos.

Dia -42

A Dor
Ela disse-lhe. É verdade. Mesmo porque, se pensarmos bem não temos nada em comum.
Ele concordou. Já tinha concordado, sem ela saber.
Passado um instante atirou-lhe, como quem lhe atira com o sol do meio dia em cheio na cara. Acho que ambos partilhamos uma dor profunda.
Há qualquer coisa nas pessoas com uma dor assim que as torna iguais.
Ela ficou a pensar naquilo. No modo como eram tão diferentes numa dor idêntica.
E no modo como isso não tinha qualquer interesse. Para ambos.

Monday, December 05, 2005

Dia -41

A Vida
Tenho de procurar incentivos para me levantar da cama. Quando abro os olhos, já tarde, costumo sempre levar uma meia hora a pensar na razão pela qual tenho de me levantar da cama. E nunca. Nunca encontro nada. A não ser os encontros e os deveres com horas marcadas. De resto. Naquela meia hora vejo a minha vida toda passar-me diante dos olhos. E asseguro. Não encontro. Nunca. Nada.

Saturday, December 03, 2005

Dia -40

A Importância
As coisas têm somente a importância que lhes atribuímos. Com o passar do tempo. E das coisas. Aprendi a não dar importância a nada. Especialmente ao que me dizem que sentem. Especialmente ao que sinto.

Friday, December 02, 2005

Dia -39

A Eternidade
É o tempo que dura. Mas acaba por passar. O tempo. O que sentiste já foi. Não penses mais nisso. O que sentirás, ainda não é. Continua a não pensar nisso.
Aliás, não penses. Nunca mais penses.
Para toda a eternidade, nunca mais te atrevas a pensar.
Aceita apenas o que te quiserem dar.
Para toda a eternidade, nunca mais te atrevas.
A pedir. Ou a querer.

Thursday, December 01, 2005

Dia de Intervalo

O Risco*
joana amou francisco que amou maria que amou cristina que amou joão que amou david que amou leonor que amou armando que amou teresa que amou filomena que amou fernando que amou antónio que amou vanessa que amou manuel que amou alfredo que amou alberta que amou sandra que amou joaquim que amou marta que amou gonçalo que amou luís que amou joana que amou fernando que amou alberto que amou luísa que amou francisco...
o amor pode ser uma teia.
demasiado arriscada. demasiado perigosa.
e fatal.
*pode parecer mas não tem nada a ver. nem com a quadrilha de Carlos Drummond de Andrade nem com na flor da idade de Chico Buarque

Dia -38

O Silêncio
Toca o Nocturno do Sassetti. Poderia tocar a Inquietude. Há neste silêncio uma dimensão de inquietação. Como há-de haver na maior parte dos silêncios. Gosto de alguns silêncios.
Os silêncios nocturnos. Os silêncios cheios de expectativa. Os silêncios sossegados.
Os silêncios vagarosos. Os silêncios dos olhares que se cruzam e se prendem.
Os silêncios das bocas que se juntam. Os silêncios das mãos.
Tens razão.
Não vale a pena encher de palavras aquilo que se pode dizer tão melhor sem dizer nada.

Wednesday, November 30, 2005

Dia -37

O Abel
Eu teria 14 anos, 14 para 15 anos. O Abel 17 para 18. Lembro-me de um dia, longe de casa. Da minha. Mas demasiado perto da dele. Eu tinha uma t-shirt vermelha, e umas calças de ganga, rotas. Eu tinha uma trança enorme, com um laço na ponta. Foi o meu avô Alberto que me colocou o laço na ponta, nesse, como nos outros dias em que eu estava longe de casa. O meu avô Alberto gostava da minha trança. Talvez fosse o que ele mais gostava em mim. Da minha longa trança. Dizia o meu avô que não havia trança mais bonita e que uma trança assim tinha que ter um enorme laço a rematá-la. E colocava-me o laço. Orgulhoso dos meus cabelos. Mais que eu. Que achava horrível ter 14 para 15 anos e uma trança daquelas a cair por mim abaixo. Mas o Abel também gostava da minha trança, se bem que admirasse mais as minhas mamas. 17 anos. Hormonas a saltar dentro dele todo. E eu era uma miúda gira. Ou seriam as minhas mamas que eram. Já não sei. Apesar da trança. Desculpa avô Alberto. Mas eu só comecei a gostar da minha trança no dia em que fiz 18 anos e rapei o cabelo. E. de repente, senti a falta da trança e da tua mão a pôr-me o laço. Mas tu isso já não soubeste. Já tinhas morrido e nunca mais ninguém se tinha interessado se a minha trança merecia um laço ou não. Mas o Abel, naquele dia, sentados ambos no degrau da casa dele atirou-me do fundo dos olhos verdes: tu queres namorar comigo? E eu fiquei a remexer na trança e a olhar para ele como se nunca o tivesse visto e pensei de mim para a minha trança: mas o que é que este quer? Quer dizer, não era a pergunta a novidade. Eu disse que era uma miúda gira. Apesar da trança. Ou por ela. Ou mesmo pelo laço. Era o Abel a fazer-me a pergunta, a novidade. Na verdade, se fosse hoje saberia porque é que não lhe respondi logo e o deixei pendurado como a trança, na resposta. Mas isso era hoje. Naquele dia, a só pensei o que é que este gajo quer? Na verdade, não sabia o que é que ele queria. Apesar das hormonas. Aos saltos. Bom, mas isso é o que querem todos e o que depois dele todos quiseram, de facto. E está bem. Eu também quero e também quis. Sem nenhuma excepção, ao que me lembro. Mas o que ele queria era ensinar-me coisas. E ensinou-me todas essas coisas das hormonas. Dos saltos. Dos livros. Da erva. Da distância sem sentido. Do querer até não poder mais e de poder tudo. Até querer. Ensinou-me a trair. Delimitou-me as estradas que haveria sempre de seguir. O Abel foi assim uma espécie de mapa sem cidades, só com caminhos. Quando o deixei um dia qualquer, muitas hormonas depois, muitos livros a seguir, muitos charros entretanto, muitas bebedeiras adiante, muitos sentidos desvendados, muitas traições bem cumpridas, no meio de um centro comercial lisboeta apinhado de gente... quando o deixei depois de lhe ter dito 'venho já'. Quando nunca mais lhe atendi o telefone. Adiante. Tinha o mapa das estradas traçado. O meu. Nunca foi muito diferente depois disso, a não ser que, outras vezes, foi também a mim que me deixaram pendurada na vida, sem o letreiro 'volto já'. Ou que não me atenderam o telefone. Mas os caminhos estavam traçados. E por acaso segui-os. O padrão que havia de seguir e errar e seguir e errar e errar e seguir. Adiante. Depois. Estava traçado. Para além disso, a única coisa que restou do Abel, de mim, da minha trança e do laçarote que me punha nela o meu avô Alberto, ainda é visível. E permanece. Está cravada, em letras monumentais, numa parede ao pé da casa dele (demasiado longe da minha, para que me alimente o ego) 'Amo-te B.' A B. sou eu, bem entendido.

Tuesday, November 29, 2005

Dia -36

A Poesia
Um dia a poesia dominará o mundo. Não é exactamente uma notícia de última hora. É certo.
Sinto uma certa forma de poesia que cresce comigo. Ao mesmo ritmo.
Um dia a poesia dominará o meu mundo. Porque é de poesia que se trata a cada gesto.
Cada palavra atirada contra muros de silêncio ou de indiferença. É de poesia que se trata cada posição que defendemos. É de poesia que se trata quando as dúvidas são a única coisa que nos resta. Para ver a verdade. Ou mais apropriadamente, as verdades. E até. Para vencer.
O medo.

Monday, November 28, 2005

Dia -35

O Passo
Dar um passo. Depois outro. Como é que se reduz a distância, só com passos? Como se reduz a estranheza?

Sunday, November 27, 2005

Dia -34

O Desejo
Estou transtornada. Oh pá. Deixa-me comer-te. Devagar. Que tenho pressa. Pressa de te comer. Devagarinho.

Saturday, November 26, 2005

Dia -33

A Voz
Tu sabes que não és tu. Que é a tua voz. Fico sem saber o que dizer. Quando te ouço.
A tua voz faz-me falta. Não sei porque razão. Talvez. Não seja necessária qualquer razão.
Talvez a única razão seja a tua voz. A única. A grande. Razão. E tenho medo. De deixar de ouvir a tua voz. E tenho medo. De continuar a ouvir a tua voz. E tenho medo que tu não sejas. A tua voz. E tenho medo que a tua voz. Não sejas. Tu. Tenho medo. Porra! Tenho medo. Estás aí? Tenho medo. Destas ondas. Tenho medo. Da tua voz.

Friday, November 25, 2005

Dia -32

O Mesmo
Sempre. Do mesmo modo. O mesmo. A mesma história. As mesmas conversas. A mesma troca.
A mesma coisa. Sempre. As mesmas pessoas, vestidas de outras. Mas as mesmas. O mesmo cigarro. Continuamente. A mesma cerveja. Preta. Sempre. A mesma conversa. O mesmo bar.
A mesma música, com outras notas. Mas a mesma. O mesmo livro. Com letras diferentes. Com histórias diferentes. Mas o mesmo. A mesma história. O mesmo planeta.
As mesmas razões para mudar. As mesmas para permanecer. Sempre a mesma treta.
Sempre o mesmo encanto. Sempre o mesmo desencanto.
Sempre o mesmo olhar em todas as pessoas. Sempre o mesmo.
Mesmo que seja estranho. A estranheza é a mesma.

Thursday, November 24, 2005

Dia -31

Desculpa&Obrigada
É mais forte que eu. Passo o tempo a pedir desculpa. E a dizer obrigada.
Desculpem.
E obrigada.

Wednesday, November 23, 2005

Dia -30

A Tristeza

É um estado passageiro. Tal e qual como a alegria. Devíamos lembrar-nos disto. Em ambos os casos.

Tuesday, November 22, 2005

Dia -29

A Reunião
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.
Marcamos, então, outra reunião para a próxima semana. Para continuar a discussão.
Patati patata. Patata patati. E patati patata. Patata. Patati. Patati. Patata.

Monday, November 21, 2005

Dia -28

O Escritor
Há em Portugal um escritor que me faz chorar. E rir. E querer saber escrever como ele. Ter aquela capacidade de pôr lágrimas dentro de uma palavra. Ou sorrisos. Ou gargalhadas. Ou a vida toda dentro de uma palavra. Ninguém escreve como ele. Nunca ninguém escreverá como ele. Contra todas as mortes. As pequeníssimas e a derradeira.
Obrigada, António.